Nós, Ievguêni Zamiátin, 1924, tradução de Gabriela Soares, 344 páginas, Aleph.

Este romance deu origem a outros romances distópicos e aqui se encontram diversos elementos que aparecem nos posteriores “Admirável mundo novo” (1932), de Aldous Huxley, e em “1984” (1949), de George Orwell.

A história é narrada em primeira pessoa, na forma de breves anotações do personagem D-503. Estamos por volta do século 30. As pessoas não possuem nomes e são denominadas “números”. A matemática e o pensamento racional são essenciais. Todos os prédios e apartamentos – ou cubículos – são de vidro, de forma que todos observam todos. As cortinas podem ser fechadas, com permissão do Estado, na hora predeterminada para o sexo. A Guerra dos Duzentos Anos dizimou mais de 99% da população. O Estado Único tem uma população de cem milhões de habitantes, mas não há detalhes sobre sua distribuição geográfica. Aparentemente, a metrópole onde vive D é a única no mundo, e é cercada por um Muro Verde, de vidro, que separa a civilização da zona selvagem.

Não há reprodução humana natural, mas o autor não especifica como o Estado cuida disso. É crime ficar grávida e ter um filho. O sexo tem dia e hora marcados e as pessoas se registram para ter sexo com alguém de seu interesse – e recebem um talão rosa onde se anotam os encontros. O grande líder, o Número dos Números, é o Benfeitor, um cara que aparece em público para as execuções de criminosos. O transporte é feito em “aeros”, veículos aéreos não detalhados. D-503 é o Construtor da “Integral”, uma nave espacial que vai levar a mensagem e a ideia do Estado Único para as civilizações infelizes do Universo. D mantém encontros sexuais com O-90, que o ama: amar é um comportamento anormal, quase um crime. O também tem outros relacionamentos, como deve ser. De início, D é um crente e servo absoluto do Estado Único. Depois que conhece I-330, uma mulher sedutora e rebelde, ele passa a duvidar de alguns dogmas, mas todo o tempo D flutua entre suas convicções fortemente inculcadas pelo Estado e o mundo rebelde que vislumbra por meio de I.

Capa do livro Nós de Ievguêni Zamiátin

O livro tem muitas cenas e acontecimentos não resolvidos, sem definição precisa, nebulosos. Algumas partes e atitudes dos personagens não são compreensíveis. Talvez isso se deva à forma como o livro foi escrito, sob a censura russa e soviética da época, e à forma como foi publicado fora do país, sem a supervisão do autor. Talvez, o autor tenha preferido assim, uma história fragmentada como a própria “alma” do personagem D, alma dividida, angustiada. De todo modo, apesar de seus defeitos, “Nós” é um livro sensacional. Uma história forte e pungente.

Curiosidades de “Nós”:

– George Orwell leu o livro em 1946 e fez uma resenha para uma revista de Londres, pouco tempo antes de escrever o seu “1984”.

– O Benfeitor, governante praticamente eterno, que cuida da felicidade de todos, como o Grande Irmão.

– A separação física entre o mundo civilizado e a terra selvagem, que também ocorre em “AMN”, Huxley. A liberdade sexual e a proibição de ter filhos pelo modo natural, em ambos os livros.

– A história de amor entre I-330 e D-503, ela resoluta, rebelde, ele medroso, covarde, que também ocorre em “1984” entre Júlia e Winston, com personalidades semelhantes.

– O local de encontro do casal em “Nós” é a Casa Antiga. Em Orwell, é um quarto no subúrbio sem teletela, decorado ao modo de vida antigo.

– A impossibilidade de saber como é o mundo, se há um mundo lá fora, em “Nós” e em “1984”.

– O transporte é feito por veículos voadores, os “aeros”, como em “AMN”. Todos usam uniformes azuis em “Nós”; em “1984”, todos usam uniformes, acho que azuis e em “AMN” os uniformes variam a cor de acordo com a classe.

– As execuções de criminosos em praça pública, na Máquina do Benfeitor, como as cerimônias de despedaçamento de criminosos em “O conto da aia”, de Atwood.

– A vida em cubículos de vidro iguais para todos, a repetição das atividades (cinquenta movimentos mastigatórios antes de engolir) faz recordar o episódio de Black Mirror, “Fifteen Million Merits”.

