Nesta declaração metapoética, o poeta romeno desarma o leitor desde o primeiro verso, num prólogo que se abre como um leque de significados, delegando-lhe a responsabilidade última de decifrar e, por meio desse processo, criar o próprio poeta, na firme convicção de que um dado poema só se torna palavra viva quando acolhido por outra consciência.

O poeta, sob tal perspectiva, desmaterializa-se para logo situar-se num limbo de possibilidades, convertendo-se em pura potencialidade linguística: sua existência, sua “vingança” contra o nada e sua revelação ao mundo, como se disse, dependem por completo da cumplicidade ativa de um leitor, pela via de quem espera superar o esquecimento, a incompreensão ou a falsa identidade.

J.A.R. – H.C.

Karl Marx (filho) ou possivelmente um intelectual da época, frequentemente associado a representações de intelectuais judeus ou europeus do início do século XX.: Retrato em preto e branco de um homem usando óculos redondos e gravata borboleta.

Ion Minulescu

(1881-1944)

În Loc de Prefaţă

(Extras)

N-am fost aşa precum se spune

Şi nu sunt nici aşa cum sunt

Nu sunt nici foc,

Nici ploaie

Şi nici vânt!...

Nu sunt nimic din ce-aş putea fi pe pământ...

Nu sunt decât un strop de vorbe bune,

Ce-aştept un cititor cinstit să mă răzbune

Şi să m-arate lumii cine sunt!…

Emily Kame Kngwarreye: Uma pintura abstrata em tríptico com pinceladas densas que lembram folhagens ou galhos em tons de azul, roxo e branco sobre um fundo quente avermelhado e alaranjado.

Fogo, vento e água

(Marion Borgelt: artista australiana)

Em Vez de Prefácio

(Excerto)

Não fui assim, como se diz

e não sou nem assim como sou –

não sou nem fogo,

nem chuva

e nem vento!...

Nada sou do que poderia ter sido sobre a terra...

Não sou mais que um feixe de belas palavras,

que espera um leitor honesto para me vingar

e mostrar ao mundo quem sou eu!...

Referências:

Em Romeno

MINULESCU, Ion. În loc de prefaţă (Extras). Disponível neste endereço. Acesso em: 19 ago. 2016.

Em Português

MINULESCU, Ion. Em vez de prefácio (Excerto). Tradução de Julia Cârap. Poesia sempre, MinC – FBN, Rio de Janeiro (RJ), ano 13, n. 22, p. 40, jan-mar. 2006. (Volume “Romênia”). Disponível neste endereço. Acesso em: 22 ago. 2026.