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Supondo, por hipótese muito benigna, que se deva considerar a edição de 1572, a princeps, como íntegra, isto é, poupada pelo lápis do revedor, que julgamento proferir em face da edição dos Piscos ou dos Jesuítas, datada de 1584, uns doze anos depois, já o poeta não existia, quanto às bárbaras mutilações nela cometidas pelo mesmo Frei Bartolomeu Ferreira? O parecer que a acompanha reza assim com desassombrado des-

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«O frade, com o poeta no outro mundo, podia tripudiar à vontade sobre a Beleza.»

OS LVSIADAS de Luis de Camoēs. COM PRIVILEGIO REAL. Impreſſos em Lisboa, com licença da ſancta Inquiſição, & do Ordinario: em caſa de Antonio Gõçaluez Impreſſor. 1572. Fac-símile da portada da edição de 1572 d'Os Lusiadas, com o pelicano virado para a direita. Fac-símile da portada da edição de 1572 d'Os Lusiadas, com o pelicano virado para a esquerda.

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Fonte das 2 Imagens:

 «DICIONÁRIO de LUÍS de CAMões»,
Coordenação de Vítor Aguiar e Silva, 1ª edição (Setembro de 2011).

Editorial Caminho.

AQUILINO RIBEIRO

quite : «o qual livro asi emmendado como agora
vay, não tem cousa contra a fee e bôos costu-
mes.»

Como explicar esta versatilidade do censor? Na
rosa dos ventos sopravam alisados mais desabridos?
É para nós ponto de fé que na cela de S. Domin-
gos se fez um atrocíssimo mercado negro. O frade
deixou passar a Ilha dos Amores, com sua bu-
cólica realista em troca da enxertia no poema das
7 últimas estâncias do Canto IX, o sermão do
apostolado; das estâncias 82, 83, 84 ou a retracta-
ção; e das estâncias 108 à 119 ou a lenda de
S. Tomé. É convicção nossa que este «cão de
S. Domingos», como cada um se honrava de ser
na ordem dominicana, interpretando macarrònica-
mente o título, tenha deste jeito ferrado a dentuça
no texto camoniano. Dar a dar. Passaria a Ilha
Namorada em troca da Lenda de S. Tomé. Pas-
sariam as invocações aos deuses com a devida re-
tractação, como S.to Agostinho fez.

O poeta submeteu-se, e o livro circulou com
certo enojo do frade, que no catálogo de 1582 se
lhe não referiu, porque esperava a sua hora. Essa
hora chegou com a edição de 1584. Camões era fi-
nado. O frade havia conseguido impor a sua ratio;
retirava o que dava. Assim se explica que a mão
que armou à tolerância se recuperasse ostentosa-
mente mais tarde. O frade, com o poeta no outro
mundo, podia tripudiar à vontade sobre a Be-
leza.

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«Nos Lusíadas,  há pois que esladroar as estâncias em questão, dum barroco teológico incompatível com a bela ordenança, puro estilo Renascimento, do restante poema. Até sob o ponto de vista dimensional dos cantos, essa monda se impõe. Com efeito, à parte o Canto III que conta 143 estâncias, todos os outros orçam pela centena.»

O Canto IX terminaria com os dois versos:

  88. 
Assi a fermosa e a forte companhia
O dia quási todo estão passando
Nũa alma, doce, incógnita alegria,
Os trabalhos tão longos compensando.
Porque dos feitos grandes, da ousadia
Forte e famosa, o mundo está guardando
O prémio lá no fim, bem merecido,
Com fama grande e nome alto e subido.

«Tudo o mais é redundância, enfadonha prolixidade, desenvolvimento bastante abstruso do mesmo conceito, uma mastigação tão ao avesso do ático e conciso Camões.»

O canto X, finalmente, sem as onze estâncias (109 a 119) que começam: 

109.
«Aqui a cidade foi que se chamava
Meliapor, fermosa, grande e rica;
Os Ídolos antigos adorava,
Como inda agora faz a gente inica.
Longe do mar naquele tempo estava,
Quando a Fé, que no mundo se pubrica,
Tomé vinha prègando, e já passara
Províncias mil do mundo, que ensinara.

