Kafka à Beira-mar (Murakami, Haruki)

Capa do livro Kafka à beira-mar de Haruki Murakami


Eu tinha erguido uma cerca alta em torno de mim e, da mesma maneira que me empenhava em não deixar ninguém passar para dentro dela, eu próprio fazia de tudo para não me expor fora dela. Obviamente, ninguém gosta desse tipo de gente. Meus colegas me mantinham a respeitosa distância e me observavam com precaução. Não sei se me julgavam desagradável, ou se tinham medo de mim, mas a verdade é que eu gostava de ser solitário.

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(…) fui ficando cada vez mais lacônico. Evitava da melhor maneira possível que meu rosto revelasse qualquer emoção e que colegas e professores percebessem o que me ia na mente.

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A biblioteca era uma espécie de segunda casa para mim. Pode até ser que tenha sido a minha verdadeira casa. Como ia lá todos os dias, fiz amizade com as bibliotecárias. Elas sabiam o meu nome e, ao me ver, me cumprimentavam e me dirigiam palavras carinhosas. (Mas eu era muito tímido e quase nunca respondia.)

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Quando os tomo nas mãos e os folheio, uma vaga fragrância de épocas passadas escapa por entre as suas páginas. É uma fragrância singular, exalada pela sabedoria e por sentimentos intensos longamente adormecidos entre duas capas. Aspiro seu perfume, folheio algumas páginas e devolvo os livros à prateleira.

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Dentro de cem anos, provavelmente todas as pessoas aqui presentes (assim como eu) terão desaparecido da face da terra e se transformado em lixo ou em cinzas. Penso nisso e me sinto estranho. Tudo ao meu redor adquire as características de uma frágil ilusão. Como se à menor aragem tudo pudesse se espalhar e sair voando pelos ares. Abro minhas duas mãos e as contemplo fixamente. Afinal, por que me esforço tanto em fazer o que faço? Por que continuo a viver tão desesperadamente?

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Quando acabei de ler, fiquei curioso. Qual seria a mensagem desta obra? Por mais estranho que possa parecer, esse aspecto “não-sei-o-que-o-autor-quis-dizer-com-esta-obra” me impressionou profundamente. Não consigo explicar melhor, infelizmente.

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(…) ele não fez nenhuma escolha, não decidiu nada por vontade própria. Não sei me explicar direito, mas me parece que ele assume uma atitude passiva o tempo todo. E acho que, no final das contas, o ser humano não tem mesmo o poder de fazer muitas escolhas na vida real.

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(…) a realidade nada mais é que um amontoado de profecias sinistras que se tornaram realidade. Abra os jornais de qualquer dia, ponha as notícias numa balança, as boas de um lado e as más do outro. Logo verá que falo a verdade.

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É assim que se constroem as grandes histórias — com viradas estonteantes. E acontecimentos inesperados. A felicidade é invariável. Mas a infelicidade apresenta inúmeras facetas, se modifica de pessoa para pessoa. Exatamente como disse Tolstoi. A felicidade é uma alegoria, a infelicidade é uma história.

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Quase nunca expressa sua opinião pessoal, excetuando nas ocasiões em que precisa tomar decisões de cunho prático. Entregue a si mesma, fala muito pouco: prefere ouvir e aquiescer com gentis monossílabos. Em conseqüência, seus interlocutores quase sempre sentem um vago desassossego a certa altura do diálogo. Têm a impressão de estar perturbando a tranqüilidade dela com conversas vãs, de estar invadindo seu universo metodicamente organizado. E quase sempre a percepção é correta.

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Meu caro Kafka Tamura, existe um ponto em nossas vidas em que voltar atrás já não nos é permitido. E também um ponto, este mais raro, em que não podemos mais avançar. Alcançados tais pontos, só nos resta aceitá-los, para o bem ou para o mal. É dessa maneira que todos nós vivemos.

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Os homens não escolhem seu destino, o destino é que os escolhe.

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(…) a tragédia, e quem diz isso é Aristóteles, não é produto da fraqueza dos personagens, mas de suas qualidades, nas quais a dita tragédia se alavanca e cresce.

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Meu pai conspurcava as pessoas que viviam perto dele, deformava-as. Não sei se ele fazia isso porque queria. Talvez ele simplesmente tivesse de fazer. Talvez essa fosse a sua natureza. Seja como for, acho que, nesse sentido, ele estava conectado a alguma coisa diferente.

