Muriel Lerner

ALIVE OR DEAD
ANTIGONE: I AM BORN OF LOVE NOT HATRED KREON:
I WILL NOT BE WORSTED BY A WOMAN [ENTER ISMENE]
CHORUS:
HERE IS ISMENE
WHY IS SHE BLUSHING
KREON: HERE’S ISMENE WHY IS SHE SNAKING IN
HERE ISMENE: I DID THE DEED I SHARE THE BLAME

Crédito da imagem: Antigonick (2012), de Anne Carson

Em um post passado, associei H of H Playbook (2021), livro de Anne Carson investigado durante a minha primeira pesquisa, ao filme Da Nuvem à Resistência (1979), dirigido por Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Hoje, quero continuar essa aproximação com outros exemplos.

Antigonick foi publicado em 2012 pela poeta e tradutora Anne Carson. Originalmente uma peça de Sófocles, a história gira em torno de Antígona, filha de Édipo, e de sua decisão de desafiar, sob pena de morte, o édito do novo rei Creonte acerca do sepultamento de seus irmãos: um seria enterrado de acordo com os ritos divinos, enquanto o corpo do outro deveria ser abandonado às intempéries. Inicia-se, assim, o confronto moral entre Antígona e o rei — ambos inflexíveis em suas convicções.

O livro transforma a tradução numa experiência textual e visual, com ilustrações coloridas, páginas translúcidas que se sobrepõem, e texto escrito à mão em letras garrafais com escolhas particulares de formatação e diagramação. Carson deixa sua marca na tradução ao utilizar uma linguagem coloquial, optando por frases curtas e diretas, sem o apelo dramático esperado das traduções de clássicos gregos:

Creonte: você pensa ser de ferro mas eu posso te curvar

eu sou o homem aqui

(CARSON, 2012, s.p, tradução nossa)

Carson contrai o que considera dispensável e também amplia o texto original, não só com as ilustrações, pois há, por exemplo, um longo monólogo de Eurídice, personagem sem fala na versão clássica. Ao realizar essas manobras de linguagem, diagramação, formatação e forma, Carson alavanca a peça para o contemporâneo, inserindo-a no zeitgeist e também se aproximando do alemão Hölderlin, poeta que tratou “a sintaxe e a semântica do texto [Antígona] sem a menor complacência”, mas “aplicando ao poema trágico toda a energia e a radicalidade do seu projeto poético”, conforme afirma João Lanari Bo.

Em 1992, o casal de diretores Straub-Huillet exibe Antigone, ou Die Antigone des Sophokles nach der Hölderlinschen Übertragung für die Bühne bearbeitet: A Antígona de Sófocles, adaptada para o palco por Brecht em 1948, baseada na tradução de Hölderlin. 

unknown: Duas mulheres vestidas com túnicas de estilo grego antigo em pé entre ruínas de pedra ao ar livre.
Vista panorâmica de um vale com campos agrícolas a partir de um parapeito de pedra, com uma montanha ao fundo sob um céu claro.

Crédito das imagens: Antígona (1992), dir. Jean-Marie Straub e Danièle Huillet 

Repleto de contrastes, o filme foi gravado nas ruínas de um teatro grego na Itália. Os atores recitam o texto da versão de Brecht, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial, em alemão, usando figurinos e artefatos que remetem à antiguidade. Os atores recitam o texto de forma rigorosa, sem demonstrar emoções, fazendo com que o espectador fique concentrado nas palavras, mas, ao mesmo tempo, as imagens vão mostrando pequenas variações ao exibirem a transição entre a cena que  evoca elementos da Grécia Antiga para a paisagem atual do local no qual a obra é filmada, como mostra a captura dos frames do filme acima, sugerindo, assim, uma sobreposição e uma diferença.

Apresentando uma obra que reflete as problemáticas contemporâneas, Carson se insere – assim como Hölderlin, Brecht e Straub-Huillet – na longa tradição de traduções e recriações de Antígona, buscando conscientemente as conexões entre os tempos, despindo a peça da “capa mitológica” e investigando “a realidade sensível em que viveram e conduziram seus feitos”, como pontua o crítico de cinema Luiz Carlos Oliveira Júnior.