Ao sugerir que há um valor inerente em nos acercarmos dos textos em sua forma original – para passarmos os dedos ao longo das letras “mais resistentes que as forjadas em pedra” –, Miłosz alude, para além de sua materialidade, à necessidade de uma leitura pausada e sensível que nos permita descobrir a “verdadeira dignidade da fala”, tornando o ato de ler um ritual quase sagrado, no qual cada letra e cada som possam espelhar a essência inapagável de séculos de história.
E nem só de apreciação estética dos textos nos fala o poeta polonês! Seu discurso também abrange a ideia de continuidade cultural incorporada aos significados que atribuímos a certos elementos de nossa experiência quotidiana – desde as imagens cunhadas em moedas e os símbolos religiosos, até aquilo que, em nós, há de mais íntimo e pessoal, como o afeto e o desejo –, albergando, assim, a tese de que, no que há de mais fundamental, o espírito humano não se altera substancialmente através dos éons.
Assinala ainda Miłosz a existência de outras tantas verdades universais que se repetem ao longo do tempo e que ousam desafiar veementemente os pilares do cânone estético, haja vista que põem em contraste o normal e o aberrante no domínio da arte e da espiritualidade, como os episódios quase alucinatórios dos “daimonizomenoi” – descritos na tradição como possuídos ou demonizados –, ou aqueles aos quais se atribuem ora sinais de genialidade ora de loucura, quando não o gozo de profundas experiências místicas.
Em suma, ao compendiarem tudo o que se passou em séculos de experiências humanas sobre a Terra, os textos – e sobretudo os impressos – nos permitem interatuar com a força das palavras em sua forma mais pura e ancestral, num prazer sobranceiramente tátil, sob cuja divisa se opõe resistência ao ritmo veloz e descartável imposto pela modernidade da digitalização e pela imediatez das mensagens transmitidas mediante as telas contemporâneas (pouco afeitas, diga-se de passagem, a guardar longa memória do que quer que seja).
J.A.R. – H.C.
Czesław Miłosz
(1911-2004)
Lektury
Zapytałeś mnie jaka korzyść z Ewangelii czytanej po grecku.
Odpowiem, że przystoi abyśmy prowadzili
Palcem wzdłuż liter trwalszych niż kute w kamieniu,
Jak też abyśmy, z wolna wymawiając głoski,
Poznawali prawdziwe dostojeństwo mowy.
Przymuszonym uwagą, nie dalszy niż wczoraj
Wyda się tamten czas, choć twarze cezarów
Inne dziś na monetach. Ciągle trwa ten eon,
Lek i pragnienie te same, oliwa i wino
I chleb znaczą to samo. Również chwiejność rzeszy
Chciwej jak niegdyś cudów. Nawet obyczaje,
Uczty weselne, leki, płacze po umarłych
Różnią się tylko pozornie. Na przykład i wtedy
Pełno było tych, których w tekście się nazywa
Daimonizomenoi, czyli biesujących
Albo i biesowatych (gdyż “opętanymi”
Język nasz ich mianuje z fantazji słownika).
Drgawki, na ustach piana, zgrzytanie zębami
Nie uchodziły wtedy za znamię talentów.
Biesowaci nie mieli pism ani ekranów,
Rzadko tykając sztuki i literatury.
Niemniej przypowieść o nich pozostaje w mocy:
śe duch nimi władnący może wstąpić w wieprze,
Które, zdesperowane tak nagłym zderzeniem
Dwóch natur, swojej własnej i lucyferycznej,
Skaczą w wodę i toną. Co wciąż się powtarza.
I tak na każdej stronie wytrwały czytelnik
Dwadzieścia wieków widzi jako dni dwadzieścia
Kres mającego raz kiedyś eonu.
Berkeley, 1973
Z: “Gdzie wschodzi słońce i kędy zapada” (1974)
O Leitor: retrato de Edmond Maitre
(Pierre-Auguste Renoir: pintor francês)
Leituras
Me perguntaste sobre a vantagem de ler os Evangelhos
em grego.
Te respondo que convém percorrermos
Com o dedo letras mais duráveis que as gravadas em pedra,
E pronunciando devagar esses sons
Conhecermos a verdadeira dignidade da fala.
Forçado pela atenção, aquele tempo será
Como o tempo de ontem, apesar das caras de César
Serem hoje outras nas moedas. Tal éon perdura,
Medo e desejo são iguais, azeite, vinho
E pão dizem o mesmo. Também a multidão volúvel
Ávida por milagres como outrora. Até os costumes,
As festas de bodas, os remédios e os lamentos lúgubres
Diferem só na aparência. Por exemplo, naquele tempo
Também houve muitos chamados no texto
Daimonizomenoi, isto é, os que endemoninham
Ou endemoninhados (porque “possessos”
Os denomina nossa língua por fantasia do dicionário).
Espasmos, espuma na boca e ranger de dentes
Não passavam então por sintomas de talento.
Os endemoninhados não dispunham de revistas
nem de écrans,
Raramente mexiam com arte e literatura.
Mesmo assim a parábola sobre eles continua vigente:
O espírito que os domina pode entrar nos porcos,
Que desesperados pelo choque repentino
Entre as duas naturezas, a deles e a de Lúcifer,
Atiram-se na água e se afogam. E tudo se repete sem parar.
Assim, em cada página, o leitor persistente
Enxerga os vinte séculos como vinte dias
De um éon que certa vez teve o seu fim.
Berkeley, 1973
Em: “Do nascer ao pôr do sol” (1974)
Referências:
Em Polonês
MIŁOSZ, Czesław. Lektury. In: __________. Utwory poetyckie. Ann Arbor, MI: Michigan Slavic Publications, 1976. s. 329.
Em Português
MIŁOSZ, Czesław. Leituras. Tradução de Henryk Siewierski e José Santiago Naud. Poesia sempre: revista semestral de poesia. A moderna poesia da Polônia. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de janeiro (RJ), ano 15, n. 30, p. 40, 2008.
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