Dickey oferece-nos uma visão diferenciada do paraíso, buscando celebrar a alteridade radical do mundo animal, libertando-o de nossas projeções sentimentais e apresentando-o em seu mais puro estado: um equilíbrio eterno, indomado e sereno, onde cada criatura submete-se ao seu destino instintivo como parte de um todo perfeito e imperturbável.

Trata-se, como se pode deduzir, de uma reflexão ecológica sobre a casa comum (“oikos”) e as regras que a governam, reflexão essa que se deixa permear por uma perspectiva – a um só tempo – brutalmente realista (pois que reconhece a necessidade da predação) e misticamente tranquila (haja vista que a eleva a um ato de graça e de beleza cósmica).

Como chave para a interpretação do poema, o constante renovar no âmbito da natureza, num “loop” eterno em cujas circunvoluções a presa volta a se integrar ao paraíso, para que o ciclo de vida e de morte tenha continuidade, aperfeiçoando-se numa marcha que, pelas palavras do poeta, se cumpre sem sofrimento.

J.A.R. – H.C.

António Quadros: Retrato em preto e branco de um homem de perfil olhando para baixo, com estantes de livros ao fundo.

James Dickey

(1923-1997)

The Heaven of Animals

Here they are. The soft eyes open.

If they have lived in a wood

It is a wood.

If they have lived on plains

It is grass rolling

Under their feet forever.

Having no souls, they have come,

Anyway, beyond their knowing.

Their instincts wholly bloom

And they rise.

The soft eyes open.

To match them, the landscape flowers,

Outdoing, desperately

Outdoing what is required:

The richest wood,

The deepest field.

For some of these,

It could not be the place

It is, without blood.

These hunt, as they have done,

But with claws and teeth grown perfect,

More deadly than they can believe.

They stalk more silently,

And crouch on the limbs of trees,

And their descent

Upon the bright backs of their prey

May take years

In a sovereign floating of joy.

And those that are hunted

Know this as their life,

Their reward: to walk

Under such trees in full knowledge

Of what is in glory above them,

And to feel no fear,

But acceptance, compliance.

Fulfilling themselves without pain

At the cycle’s center,

They tremble, they walk

Under the tree,

They fall, they are torn,

They rise, they walk again.

Uma montagem artística ou ilustração fotográfica mostrando duas crianças abraçando um cachorro grande e preto e um gato sobre uma toalha nas nuvens, com borboletas ao redor.

O Céu dos Animais

(Nancy Tillman: ilustradora norte-americana)

O Céu dos Animais

Cá estão. Suaves olhos abertos.

Se viveram num bosque

São o bosque.

Se nos prados viveram

São a grama girando

Sob seus pés para sempre.

Não tendo alma chegaram,

Mesmo assim, sem perguntas.

Seus instintos brotam plenos

E eles crescem.

Suaves olhos abertos

Para igualá-los, viceja a paisagem,

Excede-se ansiosa

Além do que é pedido:

A selva mais rica,

O campo mais fértil.

Para alguns deles,

Não seria o lugar

Se não houvesse o sangue.

A caça, como convém,

Mas com garras e dentes aperfeiçoados,

Mais mortais do que acreditam ser.

Aproximam-se, furtivos.

Saltam dos braços das árvores,

E seu assalto

Sobre o dorso brilhante das presas

Pode levar anos

Num régio e alegre arremate.

Os que são caçados

Sabem-no como a própria vida

E recompensa: caminhar

Sob as árvores, é estar consciente

Do que acima é beatitude.

E não sentir pavor

Porém acordo, complacência.

Chegando à plenitude sem sofrer

No meio da jornada,

Tremem, perambulam

Sob a árvore, e

Tombam, e são massacrados.

Mas erguem-se, caminham de novo.

Referência:

DICKEY, James. The heaven of animals / O céu dos animais. Tradução de Jane Arduino Perticarati e Mário Livramento. In: KEYS, Kerry Shawn (Org.). Quingumbo: new north american poetry / nova poesia norte-americana. Antologia bilíngue. Vários tradutores. São Paulo, SP: Escrita, 1980. Em inglês: p. 64 e 66; em português: p. 65 e 67.