Sem depreciar o ato
de redigir poemas, a voz lírica nos dá conta de que o verdadeiro desafio a ser assumido
no quotidiano, como autêntica obra de arte, é a própria vida, usufruindo-a com
assombro, consciência corpóreo-espiritual e radical autenticidade, numa espécie
de deserção às inúmeras máscaras sociais que costumamos assumir, mediante o enfrentamento
honesto de nossas próprias feridas e vulnerabilidades.
Baccarin nos exorta a
resistirmos ativamente à tentação de passarmos pela vida de um modo automático,
superficial ou inautêntico, propondo-nos, em vez disso, a adoção de uma “revolução
permanente”, explico-me melhor, a reinvenção diária, com o objetivo de sacudirmos
o marasmo das rotinas e dos caminhos trilhados mecanicamente e, dessa maneira, fixarmos
nossa existência no cânone das supremas obras poéticas.
J.A.R. – H.C.
Clara Baccarin
(n. 1982)
Missão
É fácil escrever um
poema
difícil é
– pelas décadas que
se agregam
pelos vícios que me
pegam
pelos sonhos que se
quebram
– não deixar morrer
o olhar de
encantamento
É fácil escrever um
poema
difícil é fazer do
corpo templo
capturar na veia e no
verso
os ritmos do silêncio
É fácil escrever um
poema
talvez leve alguns
minutos apenas
talvez surja num
sonho
numa alvorada do
peito
numa madrugada
embriagada
Difícil é deixar a
fenda aberta
despir as máscaras
desconstruir os
passos
reinventar a
existência
cotidianamente
É fácil sentar e
escrever um poema
difícil é resistir
e fazer da vida
poesia
A poesia da vida
(Anastasia Mily: artista
australiana)
Referência:
BACCARIN, Clara.
Missão. In: JARDIM, Rubens (Pesquisa, seleção e organização). As mulheres poetas
na literatura brasileira: antologia poética. v. 3. São Paulo, SP: Edição do
autor, 2018. p. 102.
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