Anotações Macbeth
Macbeth, William Shakespeare, 1606, tradução e introdução de Bárbara Heliodora, Editora Nova Fronteira, 134 páginas.
A tradução
Já havia lido Macbeth mais de uma vez em traduções que não lembro quem fez. Encontrei esse volume com tradução de Barbara Heliodora e decidi ler mais uma vez. Sim, a tradução dela é boa, e Heliodora é admirada entre os tradutores brasileiros. Todavia, ainda não encontrei a tradução do jeito que prefiro: traduzir Shakespeare diretamente, quase literalmente, sem lutar com a métrica e a rima. Meu desejo é conhecer a frase inteira, do jeito que o autor pensou, se for possível. No caso de Heliodora e de quase toda tradução do autor, para se acomodar a uma ou a outra, o tradutor transforma a oração. Veja-se apenas um exemplo, quando a Segunda Feiticeira responde à pergunta da Primeira (quando nos encontraremos de novo?):
Shakespeare escreveu:
When the hurlyburly’s done,
When the battle’s lost and won.
Eu traduzi de forma direta:
Quando a confusão estiver terminada,
Quando a batalha estiver perdida e ganha.
Barbara Heliodora traduziu:
Só com a bulha arrefecida,
Ganhar a luta perdida.
Heliodora optou por bulha porque a palavra se parece com hurlyburly em som e sentido. Optou por luta perdida para rimar. Entretanto, essa opção faz perder significado. No primeiro verso, bulha não tem o significado claro e imediato de confusão. No segundo verso, perdeu-se a intenção do autor. Shakespeare fala em batalha perdida e ganha porque a batalha é perdida por um lado e é ganha pelo lado oponente. Ganhar a luta perdida não me dá essa ideia.
Portanto, a tradução de Heliodora é boa e tem boas rimas, mas perde em significado e em aderência à ideia original.
A introdução feita pela tradutora é muito boa e adiciona elementos à comprensão da obra. Entretanto, esta edição da Nova Fronteira peca pela ausência de notas explicativas. Há muitos contextos e citações que necessitavam ser explicados ao leitor atual. Deve haver edições melhores de Macbeth em português.
A história
Evidentemente, Macbeth é um clássico e todo clássico deveria ser lido um dia. Talvez quem nunca tomou conhecimento sobre a obra tenha ao menos uma vaga noção de um rei, algumas bruxas, algum sangue, alguma batalha. Macbeth é uma história sobre ambição desmedida, sobre insanidade, violência e crueldade. O personagem Macbeth é o valente general do rei Duncan e se destaca nas batalhas recentes. Sua ambição é despertada por feiticeiras que o saúdam como futuro rei. Ao hospedar Duncan, Macbeth ainda tem dúvidas sobre o ato, porém, pressionado pela esposa, comete o regicídio. Daí em diante, Macbeth afunda em sangue. Parece buscar na quantidade de crimes uma forma de anestesiar o primeiro assassinato. Lady Macbeth, de início tão segura e determinada, é tomada pelo peso do crime, a visão e o cheiro do sangue a perseguem, e ela tira a própria vida. Depois de cometer diversos assassinatos para se manter no poder, Macbeth é derrotado pelas forças inglesas que apoiam o herdeiro legítimo do trono, o filho mais velho do rei Duncan.
O livro é excelente. As dúvidas iniciais de Macbeth acerca do crime, sua gradual transformação em sanguinário e sem limites, as visões e aparições que ambos, ele e sua esposa, presenciam, todo o sobrenatural da peça, tudo isso é marcante. As cenas em que as feiticeiras aparecem estão entre as melhores. Percebo nelas, além da maldade e da falsidade, uma alegria malévola e até infantil. É relevante observar que momentos cruciais da história, e da peça teatral, não são mostrados, ou seja, são apenas subentendidos e referidos depois pelos personagens: assim, o assassinato de Duncan por Macbeth, o momento em que Lady Macbeth vai ao quarto do rei assassinado deixar as adagas, o suicídio de Lady Macbeth. Observe-se, também, que é o fantasma de Banquo que assombra Macbeth, não o do rei Duncan. Na peça, não se esclarece a forma como Banquo dará origem a uma casa real, algo que foi previsto pelas feiticeiras, visto que Macbeth é derrotado e sucedido pelo herdeiro legítimo de Duncan.