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Nessa noite, vi um fantasma. Não sei se é correto chamar o que eu vi de “fantasma”. Mas com certeza não é um “ser” vivo. Um relance foi suficiente para saber que não pertencia a este mundo.

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O livro foi publicado por uma editora pequena, mas quase não vendeu. Ele não era concludente. E ninguém se interessa por livros inconcludentes. Mas a mim isso me pareceu perfeitamente natural.

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(…) minha questão se resume unicamente nisto: sobreviver cada dia dentro deste recipiente excepcionalmente defeituoso que é o meu corpo. Sob certo ponto de vista, é uma questão simples, sob outro, bastante complexa. Seja como for, mesmo quando tudo dá certo e eu sobrevivo, isso não representa nenhum grande feito. Ninguém se levanta para me aplaudir

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As revelações extrapolam os limites do cotidiano. A vida não tem sentido sem uma revelação. O mais importante é sair da razão que observa e ir para a razão que age. Entende o que estou dizendo, cabeça-de-bagre imprestável?

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Não estou exatamente querendo morrer. Para falar a verdade, aqui estou apenas à espera da morte. Da mesma maneira que me sentaria num banco da estação à espera de um trem.

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Um prédio decadente, em cujo interior pessoas decadentes faziam trabalhos decadentes e assim passavam seus dias decadentes. Toda cidade tem em suas ruas prédios semelhantes, apartados de toda a graça. Charles Dickens seria capaz de se estender por dez páginas na descrição de imóveis com essas características.

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Eram praticamente infinitas as coisas que ele não conhecia. Mas quando pensava no infinito, a cabeça começava a doer. Porque, era óbvio, o infinito não tinha fim.

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Nakata de repente sentiu vontade de saber: o que é este homem chamado Nakata?

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(…) vai acabar concluindo que todos nós somos assim, um tanto vazios por dentro, compreende? A gente come, faz cocô, trabalha num servicinho chato em troca de um salário miserável, transa de vez em quando e é só, não é mesmo? Que tem para fazer além disso? E reclamando e lamentando, ainda assim vivemos e nos divertimos de algum modo, não é verdade? Não sei bem por quê…

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Meu jovem, pode ser que a grande maioria das pessoas existentes no mundo não esteja em busca de liberdade. As pessoas apenas pensam que estão. Tudo é ilusório. Caso a liberdade lhes fosse realmente concedida, a maioria se veria num mato sem cachorro. Lembre-se sempre disso. Na verdade, as pessoas gostam de se sentir presas, entendeu?

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A vida é realmente uma bosta, não havia como escapar dessa verdade, pensou. Ele apenas não sabia disso quando era pequeno.

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Existe um mundo paralelo, contíguo a este em que vivemos. Você é capaz de entrar nele até um certo ponto. É também capaz de voltar de lá são e salvo. Contanto que esteja atento. Mas uma vez transposto certo ponto, nunca mais será capaz de voltar. Não vai mais achar o caminho. É um labirinto.

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O acaso não dá medo? — disse Hoshino. — Dá, realmente — disse Nakata.

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Berlioz já disse: morrer sem nunca ter lido Hamlet é o mesmo que viver toda a vida metido numa mina de carvão.

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Aceitar cada um dos dias vazios e vê-los se esvaindo, sempre vazios. Naqueles dias, cometi muitos erros. Na verdade, tenho a impressão de que tudo que fiz foi uma sucessão interminável de erros.

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Mas, quando ouço esta música, sinto que Beethoven está me dizendo: “Que se há de fazer, Hoshino, meu chapa? O que passou, passou.

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Por enquanto, o limbo é esta floresta. Eu morri. Por livre e espontânea vontade. Mas ainda não cheguei ao outro mundo. Em outras palavras, sou um espírito em trânsito, e espíritos em trânsito não têm forma.

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Enquanto contemplo a paisagem externa, de onde os pássaros continuam ausentes, penso em como seria bom se tivesse um livro para ler. Não importa o tipo. Bastaria que tivesse forma de livro e letras impressas. Quero apenas tê-lo nas mãos, virar as páginas e ver as linhas impressas. Mas aqui não existe nenhum livro, tampouco letras impressas. Passeio mais uma vez o olhar por todo o quarto e continuo não achando nenhum material escrito.