Karlfeldt formula um contraste entre as aspirações heroicas e grandiosas do ser humano, numa vida com propósito – íntegra e denodada –, e a realidade mais modesta que lhe toca viver, estruturando o poema em três estrofes bem demarcadas, numa viagem que vai desde a ambição desmedida e o desejo de glória até a resignação, e, daí, à aceitação de seu verdadeiro destino – o de ser poeta.
O autor sueco admite que a sua glória não seja a do guerreiro, mas a do cantor que há de dar voz ao vale, à sombra de seu povoado natal, acompanhado por lembranças que gorjeiam como rouxinóis. Desse modo, Karlfeldt expressa a ideia de que um sonho, ainda que não se experimente como de início se planejou, pode encontrar a sua própria forma de se manifestar – como no presente caso, através da poesia.
J.A.R. – H.C.
Erik Axel Karlfeldt
(1864-1931)
Drömmen och livet
Jag ville vara en mäktig man
och bygga mig borg och rödja mig rike
och gräva omkring dem ett väldigt dike,
så långbent ondska för brett det fann.
Där ville jag duka borden till fest
och bjuda var hungrig från vägen till gäst
och alla raska och präktiga karlar.
Där skulle det sägas högt och fritt,
att svart är svart och att vitt är vitt,
och livet berömmas, så länge det varar.
Jag ville vara en orädd man.
Giv mig, o öde, en kamp och en sadel,
ett drabbande svärd och en sak utan tadel
att falla för, om ej segra jag kan!
Och får jag ej nämnas på ärans dag,
då skarorna komma från lyktat slag,
bland dem som stormat och stupat i täten –
likgott, om i virvlande hopen jag stred!
Fram kan man väl gå fast i sista led,
och man sover väl gott, fast man sover förgäten.
Så vart jag en drömmare, icke en man!
Jag fäktar och rasslar med ordens lansar,
och bär jag i diktens tornering ett pansar,
går jag eljes i vardagskavaj som en ann.
Jag ville sjunga i bergens ljus
men dröjer i skuggan kring hembyns hus,
där minnena spela som näktergalen.
Men nejden skall höra ännu min röst!
Finns luft i lunga och klang i bröst,
kan sången nå upp, fast den ljuder i dalen.
Från: “Fridolins Visor och Andra Dikter” (1898)
A vida é um sonho
(Jorge Calero: pintor colombiano-português)
O sonho e a vida
Quisera ser um homem poderoso,
construir um castelo, desbravar um reino,
e cavar em torno um fosso imenso
para que a maldade, com sua agilidade,
não o pudesse atravessar.
Então poria a mesa de um banquete,
convidaria os famintos dos caminhos
e todos os homens alegres e corajosos.
Diríamos em vozes altas livremente
que pão é pão e queijo é queijo
e louvaríamos a vida apesar de sua ingratidão.
Quisera ser um homem corajoso.
Dai-me, ó Fado, um combate, um cavalo,
uma espada que golpeia e uma causa sem mácula
por que eu possa morrer se não tiver vitória.
Se não me for dado assistir ao meu dia de glória
quando, após a batalha, as tropas regressarem,
entre os atacantes tombados na linha de frente,
isso pouco importa, pois combati entre a massa,
pois estar na retaguarda não impede de avançar,
e dorme-se menos quando se dorme esquecido.
Assim me transformei num sonhador – não em homem!
Com estrépito combato com a lança das palavras.
Se nos torneios poéticos me visto de couraça,
na aldeia tenho as vestes de qualquer joão-ninguém.
Quisera cantar à luz das montanhas,
mas permaneço à sombra de minha aldeia natal
onde as recordações cantam como rouxinóis.
Mas o país inteiro há de ouvir a minha voz,
pois mesmo vindo do vale, meu canto poderá
erguer-se de tanto hausto que trago no meu peito.
Em: “Canções de Fridolin e Outros Poemas” (1898)
Referências:
Em Sueco
KARLFELDT, Erik Axel. Drömmen och livet. In: __________. Erik Axel Karlfeldts Dikter. Stockholm, SE: Wahlstrom och Widstrand (I distribution hos Albert Bonniers Förlag), 1953. s. 119-120. (“Den Svenska Lyriken”)
Em Português
KARLFELDT, Erik Axel. O sonho e a vida. Tradução de Ivo Barroso. In: __________. Poesias. Tradução de Ivo Barroso. Estudo introdutivo de Gunnar Brandell. Rio de Janeiro, GB: Editora Opera Mundi, 1973. p. 97-98. (“Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura”)
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