Descobertas da segunda

Textos reunidos das últimas duas décadas

Coloque o ar-condicionado para congelar: o filme mais quente da história do cinema está na Mubi

Por: Fernando Machado

Fonte: Revista Bula | Publicado em: 29/01/2026

cinema erótico anos 1980, dinâmicas de relacionamento, análise de comportamento cinematográfico, dramas de obsessão, estética do thriller romântico

Mickey Rourke, Kim Basinger: Cena de filme mostrando um homem e uma mulher em uma mesa conversando proximamente, com taças de champanhe à frente. Divulgação / Galactic Films

“9 1/2 Semanas de Amor” acompanha Elizabeth (Kim Basinger), assistente de uma galeria de arte no SoHo, quando ela conhece John Gray (Mickey Rourke), um empresário de Wall Street que surge como promessa de intensidade e mistério. O envolvimento começa rápido e se apoia menos em conversa e mais em gestos, encontros marcados e regras implícitas. Elizabeth aceita avançar sem saber quase nada sobre John, enquanto ele controla o ritmo, aparece quando quer e mantém informações essenciais fora do alcance dela. A curiosidade vira acordo, e o acordo passa a cobrar seu preço.

Kim Basinger constrói uma Elizabeth curiosa, vulnerável e progressivamente deslocada da própria rotina. Cada decisão dela tem efeito prático: atrasos no trabalho, afastamento de amigos, cansaço visível. Mickey Rourke, por sua vez, interpreta John como alguém que nunca se explica completamente, mas que impõe limites com ações claras, não com discursos. Ele oferece acesso e retira presença com a mesma facilidade, o que desequilibra a relação sem precisar de grandes confrontos verbais.

O filme funciona justamente por mostrar como essa dinâmica se instala no cotidiano. A galeria de arte vira termômetro da vida de Elizabeth: quanto mais ela se envolve com John, mais sua estabilidade profissional oscila. A amiga vivida por Margaret Whitton atua como contraponto direto, trazendo alertas objetivos e cobrando presença, sem transformar a história em lição de moral.

Dirigido por Adrian Lyne, o filme evita explicações psicológicas e aposta em observar comportamento. Nada é sublinhado demais. O que pesa são as repetições, os silêncios e a sensação de que o controle nunca está totalmente nas mãos de quem acredita estar escolhendo. “9 1/2 Semanas de Amor” pode até ser lembrado pelo erotismo, mas se sustenta mesmo como um retrato direto e desconfortável de uma relação onde intensidade e desequilíbrio caminham lado a lado.

Filme: 9 1/2 Semanas de Amor

Diretor: Adrien Lynne

Ano: 1986

Gênero: Drama/Romance

Avaliação: 8/10 1 1 Fernando Machado
★★★★★★★★★★

Retrato de um homem sorrindo, de frente para a câmera, com fundo desfocado.

Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Texto originalmente publicado em Revista Bula

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Lúcio Cardoso - Poema

Fonte: Blog do Castorp | Publicado em: 01/01/2016

Modernismo brasileiro, poesia introspectiva, literatura do segundo modernismo, estética simbolista

Os poetas são mesmo grandes sonhadores. E manipulam as palavras de um jeito que o construto assim erigido parece surgir diretamente de alguma poção transmitida pelas musas mais atiladas do Parnaso.

Veja, leitor, como exemplo, o poema abaixo: se sinceras ou não, se espontâneas ou não, se oportunas ou não, as palavras fluem com um tal sentido de completude, que se tudo o que poeta externaliza for dissimulação, fingimento, nada nos restará a fazer senão dar plena razão àquele certo gajo lusitano!

J.A.R. – H.C.

Lúcio Cardoso - (1912, Curvelo, MG – 1968, Rio de Janeiro, RJ). Ficcionista, poeta, memorialista e dramaturgo. Segundo momento do Modernismo. Obra poética: Poesias (1941), Novas poesias (1944), Poemas inéditos (1982, org. Octavio de Faria), Poesia completa (2011, org. Ésio Macedo Ribeiro). (BRAGA, 2015, p. 194)

Satyajit Ray: Retrato em preto e branco de um homem com a mão no queixo.