110.
«Chegado aqui, prègando e junto dando
A doentes saúde, a mortos vida,
Acaso traz um dia o mar, vagando,
Um lenho de grandeza desmedida.
Deseja o Rei, que andava edificando,
Fazer dele madeira; e não duvida
Poder tirá-lo a terra, com possantes
Forças d' homens, de engenhos, de alifantes.

111.
«Era tão grande o peso do madeiro
Que, só pera abalar-se, nada abasta;
Mas o núncio de Cristo verdadeiro
Menos trabalho em tal negócio gasta:
Ata o cordão que traz, por derradeiro,
No tronco, e facilmente o leva e arrasta
Pera onde faça um sumptuoso templo
Que ficasse aos futuros por exemplo.

112.
«Sabia bem que se com fé formada
Mandar a um monte surdo que se mova,
Que obedecerá logo à voz sagrada,
Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
A gente ficou disto alvoraçada;
Os Brâmenes o têm por cousa nova;
Vendo os milagres, vendo a santidade,
Hão medo de perder autoridade.

113.
«São estes sacerdotes dos Gentios
Em quem mais penetrado tinha enveja;
Buscam maneiras mil, buscam desvios,
Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
O principal, que ao peito traz os fios,
Um caso horrendo faz, que o mundo veja
Que inimiga não há, tão dura e fera,
Como a virtude falsa, da sincera.

114.
«Um filho próprio mata, e logo acusa
De homicídio Tomé, que era inocente;
Dá falsas testemunhas, como se usa;
Condenaram-no a morte brevemente.
O Santo, que não vê milhor escusa
Que apelar pera o Padre omnipotente,
Quer, diante do Rei e dos senhores,
Que se faça um milagre dos maiores.

115.
«O corpo morto manda ser trazido,
Que res[s]ucite e seja perguntado
Quem foi seu matador, e será crido
Por testemunho, o seu, mais aprovado.
Viram todos o moço vivo, erguido,
Em nome de Jesus crucificado:
Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,
E descobre seu pai ser homicida.

116.
«Este milagre fez tamanho espanto
Que o Rei se banha logo na água santa,
E muitos após ele; um beija o manto,
Outro louvor do Deus de Tomé canta.
Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,
Com seu veneno os morde enveja tanta,
Que, persuadindo a isso o povo rudo,
Determinam matá-lo, em fim de tudo.

117.
«Um dia que prègando ao povo estava,
Fingiram entre a gente um arruido.
(Já Cristo neste tempo lhe ordenava
Que, padecendo, fosse ao Céu subido);
A multidão das pedras que voava
No Santo dá, já a tudo oferecido;
Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
Com crua lança o peito lhe atravessa.

118.
«Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
Chorou-te toda a terra que pisaste;
Mais te choram as almas que vestindo
Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.
Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
Te recebem na glória que ganhaste.
Pedimos-te que a Deus ajuda peças
Com que os teus Lusitanos favoreças.

e acabam:

119.
«E vós outros que os nomes usurpais
De mandados de Deus, como Tomé,
Dizei: se sois mandados, como estais
Sem irdes a prègar a santa Fé?
Olhai que, se sois Sal e vos danais
Na pátria, onde profeta ninguém é,
Com que se salgarão em nossos dias
(Infiéis deixo) tantas heresias?

... embutidas a nosso ver pela mão do frade, e com o que o fio da narração poética nada sofre, ficaria reduzido a   145   = (156-11), por consequência ganhando também neste plano de perspectivas.»

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https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/os-lusiadas-poema-epico-dez-cantos-156305?tc=186099557332

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 Carlos Ascenso André  03.01.2025

Não sou muito entusiasta da ciência dos números aplicada à apreciação de obras literária (uma espécie de aritmosofia na literatura). Mas que há coincidências espantosas, lá isso há. Salta à vista, por exemplo, a quase equivalência dos cantos V e VI. Ora, o canto V é onde está um episódio determinante em toda a narrativa, o episódio do Adamastor, momento da vitória sobre os medos, mas também profecia da história trágico-marítima que viria depois; e o canto VI é o da chegada à Índia. Os dois juntos fazem o centro geométrico do poema. Jorge de Sena foi exaustivo neste tipo de análise e Vasco Graça Moura também (em alguns momentos) usou essa lupa. Saúdo a publicação que se faz aqui pela curiosidade de que se reveste e que abre pistas muito interessantes. Carlos Ascenso André