Comprei este livro (para o clube de leitura da Biblioteca de Belém) sem perceber muito bem do que se tratava. Romance? Ensaio? Biografia? Uma mistura das três coisas?

Capa do livro Um Terrível Verdor de Benjamín Labatut

Depois de o terminar, continuo sem saber responder, e suspeito que esse seja o proósito.

Um Terrível Verdor, de Benjamin Labatut, percorre a vida e o pensamento de várias figuras centrais da ciência e da matemática do século XX, entre elas Fritz Haber, Karl Schwarzschild, Werner Heisenberg, Erwin Schrödinger e Alexander Grothendieck. Enquanto pessoa que não tem ciências desde 2004, tive de voltar a pesquisar os nomes todos para os escrever aqui. São homens cujas descobertas alteraram profundamente a forma como compreendemos o universo, mas que parecem ter pagado um preço elevado por terem ido tão longe.

No texto que acaba por dar o nome ao livro (Un Verdor Terrible, no original), Fritz Haber surge como exemplo perfeito dessa tensão: um homem cuja investigação permitiu alimentar milhões de pessoas através da produção de fertilizantes, mas que ficou também associado ao desenvolvimento da guerra química. O livro regressa várias vezes a esta questão: o que acontece quando uma descoberta extraordinária produz simultaneamente progresso e destruição?

O que mais me interessou no livro não foram propriamente os conceitos científicos (novamente, não sou de ciências), mas a sensação de que a ciência moderna acabou por revelar um mundo muito mais estranho, ambíguo e inquietante do que aquele que julgamos habitar.

Labatut escreve numa zona cinzenta entre facto e ficção. O livro baseia-se em personagens e acontecimentos reais, mas vai-se tornando progressivamente mais especulativo à medida que avança. Houve momentos em que dei por mim a pesquisar os cientistas mencionados, a pensar que algumas figuras tinham sido inventadas. Não tinham sido. Muitas das descobertas aqui retratadas desafiam o senso comum e parecem quase impossíveis de compreender à luz da nossa vida quotidiana, mas o problema é mesmo perceber onde terminava a não ficção e onde começa a imaginação do autor. Em alguns momentos senti que o livro se aproximava demasiado da especulação e afastei-me um pouco emocionalmente da narrativa.

Um livro muito diferente de tudo o que costumo ler.

Tradução de Guilherme Pires

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