Esta foi nos velhos
tempos em que eu morava em Campina e vivia assessorando informalmente os
cantadores de viola, em seu relacionamento com a imprensa (porque eu era
crítico de cinema no “Diário da Borborema”) e com o meio acadêmico (porque eu
estudava Ciências Sociais na atual UFCG).
Marcaram uma
cantoria para Bandeira Sobrinho às nove da manhã. Não era uma cantoria, na
verdade, era uma simples apresentação, no auditório da universidade, em Bodocongó.
Havia uns professores de fora visitando o campus, e entre a programação
cultural resolveram botar: “Apresentação de cantadores”.
-- É meia horinha
apenas – explicou a moça que telefonou para ele. – O senhor canta meia hora e
pronto. Tem um cachê de xis reais.
Não faço mais idéia
de quanto era um cachê naquele tempo. Bandeira retrucou:
-- Tudo bem. Com
quem eu vou cantar?
-- É só o senhor –
disse ela, toda satisfeita.
A maioria dos
brasileiros pensa que um cantador de viola canta sozinho. É um pouco como
pensar que um jogador de tênis joga sozinho.
-- Tem que ser uma
dupla – explicou Bandeira. – Porque a técnica da cantoria consiste em fazer
versos alternados. E todos dois têm que receber.
Não sei se a moça
entendeu a questão técnica, mas criou-se um impasse, porque de um lado ela se
via pressionada a duplicar o cachê, e do outro lado ele se via pressionado a dividi-lo.
Sem falar que universidade demora meses pra fazer um depósito.
Acabaram combinando
que ele cantaria sozinho, até porque, reiterou ela, “não era uma cantoria, era
uma apresentação informal”. Bandeira concordou aos resmungos.
Somente na véspera
ele soube que a apresentação seria às nove da manhã.
-- Ninguém merece –
me disse ele, tempos depois, quando me narrou este episódio. – As pessoas
pensam que toda hora é igual, e que verso é como água da torneira, a qualquer
hora que abrir a água é a mesma.
-- Não dava para
transferir o horário? – sugeri, só para alternar a conversa.
-- Meio difícil,
porque era sexta à noite e eu recebi o folheto impresso a cores, com foto minha
e tudo. E lá estava eu, escalado para cantar sozinho, e às nove da manhã.
-- Público leigo –
disse eu. – Meia hora! Leva um balaio de
sextilhas e num instante passa.
-- Me deram duas
laudas de pessoas, com currículo e tudo, que eu devia saudar – disse ele. – Eu
já estava me arrependendo de ter nascido. Mas compromisso é compromisso, e eu
amarro o burro onde o dono do burro manda.
Às oito e meia ele
estacionou o fusca e desceu com a viola encasacada. Foi bem recebido, havia uma
mesa comprida com água, cafezinho e biscoitos. Depois, houve uma abertura
formal e ele foi chamado ao microfone.
-- Cantei em pé, o
que acabou sendo bom, porque me ajudou a ficar acordado. Fiz uma introdução,
fiz o elogio regulamentar.
O elogio era um
verso para cada visitante.
-- Cantei um verso
que não esqueço até hoje – disse Bandeira. – Cantei no piloto automático, como
você gosta de dizer. “Saúdo neste
auditório / professor Manuel Simão / tem doutorado em São Paulo / tem prêmios
em profusão / e é grande autoridade / nas pesquisas do algodão.” Vieram os aplausos e nisso o camarada se
levanta entusiasmado, puxando palmas, e sobe no palco, vem até o microfone.
Educadamente me empurra para o lado, se apossa do microfone e começa um
discurso.
-- Eita.
-- Falou da
importância dos poetas populares para a educação do povo brasileiro, falou do
Nordeste como ponta-de-lança da cultura neste país sem memória, e por aí foi. E
eu do lado, querendo cabecear de sono.
-- Foi elogiar, deu
nisso.
-- Aí ele falou que
era do interior de Pernambuco, que o avô tinha sido vaqueiro. E disse: “Poeta
Batista”, e você sabe como eu fico quando alguém erra meu nome, “vou lhe dar um
mote para você glosar”.
-- Aí deu um mote
de três linhas, desmetrificado.
-- Pior. Ele disse
com toda solenidade, como se fosse um locutor de congresso; “Quem é vaqueiro não pode / ser cantador de
viola!” E foi se sentar, todo
confiante.
-- Esse mote é do
tempo em que Adão era cadete.
-- Calma, que o
melhor vem aí. Eu já estava invocado porque o camarada subiu no palco e cortou
minha apresentação sem nem pedir licença. “Ah, mas ele era um professor...” Ora, professor tem que ser mais educado do que quem não tem diploma!...
-- Você glosou o
mote?
-- Aí é que está.
Eu estava com tanto sono que pratiquei uma desonestidade. Pior do que uma
desonestidade: uma imprudência. Eu cantei o verso de Pinto do Monteiro, fazendo
de conta que era improviso meu.
(Pinto do Monteiro)
-- O famoso verso
de Pinto!
-- Está em todos os
livros, não é mesmo? Eu devia ter me lembrado disso na hora, mas estava com a
cabeça a meia-pressão. E aí cantei o verso de Pinto, não sei se você sabe ele
de cor. É assim:
Vaqueiro é pra pegar touro,
amansar bezerro e vaca,
cortar pau, fazer estaca,
e consertar bebedouro.
Fazer queijo, beber soro,
curtir couro e raspar sola,
fazer freio e rabichola,
tanger cabra e capar bode...
Quem é vaqueiro não pode
ser cantador de viola.
-- É um grande
verso – disse eu, protocolarmente.
-- Com as
impressões digitais de Pinto do Monteiro – disse Bandeira. – Mas o perigo está
aí. O público aplaudiu, aí o “misera” do professor ficou em pé de novo e falou
alto, lá do auditório: “Poeta, esse verso é de Pinto! Eu pedi foi uma glosa
sua.” Até aí tudo bem. Mas ele complementou: “Caso seja possível”.
-- Alguma razão ele
tinha, né, poeta?...
-- Eu pedi a Deus
que um raio fulminasse aquele corno, mas Deus tem juízo e não me escutou. O
jeito foi voltar ao microfone, e a raiva foi tanta que acabou me ajudando a
produzir o resultado. E eu cantei:
Vaqueiro não tem desgosto
não passa noite acordado
não compra vinho fiado
não acorda com sol-pôsto;
não vive de tiragosto
nem de rum com Coca-Cola
não canta por uma esmola
não bebe cana, e não fode...
Quem é vaqueiro não pode
ser cantador de viola.
-- Eita.
-- A platéia veio
abaixo, a apresentação foi um sucesso, e o infitete me agarrou na maior
euforia, quase me bota no braço. E na segunda-feira o cachê bateu na conta.