Uma obra inesquecível, sombria, sanguinária e valiosa.
Resumo e anotações
Ato 1
Cena 1
Na charneca, apresentação das bruxas.
Cena 2
Duncan, rei da Escócia, no acampamento, recebe notícias das batalhas contra a Irlanda e a Noruega. A coragem dos generais Banquo e Macbeth, este chamado de noivo de Belona. Belona é a deusa da guerra na mitologia romana. Duncan ordena a morte do traidor, o Thane de Cawdor, e determina que Macbeth fique com o título. Thane é um título de nobreza semelhante a conde ou barão.
Cena 3
As bruxas na charneca, com Macbeth e Banquo. Banquo: “Quem são essas, tão secas e tão loucas no vestir, que não parecem habitar a terra?” As bruxas prevêem que Macbeth será Thane de Cawdor e rei, e que Banquo será pai de reis. Banquo: “Mas, falamos de algo que aqui esteve, ou comemos raízes que enlouquecem fazendo o cérebro seu prisioneiro?” Rosse e Angus informam que Macbeth agora é Cawdor. Banquo tem ótimas falas: “Muita vez, para levar-nos para o mal, as armas do negror dizem verdades; ganham-nos com tolices, para trair-nos em questões mais profundas”. Macbeth: “A tentação do sobrenatural não pode nem ser má e nem ser boa”. Macbeth está assustado: “se o fado me quer rei, me coroe sem que eu me mova”.
Cena 4
No palácio Forres, Duncan e seu filho Malcolm. Cawdor foi executado: “Em sua vida, nada lhe foi tão bem quanto o deixá-la”. Macbeth é primo do rei Duncan. Malcolm é feito Príncipe de Cumberland. Combina-se que todos irão a Inverness, o castelo de Macbeth. Ele: “Apaga, estrela, para que a luz não veja os meus negros desígnios”.
Cena 5
Em Inverness. Lady Macbeth lê a carta do marido e pensa: “Temo-te a natureza: sobra-lhe o leite da bondade humana para tomar o atalho. Sonhas alto, não te falta ambição, porém privada do mal que há nela! (…) Vem para que eu jorre brio em teus ouvidos.” Ela está mais decidida ao crime que o marido, “Vinde espíritos das ideias mortais, tirai-me o sexo”, para que ela possa atuar como homem e exercer a “vil crueldade”. Clama aos “espíritos mortíferos” para tornar seu “leite em fel”. Macbeth chega na frente da comitiva do rei e ela diz a ele: “Teu rosto é um livro aonde os homens podem ler suspeições”. Macbeth angustiado.
Cena 6
Em Inverness, o rei Duncan é recebido por Lady Macbeth.
Cena 7
Macbeth tem dúvidas: “Não vou levar avante esse negócio”. Lady Macbeth: “Estava bêbada a ambição que vestias? E dormiu?”. E ele: “Paz, eu peço”. Ela mais forte e mais decidida. Macbeth: “Estou pronto”.
Ato 2
Cena 1
Em Inverness, Banquo e Macbeth no pátio do castelo, Banquo sonhou com as bruxas. Macbeth: “Estar do meu lado quando calhar lhe trará honra”. Banquo mostra reservas em relação a Macbeth: “Desde que não a perca por querer aumentá-la”. Macbeth fica só e tem a visão de um punhal, “uma adaga da mente”.
