Dicionário do suicídio (em construção)
Letra A
Anna Kariênina: Jogou-se na frente de um trem. Personagem famoso de Tolstói. Diz-se que o impulso inicial do romance veio de um fato real, assunto comentado na família do escritor, uma mulher que se jogou na frente do trem na estação local.
Arma de fogo: Método caseiro para deixar de viver. A melhor opção para o suicídio, exceto por uma morte controlada pela medicina. Como não é permitido que alguém procure um médico com a intenção de deixar de viver, restam os métodos caseiros. A arma de fogo tem uma grande porcentagem de sucesso, é um método que causa uma morte rápida e quase imediata e, importante, supõe-se que não deve doer muito ou, ao menos, seria uma dor forte e curta. A maior dificuldade é conseguir legalmente uma arma. O método tem o inconveniente de provocar certa sujeira. Nã o é bom dar um tiro na cabeça sentado na cama visto que provavelmente se vai inutilizar o colchão, encharcado de sangue. Se o suicida é casado, vai deixar mais um problema para a futura viúva. O melhor lugar seria, talvez, o box do banheiro, visto que o sangue poderia ser lavado com mais facilidade. Diz-se que o melhor lugar do corpo para o tiro seria a cabeça. Eu não arriscaria o coração, mais fácil de errar e de sobreviver. Diz-se, também, que, para o tiro na cabeça, é melhor colocar o cano da arma de fogo na boca para evitar que a arma desvie e o tiro atinja apenas parcialmente o cérebro.
Letra C
Carta: Embora muitos suicidas não o façam, é aconselhável deixar uma carta, ao menos para os familiares mais próximos. Mesmo que eles continuem a não entender e não aprovar o gesto extremo, terão um pouco de conforto com algumas palavras deixadas pelo finado.
Comprimidos: Método inseguro, com possibilidade de ser doloroso. A dificuldade de conseguir comprimidos eficazes também deve ser considerada.
Coragem: Qualidade necessária ao suicida. Há que ter coragem para executar o plano. “Um dia vou tomar coragem e” é um pensamento recorrente aos suicidas.
Letra D
Direito de morrer: Ausente da Constituição, o direito à morte, ou direito de morrer, é um direito fundamental do ser humano. A Constituição cita o “direito à vida” em três artigos e nada sobre o direito à morte. Todos têm o direito inalienável de não querer continuar no mundo.
Dívidas: Um bom motivo para cometer suicídio. Mortos não têm dívidas, é a libertação total. Adeus CPF, boletos, cartões, contas, despesas, saldo negativo, imposto de renda, multas.
Letra E
Edifício: Deve ser muitíssimo alto. Método caseiro de suicídio, geralmente eficaz. Entretanto, o suicida não deve se arriscar escolhendo edifícios de poucos andares. Muita gente sobrevive a quedas de quatro, sete, oito andares. É aconselhável verificar se não há toldos ou árvores lá embaixo que poderiam atrapalhar o plano. É imprescindível certificar-se de que o alvo esteja livre da circulação de pessoas, o suicida não deveria provocar a morte de terceiros. Deve-se considerar que este método favorece as fotografias dos curiosos.
Emma Bovary: Personagem do livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Sofre uma morte dolorosa depois de comer um veneno que surrupia da farmácia que fica quase em frente a sua casa.
Enforcamento: Não é um bom método caseiro de morrer, esse de colocar a corda no pescoço e ficar pendurado. Geralmente, apresenta muitas falhas. A corda tem que ser forte, o lugar de se pendurar fortíssimo. A morte é lenta, esse o principal motivo para evitar o método. Diz-se que demora uns vinte minutos para morrer dessa forma. Além da demora para morrer, alguém pode entrar e salvar o indivíduo. Alguns enforcados também se cagam e se mijam, muito feio.
Enrique Vila-Matas: Escritor que publicou um livro intitulado Suicídios exemplares no qual ninguém se mata de verdade.
Letra F
Facebook: Inimigo dos suicidas. Nos tempos atuais, se um cidadão escreve no Facebook algo que dê a entender a vontade do suicídio, em minutos terá na sua porta um carro da polícia para evitar a tentativa. Se alguém quer realmente se matar, não deve dar nenhum indício, especialmente no Facebook.