Lúcio Cardoso

(1912-1968)

Poema

Sinto em mim subsistir às vezes

uma região solene e primitiva como a noite.

Sinto vibrar estranhos gritos sem consolo,

ecos de seres que ainda jazem no mistério.

E na indecisa vaga deste sonho, na música

que se desfaz em bruma sobre o mundo,

há a visão de um céu a quem velaram o dia,

força, ímpeto de um horizonte escurecido

e que chora a vertigem dos astros-suicidas.

E há um silêncio enorme, funesta paz

como a de um lago que dorme enfeitiçado.

Mas nesse país em que domina a sombra,

algumas vezes, como um jato lívido de fogo,

qualquer coisa se eleva – pura, inatingível,

alta como a estrela que sobrepaira o abismo

e sobe aos pés de Deus como um soluço.

Pintura de uma figura humana nua e curvada sobre si mesma.

Introspeção

(Gwen Albee: pintora norte-americana)

Referência:

CARDOSO, Lúcio. Poema. In: BRAGA, Rubem (Comp.). A poesia é necessária. Organização de André Seffrin. 1. ed. São Paulo, SP: Global, 2015. p. 111.

Texto originalmente publicado em Blog do Castorp

De quatro, Miranda July

Fonte: TRAPICHE DA LEITURA | Publicado em: 01/10/2025

feminismo literário, crise de meia-idade, identidade de gênero e linguagem, literatura contemporânea norte-americana, maternidade e vulnerabilidade

De quatro, Miranda July

De quatro, Miranda July

Capa do livro De Quatro de Miranda July

Um livro escandalosamente feminino; escandalosamente feminista. A história tem laivos romanescos que lembram paixões absolutas e incontroláveis, como em “Os sofrimentos de Werther”. Mas, não se engane: a autora não deixa pedra sobre pedra na construção das agruras de sua personagem. Narrado em primeira pessoa, podemos assim resumir seu enredo: uma artista de 45 anos que mora em Los Angeles resolve fazer uma viagem até Nova Iorque – de carro! Porém, ao parar numa pequena localidade a poucos quilômetros de Los Angeles, conhece um jovem funcionário de uma loja de automóveis, hospeda-se num pequeno hotel, contrata uma decoradora (que é esposa do jovem) e gasta 20 mil dólares para transformar o quarto do hotel numa espécie de ninho do amor. Ao atrair o rapaz, Daivey, encetam uma amizade com toques de muito erotismo, mas sem nunca chegar ao ato sexual. Descobre que ele é bailarino e segue algumas regras de vida rigorosas que não lhe permitem abandonar a esposa. Após mais de 15 dias de romance explosivo, retorna a Los Angeles, para o marido e a criança que eles têm, como se realmente tivesse atravessado o país e voltado. Note que eu disse “criança”, porque Sam é fruto de um parto complicado, teria sido um natimorto que sobreviveu e sempre que o casal se refere a essa criança, ambos usam pronomes neutros (traduzidos em português por “elu”). Em torno dessa história meio insólita, a narradora descreve com detalhes toda sua luta interior para superar a crise de meia idade, convivendo com um casamento que não parece ter futuro, com sua sexualidade agora exacerbada por uma paixão incontrolável e irrealizável, com lembranças complicadas de seu parto e sua relação com amigas e amantes mulheres por quem também se apaixona, sem nunca, no entanto, esquecer os momentos que passou com Daivey naquele quarto de sonho de um hotel da pequena cidade. Um desabafo, sem dúvida, de tirar o fôlego, em que estão em jogo valores femininos de liberdade, de busca de realização que, ao mesmo tempo, expõem inúmeras vulnerabilidades de sua condição de esposa, de mãe e de amante. Sem dúvida, um livro poderoso, mas não posso concluir essa resenha sem anotar o desconforto que senti com o final onírico, embora catártico, mas que me pareceu improvável diante de todos os acontecimentos e confissões e reflexões anteriores, quase um anticlímax de todo o feminismo da personagem.

  • Capa do livro O Jantar Errado de Ismail Kadaré

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    Sob o sol de Satã, Georges Bernanos Católico, Bernanos está vinculado a uma visão do cristianismo semelhante à de François Mauriac e Graham ...

