O poeta tece especulações audazes acerca da hipótese cosmológica no âmbito científico denominada “Big Crunch” “Grande Compactação”, sob cuja tese o universo, após uma fase de expansão iniciada pelo “Big Bang” (“Grande Explosão”), eventualmente pararia de se expandir e começaria a se contrair, colapsando de volta a um ponto superaquecido e denso, ou até mesmo a uma nova singularidade
Assim, o poeta norte-americano, para além de tais ideias – hoje menos veiculadas –, adentra as raias de algo metafísico, quase inimaginável, quando conjectura sobre uma reversão total da existência – o tempo a correr para trás e a história sob os efeitos da “descriação”, um processo de aniquilamento no qual tudo o que alguma vez existiu – as nossas vidas, os acontecimentos factuais de que temos conhecimento, a evolução – poderia não só desaparecer, senão se desenrolar ao contrário, até ser reabsorvido em sua fonte.
Interessante é a formulação de um universo personificado numa matéria que “recorda e esquece ao mesmo tempo”, num ato simultâneo de memória e de amnésia cósmica, como se tudo não passasse de mero experimento linguístico e presuntivo, mas de uma contramarcha em escala mitológica: para retroceder, a matéria tem de “recordar” o seu estado anterior, mas ao fazê-lo, deve “esquecer” o seu estado atual e toda a história intermediária.
J.A.R. – H.C.
Robert Morgan
(n. 1944)
If the universe could reach that
final stage of its expansion,
all matter stop for an instant
in frozen poise, in total balance
of gravity and momentum
after the billions of lightyears
of outward flight, and there, there at
the outer limits of radiant
dusts, the twisting galaxies down
to the least glitter and flavored
particle would slip in reverse.
And time’s vector shot from the first
would invert, the seconds eating
seconds, hours hours, and years rescroll
as history annihilates
itself, rearing sharp then sinking
in rerisen seas as matter
remembers and forgets at once,
transforms into pattern as bodies
undecay and unfission back
to embryo and whitehot cell
in the billion year contraction
and erasure of event down
the parsecs toward the thought of
creation’s single total light.
A nona onda
(Ivan K. Aivazovsky: pintor ucraniano)
Antitempo
Se o universo pudesse chegar àquele
estágio final de expansão,
toda matéria parar por um instante
em pose congelada, em total equilíbrio
de gravidade e momento,
após bilhões de anos-luz
de voos pelo mundo externo, e lá, lá
nos extremos limites dos pós
luminosos, as galáxias girantes reduzidas
ao mais ínfimo brilho e sápida
partícula deslizariam em sentido oposto.
E o vetor do tempo lançado do primeiro
se inverteria, segundos engolindo
segundos, horas horas, anos rebobinados
enquanto a história aniquila
a si mesma, emergindo e depois afundando
em mares renascidos, enquanto a matéria
lembra e em seguida esquece,
transforma-se em padrão enquanto corpos
se regeneram e se recompõem de volta
a embrião e célula incandescente
na contração de um bilhão de anos,
no apagar do fato reduzido
a parsecs a caminho do pensamento da
única e absoluta luz da criação.
Referência:
MORGAN, Robert. Antitime / Antitempo. Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. In: O’SHEA, José Roberto (Org.). Antologia de poesia norte-americana contemporânea. Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. Florianópolis, SC: Ed. da UFSC, 1997. Em inglês: p. 136; em português: p. 137.
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