Descobertas da terça

Textos reunidos das últimas duas décadas

4 filmes no Prime Video para ver hoje — escolhas certeiras para todos os gostos, sem arrependimento

Por: Amanda Silva

Fonte: Revista Bula | Publicado em: 07/09/2025

cinema de gênero, estética do expressionismo alemão, representação histórica no cinema, narrativas de sobrevivência, cultura americana anos 1970

O catálogo do Prime Video reúne produções de diferentes épocas e estilos, permitindo ao espectador escolher entre narrativas de ação intensa, retratos de juventude, dramas históricos ou releituras de clássicos do terror. A seleção a seguir propõe quatro títulos que ilustram bem essa diversidade, cada um inserido em um contexto específico, tanto narrativo quanto estético, e capazes de dialogar com públicos variados ao longo de uma mesma sessão.

De um lado, há uma obra que redefine a lógica do cinema de perseguição e que se tornou referência pelo rigor visual e pela forma como articula escassez e resistência em um mundo devastado. Em outra direção, um longa ambientado nos anos 1970 recria com atenção a atmosfera cultural do período, acompanhando personagens em trânsito entre a inocência juvenil e a experiência adulta. A proposta é observar como relações improvisadas, permeadas por negócios casuais e afetos em construção, podem se transformar em um retrato fragmentado de uma geração.

A lista também inclui um drama de guerra que resgata memórias individuais em meio à violência sistemática. Nele, um jovem judeu utiliza suas habilidades artísticas não apenas como forma de sobrevivência, mas também como recurso para salvar outras vidas, evidenciando como humor e criatividade podem coexistir em contextos de ameaça constante. O risco de captura pela Gestapo contrasta com a vitalidade das festas e encontros sociais, compondo um mosaico de coragem e disfarce.

Por fim, há espaço para o retorno a um dos mitos mais duradouros do horror. A releitura contemporânea de um clássico do expressionismo alemão explora ambientes góticos, contrastes visuais e trilha melancólica para revisitar o vampiro como figura de desejo e morte. O filme amplia personagens secundários e expõe tensões ligadas à obsessão, ao sacrifício e à entrega, reafirmando a permanência de narrativas que atravessam séculos.

Nosferatu (2024), Robert Eggers

Divulgação / Focus Features

Na Europa do século 19, um corretor de imóveis viaja a uma região remota para negociar uma propriedade com um nobre recluso. No castelo, descobre um vampiro que estabelece uma ligação psíquica perturbadora com sua esposa, que ficou na cidade portuária onde vivem. O retorno do viajante marca a chegada do predador, que passa a assombrar a jovem e espalhar terror pela comunidade. A história se apoia em atmosfera gótica, fotografia em alto contraste e cenários detalhados que recuperam o impacto do expressionismo silencioso. A narrativa expande personagens coadjuvantes, incluindo um estudioso do oculto, para reforçar a rede de obsessões e sacrifícios. A presença hipnótica do vampiro e o enfrentamento final destacam temas de desejo, morte e entrega. A trilha sonora melancólica e a composição visual rigorosa transformam a releitura em um mergulho sombrio que preserva a essência de um mito do horror e oferece um espetáculo moderno de beleza cruel.

O Falsificador (2022), Maggie Peren

Aisling Franciosi: Uma jovem mulher olha ternamente para um homem enquanto ambos estão deitados em uma cama em um ambiente com iluminação dramática.Divulgação / DREIFILM

Em Berlim, 1942, um jovem judeu de 21 anos recusa o silêncio e cria para si a identidade de um oficial da marinha. Com essa fachada, passa a circular pela cidade e usa suas habilidades artísticas para fabricar documentos falsos. Atuando em uma rede clandestina, dedica-se a produzir passaportes e autorizações que permitem salvar pessoas da perseguição nazista. A cada novo pedido, cresce o risco de ser descoberto pela Gestapo, mas também aumenta o número de vidas alcançadas por seu trabalho. Em meio a festas noturnas, encontros afetivos e o constante perigo da captura, o protagonista se firma como exemplo de coragem criativa. Baseada nas memórias de Cioma Schönhaus, a narrativa combina leveza e tensão, mostrando como humor e arte podem coexistir mesmo em tempos de horror.