Texto originalmente publicado em TRAPICHE DA LEITURA

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Cama de gato

Por: Revista Fina

Fonte: a revista de literatura que você lê inteira | Publicado em: 26/03/2021

gatos, comportamento animal, crônica, cotidiano

ilustração de Ligia Zilbersztejn Na arte de esconder, os gatos gabaritam por cantos inimagináveis Matheus Lopes Quirino Falei da gataiada da turma da revista Fina semana passada, do que fazem, o que comem, onde vivem, mas um detalhe passou batido: onde dormem. Claro que a gata Julieta tem uma predileção por mesas, de preferência as que têm superfície acolchoada com jornais ou trapos velhos, mas mais: ela gosta de caixas de ovos. Não a incomoda, pelo contrário, deve haver uma espécie de estofado muito confortável na caixa de ovos. Ela não sai de lá. Foi um teste, levado a sério com ela. Antes de picotar a caixa toda, ela fez o mesmo com a caixa do ventilador. Agora está se entendendo com a da pizza. Gatos adoram caixas. Também acontece com o vizinho Pierre, que se apoderou de uma caixona um tempo atrás. As caixas também são espécies de playground, se cortadas em pequenos círculos, por onde o gato pode passar, ele vai ficar intrigado. Não larga mais. “Perdi o gato”, contou a mulher do táxi, outra vez. E dizia ela que revirou a casa toda. Colocando de pernas pro ar tudo que era suspeito, como almofadas, colchas, roupas amontoadas para passar, cortinas, mesa e cadeiras, sapateiras, armários da cozinha… E nada. Era o fim do seu mascote, que estava para a reciclagem, um perigo, dentro de uma caixa de papelão de um micro-ondas. Quão mais insólito for o lugar, mais os gatos pegam gosto. A gata Julieta, por exemplo, gosta das caixas de ovos, dos jornais velhos, sendo que tem uma caminha comprada, nunca usada. Os gatos, se fossem religiosos, seriam franciscanos. Gostam da simplicidade. Também têm um q de acrobatas, para se enfiar em qualquer buraco que lhes caiba. A internet tem milhões de vídeos de felinos se colocando em recipientes pequenos, como copos, latas ou aquários. Eles também gostam de gavetas, se prateleiras suspensas, de baús, de panelas, de nichos quaisquer, baldes, caldeirões, vasos vazios (ou cheios), churrasqueiras (desligadas!), carrinhos de feira, pias, e onde mais puderem deitar e dormir, lá estarão eles. Em qualquer lugar, desde que fora da cama.

Texto originalmente publicado em a revista de literatura que você lê inteira

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Lendo os clássicos - por Luiz Ruffato

Fonte: Lendo os clássicos - por Luiz Ruffato | Publicado em: 01/05/2020

literatura francesa do pós-guerra, existencialismo literário, ficção simbólica, crítica do desencanto humano, metafísica da morte

Baleia  (1949)
Paul Gadenne (1907-1956) FRANÇA      

Tradução: José Alfaro              
Lisboa: Antígona, 2017, 112 páginas

Capa do livro Baleia de Paul Gadenne

"Baleia" é um conto que ocupa 41 das 112 páginas desse livro - o restante são ensaios, biografias, cronologias. etc. O jovem casal Pierre e Odile encontra-se numa cidade à beira-mar da França, numa época não nomeada, mas provavelmente logo após a II Guerra Mundial, quando ouvem falar sobre uma grande baleia branca encalhada na praia de uma aldeia vizinha. Passados alguns dias, eles caminham até a enseada e se deparam com aquele ser imenso, agora sem vida, apodrecendo: "Aquela baleia parecia-nos ser a última; como cada homem cuja vida se extingue nos parece ser o último homem. A sua contemplação projectava-nos para fora do tempo, para fora desta terra absurda, que no fragor das explosões parecia correr para a sua última aventura. Julgáramos ver apenas um animal que dera à costa: contemplávamos um planeta morto" (p. 41). A narrativa uma linguagem simbólica para destacar um grande desencanto com relação à Humanidade. A baleia morta é a metáfora de um mundo em decomposição... Como o nosso agora...




 Avaliação: BOM

(Maio, 2020)

Texto originalmente publicado em Lendo os clássicos - por Luiz Ruffato

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