Em A Pérola que Rompeu a Concha, conhecemos Shekiba e Rahima, duas mulheres que viveram em épocas diferentes, mas vivem uma situação muito parecida. Shekiba é a trisavó de Rahima e viveu no Afeganistão do início do século XX, quando Habibullah Khan era o rei e depois foi substituído por seu filho Amanullah Khan quando foi assassinado. Nesse contexto, as mulheres não tinham direito algum, eram tratadas da forma que melhor servisse aos homens, não podiam sair desacompanhadas de casa (quando o faziam tinha de ser escondido e era considerado uma vergonha para a família).

Rahima vive no Afeganistão após a queda dos talibãs, assim, seu país está todo destruído após a guerra (a personagem descreve seu cenário como extremamente monótono e sem cores), as mulheres conquistaram algumas coisas, mas ainda são tratadas como objetos. A diferença do cenário das duas personagens é perceptível, mas em relação aos direitos das mulheres, pouco foi conquistado. Tanto é que, como Rahima só tem irmãs, ela precisa se tornar uma bacha posh, que é um costume dos afegãos que só têm filhas mulheres, então uma delas se veste e age como um menino.

Quando solicitei A Pérola que Rompeu a Concha, eu já tinha uma pequena noção da cultura afegã por causa de um livro que li para a escola há alguns anos. Então, como gostei do livro na época, imaginei que esse também seria interessante, mas acabei me surpreendendo bastante. Como o livro que eu havia lido era indicado para um público mais novo, os detalhes e os acontecimentos não eram retratados com tanta brutalidade nem tanta clareza quanto a descrição de Nadia Hashimi. A surpresa que esse livro me causou não foi de forma alguma negativa, mas sim um colírio para os olhos.

Os pais da autora são afegãos que foram para os Estados Unidos em 1970, então, mesmo ela não sendo natural do Afeganistão, tem muito contato com a cultura e pesquisou bastante antes de escrever o livro (conforme entrevista ao final do mesmo). Logo, a história soa muito como um relato, fato que nos faz envolver ainda mais com a narrativa. A leitura, para mim, foi muito pesada, já que apesar de saber um pouco da cultura desse povo, nunca tinha lido nada parecido nem procurado saber mais.

Ele deseja isso, percebi. Meu pai quer nos casar.
Esse pensamento me causou um arrepio. Eu compreendi algo que minha mãe já sabia: os homens podiam fazer o que quisessem com as mulheres. Não havia como deter o que Padar tinha começado. (p. 125)

Em alguns capítulos eu simplesmente tinha que parar e dar um tempo para absorver todo o conteúdo, principalmente porque a cultura deles é completamente diferente da nossa e eu ficava irritada ao ler certas coisas. A escrita de Nadia é tão detalhada que sentimos quase como se estivéssemos junto dos personagens, o que fez com que fosse ainda mais impossível ler muitos capítulos de uma só vez.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi o fato da autora mesclar algumas palavras, eu não pretendo aprender a língua, mas a forma como um prefixo ou sufixo indica respeito e posição social é muito interessante. No começo fiquei um pouco perdida, pois para alguns nomes a autora não dá muitas explicações, mas com o passar das páginas é fácil compreender o significado de cada um. O que me leva aos nomes, Amanullah, Habibullah, Abdullah, qualquer coisa llah são muito comuns. Algumas vezes tive que ler o nome mais de uma vez para perceber que não eram iguais (risos). Alguns personagens são reais (como Amanullah e Habibullah, que foram ambos reis do Afeganistão) e outros foram criados pela autora, mas como eu já disse, a obra é tão realista que parece um relato.

Acompanhar a trajetória das personagens e perceber a semelhança entre Shekiba e Rahima é muito interessante. Ver como Rahima se apaixona por um colega sem perceber, mas não pode ficar perto dele porque tem que voltar a ser menina e é prometida em casamento para outro é de partir o coração. São detalhes que não estão descritos mas podem ser subentendidos.

Apesar do peso do livro, eu o considero um livro que todos deveriam ler. Com uma perspectiva diferente, aprendemos um pouco mais sobre a cultura afegã e sobre uma realidade que parece estar muito distante de nós. A Pérola que Rompeu a Concha se tornou um dos meus livros preferidos, acredito que, apesar de estarmos apenas no começo do ano, será o melhor livro que li.

Título Original: The pearl that broke its shell

Autora: Nadia Hashimi

Páginas: 448

Tradução: Simone Reisner

Editora: Arqueiro

Livro recebido em parceria com a editora