Na época em que li pela primeira vez, o meu exemplo de homem passou a se tornar Edward Cullen e queria desesperadamente um romance como o deles. Queria alguém que cuidasse de mim como o Edward cuidava da Bella, alguém que me protegesse, que soubesse exatamente o que eu queria, que me tratasse com todo aquele cuidado. O que esperar de uma menina que passou a transição para adolescência toda lendo livros cujos envolvimentos românticos eram iguais aos que citei anteriormente?
O meu eu de 13 anos não identificava os problemas presentes nessa história porque tudo o que ela via ao seu redor eram comportamentos muito parecidos com o que ela havia lido, então, para a Ana de 2008, aquilo ali era o normal. Hoje, aos 25 anos, consigo enxergar muitas coisas que não são tão legais assim e, mesmo como fã, mesmo que eu ainda goste da saga, acho de extrema importância falar um pouquinho sobre essas coisas com vocês.
Acho que nada melhor que começar justamente falando sobre o fato de Edward ser tão obcecado pela Bella: primeiro querendo matá-la e depois, do nada, "perceber" que na verdade a amava incondicionalmente. Hoje em dia fico me perguntando como ela correspondeu aos sentimentos dele mesmo sabendo que o quão atraído ele se sentia pelo sangue dela... Eu ficaria aterrorizada, mas sendo Edward quem é, não consigo e nem estou em posição de julgar a Bella, mesmo se não houvesse toda aquela história dos vampiros naturalmente atraírem os humanos. Nesse contexto, consigo enxergar principalmente três coisas que me incomodam imensamente:
1. Edward entrando no quarto da Bella à noite enquanto ela dorme. Cheguei nessa parte em Sol da Meia-Noite e a justificativa que temos é que ele tinha medo do que poderia acontecer com a Bella enquanto ela dormia — como, por exemplo, cair um meteoro em cima dela ou algo do tipo. Para mim, nada justifica. É estranho, invasivo, assustador. Meu eu de 13 anos achava romântico, rs.
2. A quantidade de vezes que Edward literalmente manda a Bella fazer coisas simples, como comer ou vestir um agasalho. Foram só exemplos, mas o tempo todo ele tenta dizer o que ela deve ou não fazer. Ok, ele é um vampiro que lê mentes, mas não consegue ler a dela e não sabe como lidar com um ser humano tão frágil, mas ainda assim me irrita. Aqui também acho que pode entrar a questão de ele não deixar a Bella fazer nada sozinha por achar que ela vai se partir no meio. Aos 13 anos, achava que isso era cuidado.
3. Edward stalker psicótico maluco maníaco neurótico vigiando cada mísero passo da Bella pela mente das outras pessoas. Não preciso nem comentar, né?
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| Sinceramente esse GIF é T-U-D-O pra mim, nossa... |
Esses pontos são até meio óbvios, mas já pararam para pensar no quanto a Bella era sufocada por basicamente todos os homens ao redor dela? Além de ficar quase todo tempo sob a mira do Edward, existiam os colegas da escola que, ao menos num primeiro momento, também não a deixavam em paz. Grande exemplo disso é quando ela fala que iria viajar no fim de semana do baile e ainda assim receber mil convites, mesmo os caras sabendo que ela iria viajar (o que, inclusive, gera uma rivalidade feminina totalmente sem necessidade, né?). O Charlie, pai da Bella, apesar de muito bonzinho, não parecia confiar 100% nela — vocês se lembram aquela parte em que ele desconecta os cabos da bateria da caminhonete porque jurava por Deus que ela ia tentar sair escondida à noite?
E por falar em outros homens, o que dizer do Jacob? Dá pra acreditar que aquele serumaninho fofo do primeiro volume se tornaria o mais escroto dos escrotos? Tudo bem, confesso que nunca fui muito fã do personagem de forma geral, então realmente posso ser bem injusta nesse quesito, mas não dá pra defender de forma alguma, por exemplo, ele beijando a Bella a força em Eclipse ou todos os abusos psicológicos que ele fazia para que a menina escolhesse ficar com ele. Ah, e para quem tem curiosidade em saber: sim, a Bella traiu o Edward naquele beijo super esquisito que rola depois, achei a coisa mais sem sentido do mundo.
Às vezes eu fico refletindo refletindo sobre o fato da Bella nunca ter tido escolha... Tipo, a partir do momento que ela conheceu o Edward, o destino dela meio que já estava traçado, né? Tudo passou a girar em torno dele e todas as decisões dela eram tomadas pensando num futuro onde ela se tornaria vampira para passar o resto da eternidade com ele. Ela nunca foi realmente livre e hoje eu enxergo isso e não desejo um amor tão pesado, sabem? Mesmo quando Edward vai embora pelo simples fato de ele sempre achar que sabe o que é melhor pra Bella, ela se manteve presa à ele... Não sei se vocês entendem o que eu quero dizer, mas enfim.
É nesse ponto que vocês se perguntam: "Ana, mas como é possível você amar Crepúsculo tanto assim e apontar esse tanto de problema!? Como assim você é tão cadelinha do Edward mesmo assim??"
Acho que a minha resposta padrão para isso é que eu tenho consciência que essa história foi escrita em 2005 e naquela época a gente não falava sobre esses assuntos. E é verdade. Eu fico realmente feliz que hoje conseguimos ter consciência sobre certos comportamentos a ponto de refletirmos sobre eles. Então, sim, eu consigo enxergar todas essas coisas e várias outras — tipo o lance do imprinting ou o fato de praticamente não existir personagens negros em todos os livros da saga, fatos que podemos discutir aqui nos comentários — sem deixar de gostar de algo que foi e ainda é tão importante para mim. Reconhecer esses erros, aceitá-los e falar sobre eles com naturalidade é mil vezes melhor que criticar as pessoas que gostam da série, não é mesmo?
Mesmo assim, eu gostaria de fazer um adendo importante: sim, eu continuarei criticando livros que foram escritos recentemente ou no século passado que romantizam estupro e qualquer outro tipo de violência contra mulher. Continuarei levantando pautas importantes aqui no blog sobre LGBTfobia, racismo e todo e qualquer tipo de preconceito mesmo que o livro tenha sido escrito em 1810. Mais que importante, é necessário que a gente não feche os olhos para nenhuma dessas coisas.
Eu tive vontade de escrever esse texto porque já passei da metade de Sol da Meia-Noite e comecei a pensar muito sobre esse assunto em específico, porque depois de ler vários pensamentos do Edward tive certeza que ele realmente é neurótico, na falta de palavra melhor, rs. E sim, mesmo assim tô aqui igual adolescente de novo amando o livro e me sentindo super nostálgica. A diferença é que agora eu enxergo tudo e, melhor ainda, não me culpo mais ou me acho uma completa babaca por carregar essa história no coração. ❤