Letra H
Hu Bo: Escritor e cineasta chinês, fez um único longa-metragem e se matou log após concluir o filme, aos 29 anos.
Letra J
Judas Iscariotes: Apóstolo que traiu Jesus por trinta dinheiros, o que era muito pouco na época, arrependeu-se e tentou devolver as moedas aos sacerdotes que não aceitaram. Enforcou-se.
Letra K
Kawabata: Escritor e suicida famoso. Tópico em desenvolvimento.
Letra M
Madalena: Personagem do livro São Bernardo, de Graciliano Ramos. Mata-se com veneno, deve ter sofrido, contudo o marido não presencia seus momentos derradeiros, só descobre o corpo no dia seguinte. O autor fala em espuma na boca e vidro quebrado pelo chão.
Mishima: Escritor e suicida famoso. Tópico em desenvolvimento.
Letra O
Ônibus: Método desaconselhável. Doloroso e com muitas probabilidades de não se atingir o objetivo. Já imaginou ficar todo arrebentado e vivo no asfalto, cercado de curiosos?
Oração: Embora sem utilidade prática – nenhum deus responde aos apelos humanos – o suicida também reza. Muita vez, é esta a oração dos suicidas: “Por favor, deus, me tire daqui deste pedaço de rocha solto no espaço, hoje, agora, de preferência sem doer”. Todavia, deus prossegue silencioso.
Letra P
Padre João Ribeiro: Pernambucano, liderou a Revolução Pernambucana de 1817, cometeu suicídio, envenenando-se em 13 de maio de 1817 no município de Paulista (Pernambuco), após a derrota dos revoltosos na batalha do Engenho Trapiche. Por ordem do vice-almirante português Rodrigo Lobo, seu corpo foi desenterrado, esquartejado e sua cabeça exposta na ponta de uma vara no centro do Recife, onde ficou por dois anos.
Pulsos: Cortar os pulsos não garante a morte desejada. É uma morte lenta, o que proporciona tempo para que alguém se meta a salvar o suicida. Diz-se que funciona melhor dentro de uma banheira com água, visto que o sangue vai fluir com mais facilidade e rapidez. Se é para morrer se esvaindo em sangue melhor cortar as artérias femorais, nas coxas, obviamente, ali o sangue vai espirrar muito mais rápido. Ou a carótida.
Letra S
Sylvia Plath: Escritora e suicida famosa. Colocou os filhos no quarto e tapou as frestas da porta. Na cozinha, abriu o forno, ligou o gás, colocou uma toalha e deitou a cabeça. Era inverno. As crianças foram encontradas um dia depois, com frio e fome.
Letra T
Tentativa: É uma falha do suicida. Suicidas não devem fazer tentativas. Devem cuidar para que a ação tenha sucesso de primeira. Tentativas frustradas conduzem a uma vida pior, aleijado, cego, doente, paralítico, sem rins, tronxo. Se sair com saúde de uma tentativa, o suicida passará a ser vigiado o resto da vida. Deve-se cuidar para que o ato não se torne uma tentativa. Fazer a coisa certa ao menos uma vez na vida.
Trem: Método de resultado duvidoso, além de doloroso. Funcionou com Anna Kariênina.
Letra V
Veneno: Método inseguro e doloroso, desaconselhável, a chance de sobrevivência é alta e pode deixar muitas sequelas no sobrevivente.
Vergonha: Morto tem vergonha? Contudo, o suicida deve decidir se terá vergonha de seu corpo morto. Muito mais agora, no mundo das fotografias e filmagens diuturnas. O suicida discreto não desejará que seu corpo, sangue, tripas seja fotografado pelos inevitáveis curiosos, e as fotos compartilhadas para horror e delícia da malta. O suicida discreto deve estar atento a este detalhe ao escolher onde tombará seu corpo morto.
Virginia Woolf: Foi lindo o suicídio de Virginia. Um vestido, encheu os bolsos do vestido com pedras e entrou na água gelada do rio. Corpo encontrado dias depois.
Dicionário do suicídio (em construção)
história do suicídio, representação literária da morte, biografias de escritores, análise de métodos e ritos, filosofia do direito à morte
Texto originalmente publicado em kindle babel