Kim, Rudyard Kipling
Um livro para se ler com vagar e atenção: uma viagem cheia de detalhes e pequenas narrativas pelas várias regiões da Índia, com seus usos e costumes, sua cultura e suas crenças, suas paisagens, estradas e caminhos e sua cultura, no final do século XIX, provavelmente no período de 1893 a 1898. A personagem central é Kimball O'Hara, um menino branco, talvez o “mais pobre dos brancos”, órfão de pais irlandeses que morreram na miséria. O garoto vive pelas ruas, mendigando e aplicando pequenos golpes, para sobreviver, quando consegue um emprego com um comerciante de cavalos, Mahbub Ali, um paquistanês (pashtun) agente do serviço secreto britânico. Faz amizade com um lama tibetano que está tentando libertar-se da “roda de coisas”, um conceito budista que se refere ao fluxo da vida, do nascimento até à morte, do qual só se consegue escapar pela iluminação. E a iluminação desse monge está no encontro de um determinado rio milagroso, por cuja procura ele viaja por todo o país, agora com o seu “chela” (discípulo), o jovem Kim. Ao ser incumbido por Mahbub Alli de levar uma mensagem ao chefe dos serviços secretos britânicos em Umbala (uma cidade do norte da Índia), Kim acaba por ser recrutado e enviado para estudar numa grande escola, onde fica por mais ou menos três anos e, depois, volta a ser o “chela” do lama tibetano. Acaba se envolvendo em espionagem e no roubo de documentos secretos dos russos (que estão tentando minar o domínio britânico da região), viaja com o lama por inúmeras regiões e a amizade entre os dois se aprofunda de tal forma que, ao final, mestre e discípulo terminam encontrando juntos o rio da “grande iluminação”. Apesar de tantas peripécias por que passa o jovem, dentro de um contexto político complexo e cheio de traições, perseguições e atentados, o que nos comove em sua trajetória é o amor que ele nutre pelo velho monge, o lama que o conduz pelos caminhos do conhecimento e da vida. Publicado em 1901, está entre os grandes romances do século XIX, sem dúvida ainda uma leitura prazerosa, mesmo hoje, em pleno século XXI.