Licorice Pizza (2021), Paul Thomas Anderson

Divulgação / MGM

No Vale de San Fernando, em 1973, um adolescente expansivo cruza o caminho de uma jovem em busca de rumo. A relação nasce da espontaneidade e se constrói em negócios improvisados, conversas dispersas e momentos de companheirismo que os levam por ruas, feiras e festas da região. Entre encontros com figuras conhecidas da cultura californiana, ciúmes e descobertas, os dois aprendem a lidar com maturidade e inocência ao mesmo tempo. A ambientação recria com rigor os anos 1970, da música às roupas, dando à narrativa uma textura nostálgica. O tom se mantém leve, mas revela camadas de ambição, vulnerabilidade e ternura. O resultado é um mosaico de juventude que retrata afetos em formação e a linha difusa entre amizade, cumplicidade e romance.

Mad Max: Estrada da Fúria (2015), George Miller

Divulgação / Warner Bros.

Em um deserto devastado por guerras, um andarilho assombrado por lembranças é capturado por seguidores de um tirano que controla água e combustível. Sua rota muda quando encontra uma guerreira que decide libertar mulheres mantidas como escravas e desafiar a ordem imposta pelo déspota. A fuga acontece em um caminhão blindado e desencadeia uma perseguição incessante por territórios áridos. O isolamento inicial do viajante dá lugar a uma parceria que se transforma em resistência coletiva. A narrativa constrói uma jornada de retorno para enfrentar o opressor dentro de sua própria fortaleza. A montagem veloz, os efeitos práticos e a intensidade das cenas de perseguição reforçam a materialidade das sequências. O resultado é um espetáculo de ação que também reflete sobre escassez, poder e a possibilidade de redenção em meio ao caos.

Texto originalmente publicado em Revista Bula

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American Psycho

Fonte: I keep making these to-read lists and nothing gets crossed out | Publicado em: 01/09/2016

sátira social, literatura americana, psicopatia, misoginia, anos 80, crítica literária

A escolha mais macabra possível para um book club de uma instituição financeira.


Há uns anos li o Less than Zero e gostei muito de toda a atmosfera pessimista e desoladora do livro. Há também muitos anos que queria ler este (sem nunca ter visto o filme, para não variar).

Uma das admissões mais chocantes a fazer acerca deste livro é que sinto que o teria apreciado muito mais - como em, gostado muito mais da leitura - se tivesse 16 anos. Nessa altura, lia Chuck Palahniuk e achava piada a toda essa cultura alternativa de cult classics. Ainda acho - mas American Psycho caiu-me mal.

Patrick Bateman tem, como eu, 26 anos e, como eu, trabalha numa instituição financeira (sintam o porquê de eu achar uma escolha macabra para um book club laboral). É o narrador e personagem principal deste livro, e a narrativa passa por tópicos extremamente repetitivos: no início, descrições extensas e patéticas da roupa cara e de designer que toda a gente do seu círculo tem vestida, os restaurantes a que vão, a comida que comem, a conta dos mesmos restaurantes, a água que bebem, os aparelhos caros que têm em casa, o racismo, sexismo e elitismo de todas as personagens; a forma como Bateman vê obsessivamente e lista os tópicos de um programa fictício, o Patty Winters Show, antidepressivos, cocaína, muito exercício físico, manicuras e penteados; os vários nomes pelos quais toda a gente é tratada, porque são todos tão idênticos e/ou demasiado centrados em si próprios para distinguir terceiros.

Superficial, superficial, superficial.

É uma sátira de uma sociedade dos anos 80 nos Estados Unidos, em New York para ser mais precisa; Patrick Bateman identifica-se pela roupa que veste, os produtos que usa, os lugares onde come, o exercício que faz: o dinheiro que tem. Sendo maçudo, não é exactamente mau. As primeiras muitas páginas são passadas a observar pessoas ricas a serem ricas e desagradáveis, Patrick a ter reacções pouco normais a coisas como a incapacidade de reservar uma mesa no restaurante do momento, Patrick a dizer coisas perturbadoras aos seus amigos, os seus amigos a aparentemente não ouvirem, a acharem que ele é óptimo rapaz e incapaz de fazer mal a uma mosca.

I like to dissect girls. Did you know I'm utterly insane?

Bateman é um assassino. Assassina um sem-abrigo, um colega de trabalho, uma criança, mas a sua verdadeira paixão é torturar e assassinar mulheres.

