Neste poema com matizes proponentes de resistência ao autoritarismo, à censura e à desumanização, Saramago, por meio da simples escuta de uma sinfonia de Beethoven, anuncia a certeza da queda dos regimes opressores – a exemplo daquele que vigeu em seu Portugal natal por mais de meio século –, com supedâneo na resiliência do espírito humano.

É que a arte tem o poder de nos transformar e libertar de amarras, reforçando-nos o ânimo e oferecendo-nos refúgio, e usufruí-la pode se tornar um ato revolucionário e uma afirmação de que a beleza, o gênio individual e a liberdade de espírito são forças que não se deixam enclausurar por quaisquer formas de repressão ou de controle totalitário do Estado.

J.A.R. – H.C.

José Saramago: Retrato em close-up de um homem idoso usando óculos, olhando ligeiramente para cima.

José Saramago

(1922-2010)

Ouvindo Beethoven

Venham leis e homens de balanças,

Mandamentos daquém e dalém mundo,

Venham ordens, decretos e vinganças,

Desça o juiz em nós até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade,

Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,

Risquem no chão os dentes da vaidade

E mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam, peçam dedos,

Para sujar nas fichas dos arquivos,

Não respeitem mistérios nem segredos,

Que é natural nos homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,

Relógios a marcar a hora exacta,

Não aceitem nem votem outra arte

Que a prosa de registo, o verso data.

Mas quando nos julgarem bem seguros,

Cercados de bastões e fortalezas,

Hão-de cair em estrondo os altos muros

E chegará o dia das surpresas.

Pintura 'A Liberdade Guiando o Povo' de Eugène Delacroix, representando a Revolução de Julho de 1830 na França.

A Liberdade Guiando o Povo

(Eugène Delacroix: pintor francês)

Referência:

SARAMAGO, José. Ouvindo Beethoven. In: __________. Os poemas possíveis: poesia. 5. ed. Lisboa, PT: Editorial Caminho, abr. 1999. p. 75. (Coleção “O Campo da Palavra”)