Acabei de ler Pequenos incêndios por toda parte, de Celeste Ng. Como já disse de outro livro dela (Tudo que nunca contei), ela explica demais, ela explica tudinho. E muitos acontecimentos são previsíveis. É norte-americano demais, dá enjoo às vezes.
De todo modo, os livros dela contam a história todinha, sem modernismos nem firulas, sem elipses, algo como Elena Ferrante, mas Ferrante é melhor.
Ela costuma deixar o leitor curioso sobre os personagens e depois trazer flashbacks que esclarecem as situações.
Neste Pequenos incêndios por toda parte conta-se a história da fotógrafa Mia e de sua filha Pearl a partir do momento em que alugam uma casa da família Richardson. Mia e a filha vivem como nômades, passando alguns meses em cada lugar enquanto a artista-fotógrafa desenvolve uma série de trabalhos. A família Richardson, abastada e convencional, capitaneada com mão de ferro pela matriarca, leva vida oposta à de Mia. É previsível que conflitos vão surgir.
É um livro mediano mas muito, muito previsível e cheio de clichês. A oposição vida organizada x vida livre, artista x burgueses. É previsível que o estudioso filho do meio dos Richardson vai gostar de Pearl, estudiosa, e que ela, por sua vez, vai gostar do filho mais velho, atleta e banda-voou. É previsível que Lexie Richardson vai causar problemas ao usar o nome de Pearl quando vai fazer um aborto. A vida burguesa é vista como péssima. Isso é preconceito bobo: todo mundo quer ter uma boa casa, morar em um bom bairro e ter boas escolas.
Deixa-se ler, dá para passar o tempo com certo interesse, mas falta criatividade.
Trechos:
(…) só alugava a casa para pessoas que considerava merecedoras, mas que, por algum motivo, não tiveram uma chance justa na vida. Ela ficava feliz em poder equilibrar as coisas.
O Sr. Yang era bem o tipo de inquilino que a Sra. Richardson queria: uma pessoa gentil com quem ela também podia ser gentil, e que ficaria grata por essa gentileza.
A divorciada casou-se outra vez após um romance turbulento de quatro meses (…)
(…) o jovem casal, que parecera tão genuíno, devotado e apaixonado, tivera uma briga irreparável, e o casamento acabara depois de meros dezoito meses (…)
Depois Moody não se lembraria de ter atravessado a rua e deixado a bicicleta na entrada ou de ter se apresentado. Assim, teria a impressão de que sempre soubera o nome dela e de que ela sempre soubera o dele, como se, de alguma forma, ele e Pearl se conhecessem desde sempre.
Moody sentou-se na beirada da cama, aos pés de Pearl. Havia grama grudada em seus dedos dos pés, em suas panturrilhas e na barra da saia. A menina tinha cheiro de ar fresco e xampu de menta.
Naquele instante, Moody entendeu o que já tinha acontecido naquela manhã: sua vida havia sido dividida entre antes e depois, e ele sempre compararia as duas fases.
A ordem — e a regulação, mãe da ordem — havia sido a chave dos Shakers para a harmonia. Regulavam tudo: a hora certa para acordar de manhã, a cor certa para as cortinas da janela, o comprimento certo de cabelo para os homens, a maneira certa de unir as mãos em oração (polegar direito em cima do esquerdo). Os Shakers acreditavam que se planejassem tudo poderiam criar um paraíso na Terra (…)
Algum dia, todos reconheceriam a genialidade da mãe de Pearl. Para Moody, viver daquele jeito era praticamente inimaginável (…) O estilo de vida itinerante e artístico das duas o atraía: Moody era um romântico.
Ficou claro para Moody que a mente de Pearl era algo extraordinário, e ele admirava a velocidade e a facilidade com que o cérebro dela funcionava. Era um prazer imenso observá-la encaixar as coisas no lugar.
(…) porque, quando não tivesse mais nenhum lugar para lhe mostrar, tinha certeza de que Pearl desapareceria. (…) Foi assim que Moody tomou uma decisão que questionaria pelo resto da vida.
Os Richardson a fascinavam com sua confiança fácil, seu sentimento claro de propósito a qualquer hora do dia.
(…) a mesma personalidade sensível escondida dentro de ambos, a mesma sabedoria estudiosa disfarçando uma profunda ingenuidade.
O pai insistiu que ela tentasse por pelo menos um semestre antes de desistir. Em todas as aulas, Izzy se sentava no chão e se recusava a se mexer.
Seria possível que ela estivesse chorando? Sua imperturbável, temível e indomável mãe, que ela nunca tinha visto chorar (…)
(…) o triângulo nu na barriga, com a delicada concavidade do seu umbigo; e a visão intermitente do seu sutiã azul-marinho acima e abaixo do único botão fechado.