E é aqui que o livro de certa forma muda, porque após Bateman insinuar alguns homicídios e começar a cometê-los e descrevê-los, o livro torna-se caótico, a falta de cronologia torna-se evidente, e pior, o livro torna-se aborrecido. Bateman tortura e mata repetidamente e as cenas fizeram-me pensar frequentemente "não, não, não, não". Cenas sexuais macabras, tortura sexual, tortura pura. Não consigo compreender estas cenas enquanto absolutamente necessárias. E a partir daqui, quando nenhum detalhe nos é poupado, tudo o que acontece é o surgir de novas mulheres para morrerem, novos métodos de tortura, nada de muito novo.

I imagine her naked, murdered, maggots burrowing, feasting on her stomach, tits blackened by cigarette burns, Libby eating this corpse out, then I clear my throat.

Este livro foi muito mais macabro do que eu pensava, a muitos, muitos níveis.

Algumas tentativas de uma narrativa surgem: Bateman mata um colega chato, Paul Owen, por este estar a tratar de uma conta cobiçada, e começa a usar o seu apartamento como recipiente para restos mortais. Um detective eventualmente vai ter com Bateman, em busca de Paul Owen, mas este é repetidamente avistado em Londres e Bateman está além de qualquer suspeita, apesar de o apartamento estar sob vigia.

E o livro perde-se um bocado, torna-se numa série de eventos banais da vida de Patrick Bateman, sendo que o banal para ele vai desde exercício físico a homicídios a fingir que trabalha a ir às compras a alucinar. Sente-se uma batalha constante com a sua saúde mental - não que ele se sinta mal, que sinta culpa, mas sente a falta de controlo. É, no entanto, impossível simpatizar com Bateman, bem como com praticamente qualquer outra pessoa no livro.

Destaca-se a incapacidade de o apanharem ou suspeitarem sequer de Bateman no meio de todos estes crimes. Quando Bateman, a certa altura, tenta regressar a casa de Paul Owen, descobre que esta está simplesmente à venda. Mais tarde, sabe que há quem tenha jantado com ele em Londres. Será que todos estes eventos extremamente brutais aconteceram de verdade, ou foram as horrendas alucinações de um indivíduo psicótico?

(...) there is an idea of a Patrick Bateman, some kind of abstraction, but there is no real me, only an entity, something illusory, and though I can hide my cold gaze and you can shake my hand and feel flesh gripping yours and maybe you can even sense our lifestyles are probably comparable: I simply am not there.

Mais: a certa altura, Patrick decide telefonar ao seu advogado e deixa uma longa mensagem no gravador de chamadas a descrever os seus actos macabros, os seus crimes. Quando, mais tarde, encontra o advogado, este confunde-o com outra pessoa e diz que o telefonema teve imensa piada, e se Patrick não fosse tão boa pessoa, tão certinho, quase que acreditava.

Patrick Bateman sai ileso de todas as tentativas de confissão do que se passa na sua cabeça.

O outro problema é que isto não precisava de ter tantas páginas. Não sou, pessoalmente, fã de conversas repetitivas sobre modas e bronzeados e a maneira correcta de usar sapatos castanhos e qual a melhor água engarrafada ou, pior, detalhes absurdos sobre a carreira da Whitney Houston. É entediante, tal como o narrador é.

Será que Bateman se tornou assim por ser tão rico e estar tão aborrecido e o mundo ser um lugar tão vazio que ele não tinha nada para conseguir, conquistar, desejar - nada por que tivesse de lutar? O que é que se faz quando a vida é tão vazia?

De salientar também aquela que creio ser uma crítica frequente ao livro: Bateman não é particularmente criterioso com quem mata, mas guarda os desmembramentos, ratos e berbequins e canibalismo para mulheres (que são as vítimas mais frequentes). E os homicídios destas mulheres são extremamente sexualizados, geralmente cometidos após o acto. Violações, espancamentos, torturas extremamente detalhadas e nauseantes. A misoginia é tão pronunciada que não me parece acidental ou parte de uma misantropia generalizada.

E isto é extremamente repetitivo. Bateman fala sobre coisas insignificantes e banais e mundanas de forma repetitiva, ninguém sabe quem é quem porque no fundo são todos o mesmo produto da mesma sociedade, Bateman participa em actos sexuais extremos e pouco apelativos e depois há um homicídio horrendo. Rise and repeat.

