A poetisa mineira, num exercício de identificação lírica com uma figura histórica e cultural distante – o mandarim chinês –, lança mão do imaginário imperial sínico para refletir sobre a função desse representante estatal em preservar e transmitir a cultura de seu país, sobretudo o idioma – enquanto pilar de uma civilização já milenar –, ao mesmo tempo que exteriorizar os atributos de sabedoria, da tradição e do poder.

Poder-se-iam correlacionar os referentes compendiados por Rainho em sua descrição da identidade desse agente público oriental – a de erudito, mestre, conselheiro político, mas, sobretudo, de sábio e artista –, com os de todos aqueles que se dedicam ao ofício da escrita – o poeta aí incluso –, os quais, “sabendo escolher conceitos”, buscam dar ordem ao mundo através da palavra, com sensibilidade e beleza.

J.A.R. – H.C.

Antónia Ferreira: Retrato em preto e branco de uma mulher com óculos e colar de pérolas.

Cleonice Rainho

(1919-2012)

Mandarinato

Sou um mandarim:

fui astrólogo da corte,

aprendi a ver estrelas

(fascinavam-me os quartos de lua)

e fui um dos grandes letrados,

sabendo escolher conceitos.

Perlustrei livros sagrados,

dei-me ao culto de Confúcio,

escrevi ternos poemas.

Enfrentei a fragmentação feudal,

circulei entre vários reinos,

disputando a hegemonia.

Fui honroso conselheiro,

redigi apreciados sutras,

percorri, como professor,

distantes vilas e aldeias,

treinando letras ideográficas.

Ensinei a olhar a Natureza,

a distinguir a ordem cósmica

e, doce privilégio!

– amei bela mandarina.

Rolam no tempo reinos guerreiros,

política e religião se aninham

no valor e força da linguagem escrita.

E me ergo, camada dirigente,

na administração do Estado,

funcionários burocráticos,

tradicionalistas religiosos,

audaciosos inovadores políticos

identificados com

 a Unidade Chinesa.

Ye Jinglong: Pintura a óleo de um homem chinês idoso com barba branca e cabeça raspada, usando trajes tradicionais.

Um Mandarim Chinês

(George Chinnery: pintor inglês)

Referência:

RAINHO, Cleonice. Mandarinato. In: __________. Poemas chineses. Brasília, DF: Editora Códice, 1997. p. 22-23.