Alain Darborg dirige “Ponto Vermelho”, thriller sueco estrelado por Nanna Blondell, Anastasios Soulis, Thomas Hanzon e Johannes Bah Kuhnke. Nadja e David viajam para o norte da Suécia tentando salvar um casamento já gasto, agora atravessado pela notícia de uma gravidez e por uma intimidade que parece sempre perto de quebrar. Eles levam o cachorro Boris, procuram a aurora boreal e sonham com algum sossego. A ideia era recomeçar.

Nada ali demora a azedar. Num posto de gasolina, David raspa o carro de homens locais e prefere ir embora sem resolver o estrago, como se bastasse seguir em frente para apagar o que fez. Pouco depois, o casal encontra o próprio veículo marcado por uma ofensa racial contra Nadja, e ela revida riscando a caminhonete que acredita ser dos agressores. O erro fica para trás.

A viagem muda de rumo antes mesmo de a trilha começar. O que parecia apenas desconforto entre forasteiros e moradores locais passa a contaminar cada gesto do casal, do silêncio dentro do carro ao modo como Nadja e David já não conseguem esconder a irritação um com o outro. Darborg organiza esse começo sem adornos, prendendo a tensão a coisas muito simples, um para-choque raspado, uma lataria ferida, a humilhação escrita no carro. Basta muito pouco.

A noite parece infinita

Quando a mira laser aparece na barraca durante a noite, acaba qualquer ilusão de passeio romântico. Nadja e David saem correndo pela neve, pela floresta e pela montanha, tentando descobrir de onde vêm os tiros e quanto tempo ainda conseguem se manter de pé, enquanto o frio aperta, a orientação falha e os ferimentos começam a cobrar seu preço. A gravidez de Nadja pesa em cada trecho da fuga, transformando cada subida, cada queda e cada arrancada curta numa conta física dura demais. O corpo cobra tudo.

Darborg filma a paisagem como ameaça, não como descanso. A aurora, os reflexos secos na neve e os enquadramentos que deixam o casal pequeno diante da vastidão não embelezam a perseguição, apenas tornam mais cruel a ideia de que não há abrigo possível naquele branco inteiro. Quando Boris entra no centro do desespero e a violência sobe de tom, “Ponto Vermelho” abandona qualquer pose de suspense elegante e assume uma brutalidade mais direta, quase sem ar. A noite parece infinita.

Nadja concentra a força do filme porque reúne, no mesmo corpo, a hostilidade racial vista no carro vandalizado, a gravidez chegada em hora incerta e a necessidade de seguir correndo quando já não há reserva física nem emocional. David atravessa a história como alguém esmagado pelas próprias escolhas, do acidente no posto à incapacidade de medir o perigo real que cresce ao redor dos dois, e isso dá ao casal um peso menos romântico e mais áspero, de gente que corre lado a lado sem conseguir apagar o que já estava ferido antes da viagem. A relação importa.

Esse vínculo machucado segura o thriller quando a perseguição ameaça virar apenas sucessão de tiros, correria e neve. “Ponto Vermelho” encontra sua melhor tensão ao juntar ações pequenas que se envenenam com o tempo, o carro raspado, a ofensa no estacionamento, o revide na lataria, a barraca tocada pela mira vermelha, e ao sugerir que há um passado rondando a travessia sem abandonar a pressão do presente. No fim, fica menos a lógica da caçada do que uma imagem física, duas pessoas perdidas na neve, respirando mal, ouvindo passos ao redor, vendo o vermelho tremer no tecido da barraca. Só resta aquele pano tenso.

Um homem de pé ao lado de uma barraca de acampamento em um terreno coberto de neve sob um céu nublado e enevoado.

Dirigido por Alain Darborg, “Ponto Vermelho” acompanha Nadja e David numa tentativa de recomeço no norte da Suécia que logo se converte em perseguição. Um carro raspado num posto de gasolina, a ofensa racial escrita na lataria do casal, a gravidez em meio ao desgaste e a mira laser surgindo na barraca empurram a história para a neve, a floresta e a montanha. Entre frio, cansaço e medo, a fuga vira teste físico e afetivo.