Resumo:

Estamos mil anos no futuro. Há o Estado Único, regido por um Benfeitor. O personagem D-503 é um cientista estatal que coordena a construção da nave “Integral”, que vai levar a mensagem da felicidade do Estado Único para outras civilizações. “Nosso dever é obrigá-los a serem felizes”. As pessoas são chamadas de “números”, não têm nomes e usam uniformes azuis.

Existem dois intervalos em que as pessoas podem fazer o que quiserem, é a chamada Hora Pessoal. Na HP de 16 às 17 horas, D marcha pelas ruas em grupo, juntamente com O-90, uma mulher com a qual ele mantém relações sexuais regularmente estabelecidas pelo Estado. Ela também se relaciona com o Poeta Estatal, R-13. As ruas são retas, as moradias são de vidro, transparentes. O-90 tem corpo menor que o padrão, é arredonda e infantil. D conhece I-330, que é uma mulher esbelta e intensa. “A velocidade da língua deve ser menor que a do pensamento.”

Há um Muro Verde em volta do Estado Único. O Muro Verde é de vidro, e do lado de fora fica a natureza selvagem. Será que só existe o Estado Único? Será que não existem outras nações e aquela população é mantida prisioneira e em ilusão? Não saberemos.

Houve a Guerra dos Duzentos Anos que exterminou boa parte da população. Parece que hoje a população do Estado soma cem milhões de habitantes. Não se diz se todos vivem naquela metrópole sem nome. Na parede dos quartos há a Tábua das Horas, a agenda pessoal de cada “número”. O Benfeitor é auxiliado pelos Guardiões.

Capa do livro Nós de Ievguêni Zamiátin

I-330 diz que verá D no dia seguinte no auditório 112. Ele então recebe o convite para comparecer ao auditório 112, no qual ocorre uma apresentação da horripilante música selvagem – de antes da Guerra – e é I que toca a música no piano usando um vestido de época. Por instantes, a música selvagem comove D mas logo depois se toca a música matemática eletrônica da Fábrica Musical, que o acalma. No Ano 35, foi criado o alimento à base de petróleo, depois que a Guerra dizimou a maior parte da população.

Naturalmente, tendo submetido a Fome (algebricamente = a soma dos bens externos), o Estado Único conduziu uma ofensiva contra outro senhor do mundo: contra o Amor. Finalmente, esse elemento também foi vencido, isto é, organizado e matematizado, e por volta de trezentos anos atrás foi promulgada nossa histórica Lex Sexualis: ‘todo número tem direito a qualquer outro número como produto sexual’”.

I o convida para ir à Casa Antiga, uma casa de antes da guerra que foi preservada, envolta em vidro. I propõe desobediência; D não concorda mas também não a denuncia, o que era sua obrigação. No hangar da nave “Integral”, D encontra S-4711, que ele acha que é um espião dos Guardiões – ele está sempre por perto de I e de D. Liberdade é crime e D quer ir aos Guardiões denunciar I, mas não consegue. Ele se sente doente e vai ao médico. De noite, resolve problemas de matemática com O. R-13, Poeta Estatal, é o outro parceiro sexual de O; este triângulo é como uma família para D. Ele está com raiva e confuso. O e R têm um encontro sexual mais tarde; D fica algum tempo com eles e depois deixa-os em privacidade.

O Dia da Justiça: um criminoso político é executado na praça pelo próprio Benfeitor – por meio de uma máquina – as crianças assistem bem de pertinho e antes há apresentação de poetas. Isto faz recordar cerimônia semelhante em “O conto da aia”, Margaret Atwood, com a diferença de que são as próprias aias que matam o criminoso. Encontro sexual com I no apartamento dela, com direito a tudo o que é proibido: vestido antigo, fumo e álcool. Crise de D: ele se refugia na Poesia Estatal – que é matemática – e na própria matemática. I consegue um atestado para D com um médico amigo dela e fazem sexo na Casa Antiga. Ele fracassa no encontro sexual com O.

No trabalho de construção da “Integral”, D está desatento e se sente culpado. Vai novamente ao médico amigo de I: a doença, diz o médico, é que ele tem uma alma, há uma epidemia de gente que está tendo alma; recebe mais um atestado. Volta à Casa Antiga e descobre que dentro do armário do quarto há um elevador. Nos subterrâneos, ocorre uma reunião secreta. I o conduz para fora, para o quintal da casa. Ele anda só pelas ruas e isso é antinatural – faz recordar “Fahrenheit 451”.

