Centrado na dicotomia entre a vida prática – não amar – e a entrega radical – amar –, Ignatow detém-se em evidenciar o alto custo que a autêntica entrega emocional exige – experimentado, ironicamente, pelos “mortos” –, em contraste com a segurança superficial da mera existência em que vivem os “livres”, sem estarem presos aos garrotes e às dores do comprometimento total.
Importar esclarecer – e compreenda-se que há algo de especulativo em tais deduções – que os “mortos” são os que, amando, se “perderam” no bosque ou, ainda, aqueles que se transformaram em peixes no mar profundo: se “mortos” para o mundo, para o poeta, contudo, são os que, de fato, apreenderam a essência mesma da existência, ainda que ao custo da aniquilação do eu social.
O vocativo final parece ser um pedido de auxílio, emanado a partir do próprio abismo em que se encontram os que se dispuseram a amar com todas as forças, dirigido aos livres que estão a salvo nas margens, para que lhes ajudem a escapar da asfixia de tamanha paixão desmesurada.
J.A.R. – H.C.
David Ignatow
(1914-1997)
Rescue the Dead
Finally, to forgo love is to kiss a leaf,
is to let rain fall nakedly upon your head,
is to respect fire,
is to study man’s eyes and his gestures
as he talks,
is to set bread upon the table
and a knife discreetly by,
is to pass through crowds
like a crowd of oneself.
Not to love is to live.
To love is to be led away
into a forest where the secret grave
is dug, singing, praising darkness
under the trees.
To live is to sign your name,
is to ignore the dead,
is to carry a wallet
and shake hands.
To love is to be a fish.
My boat wallows in the sea.
You who are free,
rescue the dead.
A brigada da vida
(Winslow Homer: pintor norte-americano)
Resgatai os Mortos
Enfim, privar-se do amor é beijar uma folha,
é deixar a chuva cair nuamente sobre a vossa cabeça,
é respeitar o fogo,
é perscrutar os olhos do homem e seus gestos
enquanto fala,
é colocar pão sobre a mesa
e uma faca discretamente ao lado,
é passar por multidões
como uma multidão de si mesmo.
Não amar é viver.
Amar é deixar-se levar a um bosque
onde se escava em segredo a sepultura,
cantando, bendizendo a escuridão
sob as árvores.
Viver é assinar o vosso nome,
é ignorar os mortos,
é portar uma carteira
e apertar as mãos.
Amar é ser um peixe.
Meu barco debate-se no mar.
Vós que sois livres,
resgatai os mortos.
Referência:
IGNATOW, David. Rescue the dead. In: WASHBURN, Katharine; MAJOR, John S. (Eds.), FADIMAN, Clifton (Gen. Ed.). World poetry: an anthology of verse from antiquity to our time. New York, NY: Quality Paperback Book Club, 1998. p. 1215-1216.
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