“Há uma quantidade industrial de livros escritos no presente”, declarou a Prémio Nobel da Literatura Annie Ernaux ao Louisiana Channel. Referia-se à literatura contemporânea, que parece cada vez mais desinteressada pelo uso de tempos verbais que convocam o passado. “Estamos a extinguir a profundidade do tempo exprimida pela língua” – lamentou. O problema, segundo Ernaux, é que a memória e a esperança estão interligadas. Precisamos sempre das três dimensões: memória do passado, fruição do presente e esperança no futuro. Sem o passado, ficamos enredados no presente.

Ao ouvir as declarações de Ernaux, percebi por que razão gostei tanto de Na Casa da Minha Mãe, de Anabela Mota Ribeiro. No romance, a espessura do passado faz-se sentir por duas vias: Conceição escreve depois da morte do pai; Ester escreve enquanto a mãe se aproxima lentamente da ausência. Uma confronta-se com a perda consumada, a outra com a sua iminência. Para ambas, porém, a única forma de seguirem em frente será regressando a uma casa e a uma forma familiar de estar e de pensar – e, no caso de Ester, a uma vergonha social inscrita numa longa genealogia de vozes e corpos femininos.

A relação entre presente e passado não é, contudo, linear. Se existe uma relação de causalidade, ela será oblíqua e discernível apenas através de escavações sucessivas. Em Na Casa da Minha Mãe, escrever equivale a investir numa campanha arqueológica: na remoção, vagarosa e insistente, das camadas da existência até que palavras, gestos, medos, objetos e silêncios deixem entrever, no subsolo, as suas formas – que Conceição e Ester terão de reconhecer e cuidar para poderem ressignificar.

De início, a escrita de Conceição, embora reflexiva, é contida e estruturante. É ela quem estabelece o enquadramento da narrativa: o luto pelo pai – psicanalista –, a descoberta do diário de uma paciente, Ester, e o encaixe da história desta na narrativa que compõe o romance. Conceição organiza; Ester deriva. “A angústia não tem fio narrativo” – argumenta esta última. E por isso escreve sob o efeito da angústia: avança, recua, interrompe-se, associa, regressa, sonha, salta entre tempos e imagens. Apesar das suas derivas, contudo, Ester revela uma forte autoconsciência narrativa, interrogando-se constantemente sobre o próprio ato de escrita, revendo frases, comentando os seus gestos e hesitações – e chegando mesmo a corrigir graficamente algumas palavras. Neste processo, contamina Conceição ao ponto de a distinção entre as duas vozes se tornar porosa, como se uma aprendesse a respirar pela outra.

O romance atinge o seu clímax quando as duas filhas deixam de ocupar territórios separados – na verdade, no momento em que deixamos de perguntar “quem está a falar?” para começarmos a perguntar “porque é que estas vozes se reconhecem tanto uma na outra?”. A resposta a esta questão é simples: porque, embora com biografias diversas, as duas mulheres necessitam de se reposicionar em relação às suas origens. Conceição, a “filha do seu pai” (como se define logo no início do romance), tem de ultrapassar a vulnerabilidade ontológica que lhe trouxe o luto: a sensação de desproteção e interrupção da continuidade do eu que agora sente e lhe suscita fascínio pela ruína. Ester terá de ultrapassar a sensação de “despertença” que a mantém em suspenso entre o universo popular, rural e feminino do interior do Norte do país, de onde provém, e os espaços culturais e sociais a que ascendeu pela inteligência e pela educação. Ambas têm em comum uma sensação de “deslibido” – um feliz neologismo que traduz a dificuldade que sentem em desejar – não apenas em termos sexuais, mas também existenciais.

Mexendo nas feridas, Conceição e Ester reconciliam-se com o passado – e, estão, por isso, preparadas para perspetivarem um futuro diferente do presente. Conceição transforma a ausência do pai numa presença incorporada; percebendo que as pessoas não desaparecem inteiramente, deixa de viver a morte como rutura para a pensar enquanto continuidade. E Ester, regressando ao Norte interior, às mulheres da família, às palavras da mãe, aos objetos e aos ritmos do trabalho, compreende que a língua da origem não era um estigma, mas um dos seus alicerces mais profundos. “Hoje repito as frases da minha mãe sem pudor”, afirma. “Imersas no dialeto que se falava em nossa casa, foram sempre minhas, elementos constitutivos de quem sou. A diferença é que deixei de rejeitar a identificação”.

No dia da apresentação do seu livro, na Galeria da Biodiversidade, ouvi Anabela Mota Ribeiro declarar: “Só na semana passada dei conta de que Ester sou eu”. E fiquei a pensar: talvez escrever seja isto – escavar as casas dos outros até percebermos, demasiado tarde ou finalmente a tempo, que a casa que andávamos a escavar era também a nossa.

"As casas que escavamos" é um texto de Fátima Vieira, vice-Reitora para a Cultura e Museus da Universidade do Porto, para a newslletter da sua universidade.