(…) tranquilizava-o saber — quando ela sorria para Trip ou corava por causa de seus elogios — que lhe dera o caderno que conteria suas palavras e seus pensamentos preferidos.
Sob a mancha do batom, seus lábios lembravam uma ferida sensível e exposta.
Vinte minutos depois, um carro parou diante da casa de Stacie. A janela do lado do carona se abriu, e, do alto dos degraus da entrada, Pearl viu a expressão carrancuda de Moody. (…) Então, quão bêbada você está? — Só tomei um drinque. Não estou bêbada. — Mesmo enquanto dizia aquilo, Pearl não sabia se era verdade (…)
Ela é adolescente, repetia Mia para si mesma, então está experimentando novas peles, como qualquer adolescente. Mas, no fundo, ficava desconfiada com as mudanças que via.
Algo dentro de Izzy alcançou qualquer coisa dentro dela e pegou fogo. — Está bem — disse Mia, abrindo mais a porta para deixar que Izzy entrasse. (…) Mas talvez paixão fosse o termo certo. Izzy prestava atenção em cada palavra de Mia, pedia e confiava em sua opinião sobre tudo.
Mudanças não acontecem sozinhas — repetia a mãe com frequência, ecoando o lema de Shaker. — Elas têm que ser planejadas.
Izzy provocando, a mãe reprimindo, então, depois de um tempo, ninguém mais se lembrava de como a dinâmica começara, só sabiam que existia desde sempre.
(…) pensou subitamente na foto que vira na casa de Mia naquele primeiro dia, quando abrira as portas do seu lar para ela. A mulher transformada em aracnídeo, silenciosa, de braços furtivos. Que tipo de pessoa, pensou ela, transformaria uma mulher em aranha? Aliás, que tipo de pessoa via uma mulher e pensava em aranha?
Contudo, a calma da Sra. Richardson não representava seus verdadeiros sentimentos. Quanto mais ela pensava em Mia, mais raiva sentia, então não conseguia parar de pensar nela.
Era mesmo necessário atear fogo ao velho para abrir espaço para o novo? O carpete sob seus pés era macio. O sofá debaixo dela tinha estampa de rosas.
Ela quisera muito ir com ele, a qualquer parte, beijar aquele sorriso torto e tímido. Mas como comprariam comida, onde lavariam as roupas, onde tomariam banho?
Mia fazia o que queria, pensou a Sra. Richardson, e qual seria o resultado? O coração partido da sua amiga mais antiga. Caos para todo mundo. Você não pode simplesmente fazer o que quer, pensou. Por que Mia tinha esse privilégio quando mais ninguém tinha?
Trip deu um sorriso sonolento, e ela imaginou por um instante como seria dormir com ele e acordar toda manhã ao seu lado.
O mundo estava praticamente perfeito para Lexie, e suas fantasias eram sua vida real com cores mais intensas.
Pearl pensou na mentira que contara a Moody na noite anterior: não poderia andar até a escola com ele como de costume porque iria ao dentista de manhã. Ele não parecera suspeitar de nada; nunca tinha lhe ocorrido que Pearl pudesse mentir. Ela ficara aliviada, mas também um pouco magoada com o fato de ele sempre acreditar nela com tanta facilidade, de não achá-la capaz de nada além da verdade.
Toda vez, diante daquela escolha impossível, ela chegava à mesma conclusão. Eu nunca teria me metido numa situação como essa, dizia a si mesma. Teria feito escolhas melhores ao longo do caminho.
Mas na hora sentiu apenas uma onda de empatia por Lexie, pela situação complicada em que se metera, pela dor — física e emocional — com a qual teria que lutar para deixar o episódio para trás.
Era como treinar para sobreviver só com o cheiro de uma maçã, quando o que ela queria de verdade era devorá-la, fincar os dentes nela, consumi-la com os caroços, o miolo, tudo.
Nos últimos dois meses, ela havia se infiltrado na mente dele em todas as horas do dia: no laboratório de química, durante o treino, à noite, quando ele costumava dormir rápido e ter sonhos banais.
Pearl nunca notou que o caderno havia sumido, e de alguma forma aquilo o magoou mais que tudo.
Moody se perguntou se Pearl já sabia, mas os dois mal se falavam desde que se desentenderam, e ele foi para o seu quarto, procurando ao máximo não pensar no que Pearl estaria fazendo.
Agora tudo se tornara real para ele de uma maneira que não havia acontecido ainda. Pearl tinha ficado com Trip, deixara que ele fizesse amor com ela e aquilo acontecera.
A Sra. Richardson foi trabalhar mais cedo na sexta-feira de manhã, saindo de casa meia hora antes para não ter que lidar com os filhos.