Pedro Belo Clara

(Seleção e versões)*

Mary Oliver: Retrato em preto e branco de uma mulher em uma livraria, com várias capas de livros visíveis nas prateleiras ao fundo.
Mary Oliver. Frame do documentário Mary Oliver: Saved by the Beauty of the World.

UMA OU DUAS COISAS

2.

O voo galopante da borboleta

leva-a delicadamente 

pelo país das folhas, sendo competente o bastante

para a levar onde quiser, seja isso onde for, parando

aqui e acolá, desarrumando as húmidas gargantas

das flores e a lama escura; sobe

e desce, borboletando frenética e sem propósito, e por vezes,

em demorados e deliciosos momentos, tão perfeitamente

preguiçosa, montada, sem na brisa se agitar, num caule macio

duma flor qualquer. 

5.

Uma ou duas coisas, é tudo o que precisas

para atravessar o lago azul, a densa

folhagem das árvores, e ir pelas duras

flores dos relâmpagos — alguma profunda

memória de prazer, alguma cortante

experiência de dor. 

7.

Por anos e anos lutei

apenas para amar a minha vida. E então

a borboleta

ergueu-se, leve, no vento.

“Não ames demasiado

a tua vida”, disse,

e desapareceu

mundo adentro. 

POEMA MATINAL

A cada manhã

o mundo 

é criado.

Sob as varas

alaranjadas do sol

as amontoadas

cinzas da noite

tornam-se folhas de novo

e apressam-se aos ramos mais altos

e os lagos revelam-se

como um pano negro

onde se pintam ilhas

de lírios estivais. 

Se é da tua natureza

ser feliz

nadarás ao longo dos trilhos macios

por horas, a tua imaginação

flamejando em toda a parte.

E se o teu espírito

carrega dentro dele

o espinho

mais pesado que chumbo — 

se é tudo o que podes fazer

para te continuares a arrastar — 

há ainda

algures fundo em ti

um animal a gritar que a terra

é exactamente o que pretendeu ser — 

cada lago com os seus lírios ardentes

é uma oração escutada e atendida

generosamente,

todas as manhãs,

se alguma vez, ou não, 

te atreveste a ser feliz;

se alguma vez, ou não,

te atreveste a dizer uma oração. 

GANSOS SELVAGENS

Não tens de ser bom.

Não tens de andar de joelhos

cem milhas pelo deserto em contrição. 

Tens apenas de deixar o animal manso do teu corpo

amar o que ama.

Fala-me de desespero, o teu, e do meu te falarei.

Entretanto, o mundo continua. 

Entretanto, o sol e as claras pedrinhas da chuva

movem-se pelas paisagens,

pelas pradarias e as árvores frondosas,

as montanhas e os rios.

Entretanto, os gansos selvagens, bem alto no limpo ar azul,

regressam de novo a casa.

Sejas quem for, por mais só que estejas,

o mundo oferece-se à tua imaginação,

chama-te como os gansos selvagens, áspero e excitante —

uma e outra vez anunciando o teu lugar

na família das coisas. 

A JORNADA

Um dia, finalmente, soubeste 

o que tinhas de fazer, e deste-lhe início,

embora as vozes em teu redor

continuassem a gritar

os seus maus conselhos — 

embora a casa inteira

começasse a tremer

e sentisses o velho puxão 

nos teus tornozelos.

“Conserta a minha vida!”,

gritava cada uma das vozes.

Mas tu não paraste.

Sabias o que tinhas de fazer,

ainda que o vento 

com os seus dedos rijos

forçasse os alicerces — 

ainda que a melancolia deles

fosse terrível. 

Era já tarde o suficiente,

e era uma noite agreste,

a estrada cheia de pedras

e ramos caídos.

Mas, aos poucos,

ao deixares as vozes para trás,

as estrelas começaram a brilhar

através da cortina de nuvens,

e então uma nova voz surgiu,

e lentamente a reconheceste

como sendo tua,

a voz que te ofereceu companhia

enquanto te embrenhavas

no mundo,

determinada a fazer

a única coisa que poderias fazer,

determinada a salvar

a única vida que poderias salvar. 

OS GIRASSÓIS

Vem comigo

      pelos campos de girassóis.

          Os seus rostos são discos lustrosos,

              os caules secos

rangem como os mastros dos navios,

      suas verdes folhas,

          tão numerosas e pesadas,

              todo o dia preenchidas pelos pegajosos

açúcares do sol. 

      Vem comigo 

          visitar os girassóis,

              são tímidos

mas querem amizade;

      têm maravilhosas histórias

          de quando eram jovens — 

              o clima, sempre importante,

os corvos vagueantes.

      Não tenhas receio

          de lhes perguntar alguma coisa!

             As suas faces reluzentes,

que seguem o sol,

      escutarão, e todas

          aquelas filas de sementes — 

              cada uma delas uma nova vida! — 

têm esperança numa amizade profunda;

      cada uma delas, embora esteja

          no seio duma multidão,

              como um universo à parte,

está só, o demorado ofício

      de tornar as suas vidas

          em celebração

              não é fácil. Vem

e falaremos com esses rostos modestos,

      a simples roupagem de folhas,

          as rudes raízes na terra

              tão direitas cintilando. 

Ligações a esta post:

* Versões a partir do original em Devotions – The Selected Poems of Mary Oliver (Penguin Press, 2017)