Iu, a senhora da portaria, se oferece discretamente para um encontro sexual com ele. Recebe carta de O em que ela diz que vai deixar de ser registrada com ele. No teste de motores da “Integral” dez pessoas são vaporizadas – isso não é nada diante do avanço tecnológico. Recebe carta de I na qual ela pede que ele faça exatamente o que ela orientar: ela quer alguns falsos encontros sexuais com ele; isso é mais um crime com o qual ele concorda. Visita de O, ela quer um bebê dele, isso é um crime, ele concorda. O vai se tornar uma mãe ilegal.

D colabora com a farsa de I fechando as cortinas na hora adequada. Nova visita à Casa Antiga, vai ao quintal e não encontra a passagem subterrânea pela qual saiu. S surge no quintal, o céu está cheio de aeros dos Guardiões. Aproxima-se o Dia da Unanimidade. Iu vai ao quarto dele e sugere novamente um encontro sexual. Ela diz “não me apresse” a decidir pelo encontro, mas ele não estava apressando, sequer com intenção: “Eu não a apressava. Embora compreendesse que devia estar feliz e que não havia honra maior do que coroar os últimos anos de alguém.

Durante uma marcha unida, vê três pessoas presas. Duas pessoas ameaçam protestar e são presas; ele corre na direção de uma delas, que ele pensava ser I: não era e ele é pego, mas S o libera alegando que ele está doente e é o construtor da “Integral”. Iu: “você está doente, precisa de alguém que cuide de você”. Visita de I: “o que você fez na marcha me faz te amar ainda mais”. I pede que ele não a esqueça, ele se assusta. I: “você quer saber tudo? Quando o feriado terminar.” Ele espera ansiosamente o Dia da Unanimidade para, pelo menos, vê-la de longe. É o dia da eleição anual do Benfeitor. D pede para ficar junto de I no Dia da Unanimidade, mas ela diz “não posso, eu gostaria, não posso, amanhã você verá”.

No Dia da Unanimidade, I e R estavam juntos na multidão. D percebe que há alguma ligação entre I e S. “Quem é a favor?” da eleição do Benfeitor, mais uma vez: milhões de mãos se levantam. “Quem é contra?” Milhares de mãos se levantaram de forma inédita, I inclusive. Guardiões, confusão, milhares de bocas. D carrega I, “pálida, o unif rasgado do ombro ao peito, sobre o branco havia sangue”. D não sabe quem são “eles”, os companheiros de I, e se ele faz parte do “nós” deles.

No dia seguinte, D lê o jornal e se sente confortado porque o Estado diz que vai tomar providências. Ele vai ao hangar como se tudo estivesse normal. I leva D ao outro lado do Muro Verde, e ele conhece um mundo repleto de árvores, animais e seres humanos que optaram viver ali. I discursa: o objetivo é destruir o muro, e tomar o controle da Integral – para isso, eles têm o Construtor ali com eles. D toma um chazinho especial e declara que todos devem ficar loucos. Na confusão de sensações e cores, acha que viu S também por lá.

No apartamento dele, Iu tenta evitar que I fale com ele: “Sim, ele é uma criança. Sim! É só por isso que ele não vê que você está com ele para… Tudo isso é apenas para, para… que tudo é uma farsa. Sim! E meu dever é…”. I avisa a D que chegaram os últimos dias. D: “Há muito deixei de tentar entender quem são eles e quem somos nós. Não compreendo o que quero: que eles consigam ou não consigam.” Para D, o amor por I é mais importante que a revolução, ele não compreende onde está naquele processo muito maior que ele, maior que o amor dele.

I conta a ele como as pessoas foram forçadas a ir para a cidade (o Estado) para “aprenderem a felicidade”. Mas alguns ficaram fora do Muro. Mefi é o movimento e é “Mefistófeles” porque anticristão, contra o repouso, contra o equilíbrio feliz. Os Guardiões entram no prédio, I foge, S livra a cara de D. D está indo para a Casa Antiga encontrar com I, quando O o intercepta. Ela está mais arredondada – grávida. D propõe levá-la para o outro lado do Muro, para salvá-la e ao bebê. Ela se recusa, não quer nada com I. D segue para a Casa Antiga e conversa com I.

Sobressaltei-me: – Isso é inconcebível! Um absurdo! Por acaso não está claro que o que você está começando é uma revolução?

– Sim, uma revolução! Por que isso é absurdo?

– É um absurdo porque uma revolução não é possível. Porque a nossa, a nossa revolução foi a última. E não é possível haver outras revoluções. Todo mundo sabe disso…

Um zombeteiro triângulo pontiagudo de sobrancelhas: – Meu querido: você é um matemático. Inclusive mais do que isso: um filósofo da matemática. Então: fale-me sobre o último número.

