Às vezes é engraçado pensar que certos livros, hoje considerados inescapáveis e importantíssimos na história da literatura universal, poderiam nunca ter sido publicados e lidos. Lembrei-me disto a propósito de um vídeo que encontrei no qual Gabriel García Márquez conta que em jovem devorava livros e que, quando lhe foi parar às mãos A Metamorfose, de Kafka, parou a reflectir que estava perante algo muito diferente do que lera até ali, algo que ficaria para sempre com ele. E, porém, a história do homem que acordou transformado em insecto, virado de pernas para o ar, e que mesmo assim a estuporada família espera que vá trabalhar para a sustentar, poderia não ter chegado aos nossos dias. Kafka era demasiado discreto e tímido para falar com editores, e até deixou dito que não queria que lhe publicassem os livros (muito mais do que esse que fala da tragédia do homem-barata) quando morresse. No caso, valeu-nos a desobediência de um amigo, que percebeu certamente o alcance que o autor poderia vir a ter, mesmo morto. Mas há outros casos, em que obras-primas foram recusadas por editores (Em busca do Tempo Perdido, de Proust, por exemplo, ou mais recentemente o romance de David Uclés, A Península das Casas Vazias, que venceu uma data de prémios e se vendeu em muitos países) e talvez não tivessem chegado a ser dadas à estampa se os seus autores não tivessem insistido em vê-las nos escaparates. E se Os Lusíadas se tivessem mesmo perdido ao largo de Macau, já imaginaram?