O livro acaba abruptamente. Tal como começou, Bateman encontra-se com o seu círculo de amigos numa conversa absolutamente banal. Fiquei chateada porque acabou do nada, confesso - há livros em que isso funciona, mas neste não senti isso. Não há justiça, não há redenção, não há mudança ou crescimento em Bateman. Compreendo o valor e a importância do livro - percebo como Bret Easton Ellis abriu caminho para, por exemplo, Chuck Palahniuk, que era o autor preferido dos meus 16 anos (lá está, teria apreciado esta obra muito mais por essa altura). Mas não consigo atribuir valor a um livro tão desprovido de significado, quando podia ter sido uma óptima sátira de uma sociedade, para ser apenas um conjunto de pornografia e terror.

2/5


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Texto originalmente publicado em I keep making these to-read lists and nothing gets crossed out

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Edmond Haraucourt - O Melhor Verso

Fonte: Blog do Castorp | Publicado em: 01/02/2017

poesia simbolista francesa, estética do inefável, tradução literária, literatura do século XIX, poética do silêncio

Os mais belos versos escritos pelo poeta, segundo Haraucourt, não são exatamente aqueles que escreveu, mas aqueles que jamais haverá de escrever, tributários que são dos benditos grilhões do amor, sob os quais a sua amada poderá lê-los, em silêncio, numa noite em que as duas mentes se encontrarem.

É isso que Haraucourt promete à Dulcineia que se decida a amá-lo: fazê-la ver o espaço intraduzível encoberto por poemas, um secreto e edênico jardim, flor dos nossos sonhos, onde o pecado da arte jamais terá penetrado.

J.A.R. – H.C.

António Nobre: Retrato em preto e branco de um homem com bigode e cavanhaque, vestindo um paletó escuro e colarinho branco.

Edmond Haraucourt

(1856-1941)

Les Plus Beaux Vers

Les plus beaux vers sont ceux qu’on n’écrira jamais,

Fleurs de rêve dont l’âme a respiré l’arôme,

Lueurs d’un infini, sourires d’un fantôme,

Voix des plaines que l’on entend sur les sommets.

L’intraduisible espace est hanté de poèmes,

Mystérieux exil, Eden, jardin sacré

Où le péché de l’art n’a jamais pénétré,

Mais que tu pourras voir quelque jour, si tu m’aimes.

Quelque soir où l’amour fondra nos deux esprits,

En silence, dans un silence qui se pâme,

Viens pencher longuement ton âme sur mon âme

Pour y lire les vers que je n’ai pas écrits...

Dans: “Seul” (1891)

Pintura a óleo de duas pessoas sentadas em degraus, abraçadas com as cabeças baixas.

Amantes

(Hessam Abrishami: artista iraniano)

O Melhor Verso

Sempre o verso melhor é o que não foi escrito...

Flor do sonho que envia à noss’alma os perfumes,

Sorriso de um fantasma e luar de um infinito,

Voz de planície ouvida em nebulosos cumes...

O intraduzível céu é todo astral poesía...

Exílio misterioso, Éden, jardim sagrado,

Onde o pecado da arte há jamais penetrado,

Mas que poderás ver, amando-me algum dia!

Quando o amor nos prender com seus grilhões benditos,

Numa noite, em silencio e abismadora calma,

Vem, divina!, inclinar tu’alma sobre minh’alma

Para leres aí meus versos não escritos.

Em: “Sozinho” (1891)

Referências:

Em Francês

HARAUCOURT, Edmond. Les Plus Beaux Vers. In: WALCH, G. Anthologie des poètes français contemporains: le parnasse et les ecoles posterieures au parnasse (1866-1906). Préface de Sully Prudhomme. Tome Deuxieme. Paris: Ch. Delagrave; Leyde: A.-W. Sijthoff, [1907]. p. 205.

Em Português

HARAUCOURT, Edmond. O melhor verso. Tradução de Álvaro Reis. In: MAGALHÃES JR., Raimundo. Antologia de poetas franceses: do século XV ao século XX. Rio de Janeiro: Tupy, 1950. p. 161-162.