– O que você quer dizer? Eu… Eu não entendo: que último?

– Bem, o último, o mais elevado, o maior.

– Mas, I, isso é um completo absurdo. Os números são infinitos, que último número é esse que você quer?

– E que última revolução é essa que você quer? Não há última, as revoluções são infinitas. Último é para as crianças: o infinito as assusta, e é imprescindível que as crianças durmam tranquilamente à noite…

D pensa em suicídio – o conflito entre o amor por I, o leve interesse nos rebeldes e o condicionamento imposto pelo Estado pipocam a cabeça dele. O Estado Único publica no jornal que a solução para a crise é extirpar a imaginação das pessoas, para que elas ajam mecanicamente, como deve ser. Isso será feito com raios X em um ponto específico do cérebro: a Grande Operação. No apartamento dele, Iu leu as anotações e sabe da intenção de sequestro da “Integral”.

No apartamento de I, ela diz adeus porque ele está doente “e agora existe a Operação, e você vai se curar de mim. Isso é um adeus.” Ele diz que quer ficar ao lado dela e mantém o plano de sequestro da nave. No dia seguinte, um monte de recém-operados se deslocam firmemente pelas ruas, parecem tratores humanoides porque possuem rodas. As pessoas nas ruas se assustam e fogem. O diz a D que quer se salvar, mesmo dependendo de I. Ele faz um bilhete e a envia para I.

Jornal: quem não comparecer à Operação, será executado na Máquina do Benfeitor. A nave “Integral” é lançada ao espaço, sai da atmosfera. Os rebeldes estão infiltrados na nave, mas o plano deles é meio desconjuntado. I informa a D que O já está em segurança fora do muro. Os Guardiões sabem do plano e tentam impedir. I acredita que D traiu os rebeldes, mas não foi ele, foi Iu. D ainda tenta arremessar a nave contra o solo, mas o Segundo Construtor consegue evitar.

No dia seguinte, nada funciona, é a Grande Operação para todos. Iu está no quarto dele e ele quer matá-la, mas Iu pensa que ele quer sexo e tira a roupa. Iu confessa que denunciou a trama, mas não revelou o número de I. O Benfeitor telefona e chama D. O Benfeitor: “Você também? Você, o Construtor da “Integral”?” O Benfeitor pergunta: “Sou um carrasco?” e D: “Sim, é”. O Benfeitor faz o discursozinho de sempre dos ditadores, a felicidade humana, e diz que D foi usado pelos rebeldes para conseguirem a nave e que o próprio D ainda vai confessar os nomes deles. D foge dali e vê a Máquina do Benfeitor em funcionamento e grita “salve-me disso, salve-me”.

No dia seguinte, aves invadem a cidade, os rebeldes explodiram o muro, I está em ação na cidade. D se pergunta “quem somos nós, quem são eles, quem sou eu?” Luta entre “eles” e os operados. Ele dorme e acorda com I em seu quarto. Ele diz que esteve com o Benfeitor, ela vai embora para sempre, ainda acreditando na traição dele. Caos nas ruas, o cadáver de R, o poeta. D vai ao Departamento de Guardiões para denunciar, está cheio, filas, ele é recebido na sala de S, que se revela como membro do Mefi. Ele foge, é detido e levado para a Grande Operação.

Depois, vai ao Benfeitor e conta tudo que sabia sobre os rebeldes. “Nenhum delírio, nem metáforas absurdas, nem sentimentos: somente fatos. Porque estou saudável, totalmente, absolutamente saudável. Sorrio e não posso deixar de sorrir: removeram alguma lasca da minha cabeça, ela está leve, vazia.” Naquela noite, torturam “aquela mulher”, I, na presença dele e do Benfeitor. Ela foi colocada em uma câmara da qual retiravam o ar, ela sufocava, morria e era ressuscitada com choques, três vezes, e ela não falou nada. Outros falaram logo. No dia seguinte, a Máquina do Benfeitor funcionará para todos os traidores.

Mas, diz D, “no oeste ainda impera o caos, a gritaria, os cadáveres, as feras e, infelizmente, uma quantidade significativa de números que traíram a razão. Mas, no cruzamento da Avenida 40, conseguimos construir um Muro alto, temporário e elétrico. E tenho esperança de que venceremos. Mais: tenho certeza de que venceremos. Porque a razão deve vencer.

Fim.