Cena 2
Lady Macbeth receia que o atentado falhe: “A tentativa pode perder-nos, não o ato em si”. Duncan se parece com o pai dela, Lady Macbeth não conseguiria matá-lo. Macbeth: “Fiz o feito. (…) É uma triste visão”. “Tolice”, responde ela. “Não pense tanto nisso (…) Não se pode pensar dessa maneira nesses feitos, assim ficamos loucos”. Macbeth ouviu uma voz: “Macbeth matou o sono e não mais dormirá”. Ele ainda está com os punhais ensanguentados. Lady Macbeth lhe diz que volte, leve os punhais e besunte os guardas com sangue – haviam sido embebedados e drogados por ela. Macbeth: “Não posso mais”. Ela vai: “Os que dormem e os mortos são só quadros. Só crianças temem um diabo pintado”. Macbeth: “O vasto oceano não consegue lavar o sangue destas mãos (…) Antes, estas mãos conseguiriam avermelhar a imensidão do mar”. Batem e batem nas portas do castelo. Macbeth: “Acordem Duncan com o seu bater. Quem dera o conseguissem”.
Cena 3
Lenox e Macduff chegam para acordar o rei. Vai Macduff ao quarto de Duncan. Macbeth e Lenox, “a noite foi inquieta”, “a noite foi terrível”. Macduff retorna e Lenox e Macbeth correm para ver o feito. Macduff: “Alarme, alarme, homicídio e traição. (…) Deixai o sono, imitação da morte, e olhai a própria morte.” Lady Macbeth, Banquo, Donalbain, Malcolm, Macbeth: “Se eu morresse uma hora antes do havido, minha vida seria abençoada.” Macbeth matou os assassinos, os guardas, em um ímpeto de fúria. Banquo: “Lutarei contra a falsidade oculta da maldosa traição.” Donalbain e Malcolm, filhos de Duncan, percebem o perigo: “Mostrar dor que não se sente é tarefa que o falso cumpre bem.” “Onde estamos há punhais nos sorrisos.” “A fatal flecha ainda não pousou e o mais seguro é evitar o alvo.” Sem “adeuses delicados”, eles partem.
Cena 4
Fora do castelo, Rosse e um velho, o dia está negro, foram horas terríveis. Velho: “É anormal como o ato perpetrado. Na terça-feira, um falcão altaneiro foi trucidado por uma coruja.” Macduff: “Os cavalos de Duncan fugiram, os filhos do rei são suspeitos pois fugiram. Macbeth foi para a coroação em Scone, Rosse vai para lá, Macduff para Fife.
Ato 3
Cena 1
Forres, palácio. Banquo, Macbeth e Lady Macbeth conversam, haverá uma ceia à noite. Banquo vai cavalgar com o filho. Macbeth: “Nossos primos sangrentos, nos informam, fugiram para Inglaterra e Irlanda sem confessar o cruel parricídio.” “Um cetro (!) estéril tenho em minha mão”, diz Macbeth, visto que as bruxas profetizaram que Banquo seria pai de reis. Macbeth contrato dois assassinos: “Cada alento de Banquo torna-se um golpe em minha própria vida.”
Cena 2
Sala do castelo, Lady Macbeth: “Não há ganhos, tudo é perda se o desejo se alcança sem prazer.” Macbeth: “Duncan está na tumba, dormindo após a febre desta vida.” Ele diz que o casal está “escondendo o que somos” e que “escorpiões entopem minha mente”. “Só o mal pode fazer crescer o mal.”
Cena 3
Um caminho que leva ao castelo, surge um terceiro assassino (falha de roteiro?), matam Banquo e Fleance foge.
Cena 4
Um banquete no castelo. O casal Macbeth e nobres. Um assassino vem falar com o rei. “Há sange no teu rosto”, “só de Banquo”, “melhor em você que dentro dele”. O fantasma de Banquo se senta na cadeira de Macbeth: “Não podes me acusar, nem sacudas para mim o teu cabelo ensanguentado.” A aparição do fantasma é “mais estranha que o próprio assassinato”. “Podem tais coisas existir e sombrear-nos, qual nuvem de verão, sem ser com espanto?” “Ele quer sangue: sangue pede sangue.” “Estou tão fundo em sangue que, se paro, a travessia e a volta são iguais.” Todavia, a angústia faz com que Macbeth diga que “ainda somos novatos em tais feitos.”
