Este poema ressoa com uma força inquietante em qualquer leitor que se haja perguntado pelo significado de sua própria jornada ao longo dos anos: eivados de certa angústia existencial, os versos apontam para um ceticismo lancinante, especialmente quando o poeta, em sua derradeira linha, emprega a condicional “como se”, dando a entender que toda uma vida de experiências, amores e dores se converte, com a morte, em uma ilusão sem quaisquer rastros.
Trata-se, pois, de um poema sobre a cegueira metafórica diante do desconhecido que sobrevém à morte, o que torna a sua proximidade uma derrota contundente para quem ali chegou sem haver compreendido o propósito da vida: sob a consciência da finitude, projeta-se um vazio que a tudo desvanece, sem que lhe sucedam os umbrais da eternidade.
J.A.R. – H.C.
Francisco Brines
(1932-2021)
En el acabamiento de la tarde,
cuando hacía el camino, he llegado de pronto
¿a dónde?
La noche que ha caído, tan repentina y negra, me impide ver,
y sólo sé que nadie me acompaña.
¿Qué ha sido este viaje?
Muy largo debió ser, por la fatiga,
o acaso fue muy breve, si existió:
no puedo recobrar el olor de las rosas.
De entre mis posesiones
sólo guardo un pañuelo que oscurece en mis manos:
¿para secar las lágrimas que no puedo verter?
¿O para despedirme, desde la Prescripción, de las sombras que dejo?
Sin tiempo, me pregunto: ¿qué soy? ¿quién soy? ¿y para qué partí?
¿Y qué sentido tiene haber llegado?
Y qué poco me importa lo que, del lado del desuso, pueda passar ahora,
si nada entiendo.
Dejo de ser mortal. Mas no soy inmortal.
Como si nada hubiera sido.
Em: “El otoño de las rosas” (1986)
Homem e seu cão caminhando
por uma trilha no campo
(Gareth Naylor: artista inglês)
As últimas perguntas
No findar da tarde,
quando fazia o caminho, cheguei de repente
aonde?
A noite que caiu, tão repentina e negra, impede-me de ver,
e só sei que ninguém me acompanha.
O que foi esta viagem?
Muito longa deve ter sido, pela fadiga,
ou talvez muito breve, se é que existiu:
não mais recobro a fragrância das rosas.
Entre os meus pertences,
guardo apenas um lenço que escurece em minhas mãos:
para enxugar as lágrimas que não consigo verter?
Ou para me despedir, desde a Prescrição, das sombras que deixo?
Sem tempo, pergunto-me: o que sou? quem sou? e para que parti?
E que sentido há em ter aqui chegado?
E pouco me importa o que, do lado do desuso, possa acontecer agora,
se nada compreendo.
Deixo de ser mortal. Mas não sou imortal.
Como se nada houvesse sido.
Em: “O outono das rosas” (1986)
Referência:
BRINES, Francisco. Las últimas preguntas. In: __________. El rumor del tiempo: antología. Introducción y selección de Dionisio Cañas. Madrid, ES: Mondadori España, 1989. p. 156. (“Mondadori Bolsillo”; v. 32)
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