Texto originalmente publicado em Blog do Castorp

Ainda o Brasil... e, claro, o adorado Itamar

Fonte: Horas Extraordinárias | Publicado em: 07/07/2022

literatura brasileira contemporânea, cânone literário lusófono, representatividade rural na literatura, legado da escravidão no Brasil, recepção crítica internacional

07

Jul22

Maria do Rosário Pedreira

O facto foi mencionado ontem no jornal Público, a propósito da Bienal do Livro de São Paulo: um coletivo de 169 intelectuais portugueses, brasileiros, moçambicanos e angolanos escolheu os 200 livros mais importantes da literatura brasileira – aqueles que, em 200 anos de independência, melhor ajudam a compreender o país. E... Que maravilha um romance cujo sucesso começou em Portugal com a atribuição do Prémio LeYa (e viu esse sucesso reproduzido no Brasil com os prémios Jabuti e Oceanos) estar agora entre os primeiros 50 títulos mais importantes (!) da literatura brasileira! Mas não é de estranhar: Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, fez o milagre de trazer para a leitura muitas pessoas que provavelmente achavam (melhor, sentiam) que a maioria da ficção publicada no Brasil já há muito que nada tinha que ver com elas. Ele cativou um público novo que se identifica com as situações descritas no seu romance e com o autor, criado longe dos grandes centros; ele pôs o dedo na ferida e mostrou um Brasil que, apesar de mais de um século passado da abolição, continua a ter uma larga franja da população escravizada. Com o seu estilo poético e maravilhoso e a sua voz de conhecedor dos factos (um homem no terreno), ele homenageou os escritores clássicos e, seguindo-lhes as pisadas, acabou evidentemente a fazer-lhes companhia na lista. Uma alegria enorme saber que tudo começou neste cantinho do mundo e, porque não dizê-lo?, passou aqui pela minha secretária. Parabéns, querido Itamar Vieira Junior.

Texto originalmente publicado em Horas Extraordinárias

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Areia nos dentes – Antonio Xerxenesky

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 11/07/2011

literatura brasileira contemporânea, crítica literária de romance, técnicas narrativas e metalinguagem, primeiro romance, gênero faroeste

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Ultimamente tenho procurado conhecer mais os autores brasileiros contemporâneos, e por esse motivo, quando encontrei Areia nos dentes no sebo, não pensei muito e comprei. Já havia lido em algum blog sobre Antonio Xerxenesky e esse seu romance que mistura caubóis e zumbis no México. Como se trata de um pequeno livro, comecei imediatamente a leitura e no mesmo dia terminei.

Senti-me decepcionado, confesso. A proposta do autor era escrever um livro divertido, que brincasse com os gêneros, numa homenagem ao cinema. O que mais me incomodou no livro foi a falta de equilíbrio. Não há uniformidade durante a narrativa, e não há equilíbrio nem nessa falta de uniformidade. Percebe-se a ânsia do autor em mostrar o que sabe sobre maneiras de narrar: especialmente no começo do livro, cada capítulo é narrado com uma técnica diferente, à Joyce, mas sem dúvida com muito menos êxito. Capítulos narrados na terceira pessoa clássica, primeira pessoa, em forma de diálogo de teatro, uma imitação de fluxo de consciência, metalinguagem, metalinguagem dentro da metalinguagem, autoreferência, autoindulgência, e tudo isso, por não ser bem explorado, ao invés de resultar em uma narrativa rica, evidencia apenas a imaturidade do escritor, certamente empolgado com seu primeiro romance.

A trama também deixa a desejar. Todo o tempo o romance faz grandes promessas e parece que haverá grandes acontecimentos, mas me pareceu faltar habilidade ao narrador, e ao final percebe-se que são muitos os blefes. A inimizade entre os Ramírez e os Marlowes, a figura do xerife, a figura do xamã, o assassinato ao início do livro, a quota romântica do romance, o relacionamento entre o velho que escreve as memórias e seu filho, até um McGuffin(!), e, em especial, a promessa de que os mortos retornarão, tudo isso acaba ganhando um desfecho mole, solto, aparentando quase uma improvisação, deixando aquele gosto de “então era só isso?”.

Quando o autor esquece tudo isso e preocupa-se apenas em narrar, percebe-se que sua prosa é simples e bem escrita, e que ele conta bem os fatos. Assim, na minha opinião, esse livro poderia ser considerado um êxito se o autor adotasse uma estrutura narrativa simples, sem muitos floreios, dando uma uniformidade nesse caso desejável à história, eliminasse tantas subtramas (relação metalinguística velho/filho, triângulo amoroso – os dois que há no livro, ambos mal resolvidos, o McGuffin e sua resposta frustrante) e resolvesse melhor o essencial.

No final das contas, não me arrependo de ter lido essa história, apesar das suas falhas. Conheci mais um autor brasileiro com potencial e fiz uma reflexão sobre o que eu não faria se escrevesse meu primeiro romance.

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

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