Cena 5
Na charneca. Hécate irada porque não foi chamada a participar dos feitiços. Diz que Macbeth “é um filho tão sem jeito que só tem ódio” e recomenda “aumentar-lhe a confusão”. “Confiar demais é o inimigo dos mortais”. O espírito está me esperando, e sai.
Cena 6
Escócia. Lenox faz ironia acerca dos assassinatos. Macduff está desgraçado porque não atendeu ao convite de Macbeth para jantar. “Que volte a ser abençoada nossa pátria que sofre sob mão maldita.”
Ato 4
Cena 1
Uma caverna escura com um caldeirão fervendo. As feiticeiras conjuram feitiços: “fígado de mau judeu (…) Nariz de turco e bandido”. Entram Hécate e outras três bruxas e logo saem. Macbeth chega. “Queres que falemos nós ou nossos mestres?”. “Eles.” Macbeth não precisa fazer perguntas, as aparições já sabem as perguntas, é só ouvir as respostas. Um: cuidado com Macduff, dois: ninguém parido de mulher pode ferir Macbeth, três: jamais será vencido enquanto a floresta de Birnam não se mover. Haverá uma linhagem de reis com origem em Banquo. Macduff foge para a Inglaterra.
Cena 2
Castelo de Macduff. Lady Macduff com Ross, depois com o filho. “Quem jura e mente é traidor.” “Juradores e mentirosos são tolos porque há bastantes juradores e mentirosos para ganhar dos honestos e enforcá-los.” Assassinos a mando de Macbeth matam Lady Macduff e filhos.
Cena 3
Na Inglaterra, Malcolm recebe Macduff: “Os anjos brilham apesar de Lúcifer.” Macduff: “Nem na tropa que habita o inferno pode haver demônio pior que Macbeth.” Malcolm não confia em Macduff e se denigre, diz que é pior que Macbeth. Macduff cita a sua luxúria. E Macduff: “Sempre há damas dispostas (…) todas as que aos grandes se querem dar quando buscadas.” E ainda: “Triste nação cujo cetro de sangue está com um tirano sem direito a ele.” Malcolm acredita em Macduff e conta que irá atacar com Siward e dez mil soldados. O rei da Inglaterra sofre do Mal e cura doenças e chagas. Ross comunica a Macduff a morte da mulher e dos filhos. “Até a longa noite acaba em dia.”
Ato 5
Cena 1
Dunsinane. Médico, dama e Lady Macbeth que alucina, sangue nas mãos, “Mas quem haveria de pensar que o velho tivesse tanto sangue?”, sente cheiro de sangue.
Cena 2
Campo aberto. Lenox e outros passam para o lado de Malcolm.
Cena 3
Dunsinane. A notícia de que são dez mil homens a força inglesa. Sobre a doença de Lady Macbeth, o médico diz que “males escritos no cérebro (…) nisso o doente tem de curar-se a si mesmo.”
Cena 4
Campo aberto com vista para a floresta. O exército e os nobres, Malcolm, Siward, Macduff, Lenox, Ross. Os soldados cortam galhos e usam como camuflagem.
Cena 5
Dunsinane. Macbeth: “Estou farto de horrores: o pavor, íntimo do meu pensar, já nem assusta.” “A vida é só uma sombra. Um mau ator que grita e se debate pelo palco, depois é esquecido; é uma história que conta o idiota, todo som e fúria sem querer dizer nada.” Avisam a Macbeth que “a floresta avança.”
Cena 6
Na planície, o exército de Malcolm avança com Siward à frente.
Cena 7
Outra parte do campo. Macbeth mata o jovem Siward e sai. Entra Macduff, o castelo se rendeu.
Cena 8
No campo. Macduff e Macbeth: “Minha alma está farta do peso do teu sangue. (…) Vivo de encantos.” Macduff: “Fui arrancado fora do tempo ao ventre de minha mãe.” Macbeth: “Maldito aquele que primeiro gritar Basta!” Macbeth é morto por Macduff.
Cena 9
Dentro do castelo. Malcolm, Siward, Macduff e outros. “A rainha que por suas próprias mãos deixou a vida.” São todos convidados para a coroação.