Raul Lima

Crédito da imagem: Ivonete Dias, Natal Feliz na Roça, 1989. Acervo Muncab. Foto por Raul Lima em 18 jun. 2026
“Queria que ela soubesse que, na minha avaliação, na minha denúncia, na minha reclamação, o que ela merece é um novíssimo testamento em que a menina-jesus é ela, a quem devem a herança que reparasse sua nanobiografia e seu enorme sofrimento vida afora”
Como expus em meu último texto aqui no blog, um dos temas que a minha pesquisa atual abarca é a vingança e sua relação com a escrita. Portanto, quando comecei a leitura de Corsária, de Marilene Felinto, a palavra “vingança” logo me saltou aos olhos, me surpreendeu, prendendo minha atenção ao longo do texto. Felinto explicita, já no começo, o motivo que teremos diante de nós durante a leitura de sua obra: “‘Corsária’, sim, como os bichos que assaltam, valendo-se do elemento surpresa de uma dor que lhes infligiram mas que não os matou de fato, Corsária, portanto, como os bichos feridos que se vingam” .
À medida que avançamos na leitura, vemos a narradora fazendo um constante movimento pendular, um verdadeiro zigue-zague entre a legitimidade de sua narrativa e sua negação, entre culpa e vingança. Essa ambivalência decorre, na narrativa, de um questionamento latente do estatuto do próprio romance. Há uma espécie de “identidade Moby Dick”, referência central ao clássico de Melville, assumida pela narradora, que se identifica muito mais à baleia que ao capitão Ahab. Por outro lado, a narrativa não escapa das diversas formas e temas que a escrita contemporânea trabalha: como a memória, a escrita em primeira pessoa, a potencialidade e os limites do uso do documento, a filiação, etc.
Por isso, creio, a história em Corsária, como a narradora afirma enfaticamente diversas vezes, não é uma história: pelos temas de que trata, ela não reivindica a identidade com o cânone ocidental, com o gênero romance. A obra volta continuamente ao tema da vingança em nome dos pais da narradora, insistindo, ao mesmo tempo, na falta, na ausência do que possa provar a existência deles e a legitimidade de sua reivindicação, tanto documental, quanto literariamente falando.
Corsária é uma obra repleta de gestos enunciativos, piscadelas que o leitor precisa agarrar no ar, quer ser obra “incriada e não sabida”, como também afirma a narradora diversas vezes a propósito de suas origens, em um movimento interrompido que recorda, repete, repete, repete, repete, repete…
A falta do documento, suas lacunas, os inúmeros “Nada Consta” da certidão de nascimento da mãe da narradora é o que permite que a narrativa se coloque em movimento: “Nada consta nas lacunas (NC), muito embora o referido seja a pura verdade”. E é por isso que podemos dizer que Corsária é uma outra forma de história.
Ao longo da obra, lemos repetidamente um “Se isso fosse uma história”, as inúmeras modulações de uma afirmação não dita, mas sempre inferida, nas entrelinhas, a partir do modo subjuntivo, desde a primeira página (“Se isso fosse uma história, seria a narrativa de uma inexistência”), passando pelas vicissitudes das páginas seguintes (“Se isto fosse uma história […]. Mas isto é apenas a dura realidade, e é preciso afirmar e reafirmar em voz alta: esta sou eu, esta é minha imagem redimensionada”), e chegando a um derradeiro “Infelizmente isto não é uma história, e eu não tenho o que contar senão que […]”, nos deixando tão desnorteados quanto a narradora, incertos quanto ao sentido da geografia do que lemos, seus rumos sinuosos e errantes, sua falta de destino.
Para a teoria psicanalítica, o sujeito perde sua origem no momento em que se constitui enquanto tal, ou seja, enquanto falante. A origem, dessa forma, é apenas mítica, inferida a partir da própria cesura do sujeito, de sua clivagem fundamental. Isso importa pois, no “e se” que lemos na busca implacável que a narradora em Corsária faz de sua história e da história de seus pais e de seus avós — nessa busca e nesse uso do tempo subjuntivo – parece que uma lacuna, consequência dessa clivagem a que nos referimos, ocupa um local substancial, absolutamente necessário, na estrutura da narrativa.
É essa lacuna que permite que a narrativa avance, de forma que poderíamos ler, parafraseando a narradora, mas completando sua enunciação, que: “se isso fosse uma história, ela seria exatamente o que está sendo, o meu relato de como as coisas aconteceram assim e assado, etc.“. A denegação acaba por apontar, ao longo da narrativa, para um recalcado subjetivo-nacional que, na história brasileira com que Felinto trabalha, encontra figura decisiva nos “agregados” e nos “enjeitados”, grupo social a que a mãe da narradora pertence.
A sensação claudicante de “narrar um inexistente” é bem palpável. Ao passo que a invisibilidade e o apagamento social inviabilizam uma história, permitem sua investigação a contrapelo, podendo ser lida como uma “história da nossa inexistência”. É justamente nesse momento que a narrativa e a realidade se encontram, que a história individual e a coletiva (“Meu pai é um universal regional”) reverberam uma na outra; e as violências de classe, raça e gênero se amalgamam com a vingança, não apenas em Corsária, mas enquanto tema privilegiado das escritas contemporâneas.