Eis mais uma reflexão metalinguística sobre o poder da palavra poética sedimentada no poema, a se erigir como um elemento capaz de vencer a corrosão inevitável do tempo sobre o labirinto de ecos e de reflexos da memória, com o firme propósito de resgatar a essência mais pura de um dado momento, para eternizá-lo num “fruto de aroma misterioso”.
É a arte dando sentido à nossa fugaz existência, redimindo-a do olvido pela preservação de nossas lembranças, quer imagéticas quer sensoriais, consolidando-as numa moldura expressiva a albergar o âmago daquilo que se evoca, vale dizer, a verdade cristalizada de um instante que, porventura, vale a pena reter enquanto por aqui estivermos.
J.A.R. – H.C.
Augusto Meyer
(1902-1970)
O poema
Corredor do tempo esquecido
Onde o eco responde ao eco,
Em vez de janelas, reflexo
De espelho a espelho, refletido.
Que passos repisando passos
Parados vão? A horas mortas,
Fria, uma presença esvoaça
De leves dedos, que abrem portas.
Longo é o caminho. Em qualquer parte
Rei dos Ratos rói os brinquedos.
Dos quatro cantos, lá no quarto
Sombras cochicham os teus segredos.
Onde a janela que se abria
Ao pôr do sol? Andando em frente,
Andando, andando, eu tocaria
No fim da terra, o ouro do poente.
Iriavam-se os cristais do lustre,
Na sala escura o espelho que arde!
Pulava a cortina, de susto,
Ao primeiro sopro da tarde.
Mas tudo agora é tão distante!
O rato rói o fio da história.
Só o arrepio de um instante
Sobe a surdina da memória...
Súbito, a hora morta no tempo
Amadurece como um fruto!
No misterioso aroma, o poema
Recolhe a essência de um minuto.
Parlenga de taverna
(Claus Meyer: pintor alemão)
Referência:
MEYER, Augusto. O poema. In: __________. Poesias: 1922-1955. Rio de Janeiro, RJ: Livraria São José Editora, 1957. p. 260-261.
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