O meu primeiro contacto com a obra de Chimamanda Ngozi Adichie foi através de Notas Sobre o Luto. Mais tarde, li o Americanah e percebi que tinha de me aventurar nas restantes. Corta para 2026, mais concretamente para o desafio literário que tenho com a Sofia, porque esta autora foi uma das nossas escolhas e, em maio, lemos, talvez, o livro que mais vezes me recomendaram.


 diferentes fronteiras

A Cor do Hibisco abre-nos as portas da luxuosa propriedade da família de Kambili e de Jaja, irmãos cujo vínculo foi tantas vezes um pedaço de salvação emocional. Lá dentro, as regras estão bem definidas, por isso, os dias dividem-se entre «rezar, dormir, estudar e rezar ainda mais». E aquilo que, no início, aparenta ser uma vida de puro privilégio, rapidamente mostra sinais de rutura e tensão.

O ambiente familiar marcado por «expectativas irreais» e opressão contrasta com a imagem que a comunidade tem do pai de Kambili, isto porque o veem como um grande benfeitor, mas, dentro de casa, há outra história a ser contada. Ao ler estas realidades antagónicas, como se pertencessem a protagonistas distintos, fiquei a pensar no quanto as aparências enganam e na quantidade de máscaras que caem quando se regressa a um espaço íntimo, sem olhares externos, rodeados por quem não se opõe àquela forma de ser. Isso não significa que a aceite, apenas que há uma força maior a impedir uma revolta, um grito que quebre as amarras. De um modo geral, as pessoas não são só feitas de uma face, mas há sempre quem leve isso ao extremo.

Este drama familiar é, ainda, fortemente marcado pelo golpe militar na Nigéria, o que acrescenta, por um lado, mais intensidade à narrativa e, por outro, a possibilidade de refletirmos e repensarmos o modo como vivemos a nossa cultura, a nossa religião, as nossas crenças. Perante esta ameaça de instabilidade, Kambili e Jaja mudam-se para casa da tia e é nesse ponto que as fronteiras se alargam.

«Tinha os olhos tristes. Profundos e tristes. Apeteceu-me tocar-lhe no rosto, passar a minha mão pelas suas faces macias. Existiam histórias nos olhos dele que eu nunca haveria de conhecer»

Se, até então, fui avançando na leitura com uma certa aflição agregada ao peito, ao conhecer a figura da tia Ifeoma fui invadida por uma onda de esperança, porque senti que proporcionou tudo o que faltou a estes irmãos: uma verdadeira definição de lar, de família, de amor. Mostrando-lhes que a vida também pode ser leve, animada, sem cobranças desmedidas, permitiu-lhes acreditar que os seus futuros podiam ser outra coisa. Em nenhum momento lhes retirou responsabilidades, trazendo cenários irrealistas para a equação, apenas soube ouvir e acolher, deixando claro que é possível lutar por aquilo que acreditarmos sem diminuirmos os outros.

A Cor do Hibisco é palco do impacto que o fanatismo tem, bem como do quanto o patriarcado ecoa até nos gestos mais simples. Além disso, acredito que a escrita na primeira pessoa ajuda a que nos liguemos ainda mais à ação. É fascinante como a autora borda as suas histórias com tanta credibilidade, confrontando-nos com os nossos medos, as nossas angústias e a necessidade de alargarmos horizontes. Estas personagens continuarão a viver comigo.


 notas literárias
  • Desafio: 3 autoras para 2026
  • Lido entre: 8 e 13 de maio
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 368
  • Banda sonora: purple hibiscus (BBB), playlist de Margot Mikkelsby