Luis Arthur França

unknown: Uma colagem artística surrealista composta por duas imagens sobrepostas: na parte superior, árvores contra um céu claro; na inferior, o tronco de uma mulher com uma mancha vermelha desenhada sobre a roupa branca.

Crédito da imagem: Katrien De Blauwer titled whilst waiting (5), 2021. 

Bakhtin em Epos e Romance (1914), trata o romance como uma forma a se constituir, ainda inacabado, capaz de canibalizar outros gêneros, resultando, portanto, em uma forma sem forma, ou melhor, acolhendo a inespecificidade de sua forma como especificidade do gênero. Fruto da era moderna da história mundial, o romance absorve outras formas textuais, literárias ou não, abrindo uma série de possibilidades de construir narrativas, se disfarçando entre formas não ficcionais e performando outros gêneros.  

Podemos pensar que o contemporâneo, confirma o traço inespecífico do romance, pois publicações recentes apostam neste traço do gênero. Se consideramos, por exemplo, a relação da ficção romanesca com os gêneros autobiográficos, podemos lembrar de Paisagem com Dromedário de Carola Saavedra. O terceiro romance da autora chilena conta a história de Érika, uma moça que se autoexila em uma ilha vulcânica, a fim de superar a morte da jovem Karen, que juntamente com o artista plástico, Alex, formavam uma relação poliamorosa. O livro consiste nas 22 gravações feitas por Érika, nas quais a memória de Karen é preservada.

Paisagem com dromedário pode ser lido como um romance diário, já que a trama consiste nos monólogos de Érika, que funcionam tal qual anotações de sua nova rotina, organizada por uma série de descontinuidades. As gravações funcionam como um registro diarístico que é transcrito para o leitor e que constitui a obra. A mediação da transcriação é um artíficio moderador entre a intimidade e o registro documental do que é vivido pelos personagens:

“A música fica mais alta, sobrepõe-se à voz de Érika, que se torna inaudível. Após alguns minutos, a música para repentinamente, ouve-se apenas Érika assobiando a melodia. Depois, breve silêncio.” 

A partir disso, abre-se uma série de questionamentos, ou melhor, uma série de chaves de leitura possíveis para o romance. Quem é esse transcritor? Ele controla a materialidade e a temporalidade dos acontecimentos e nos entrega uma narrativa fragmentada.  A narrativa tem como base a incerteza e a imprecisão dos registros, por isso o diário degravado pode constituir uma espécie de instalação artística, que transforma a própria experiência da perda em arte.

Em entrevista para o Jornal Rascunho, Carola Saavedra afirma que a literatura que interessa a ela é  aquela que consegue fazer boas perguntas: “Você não vai ler o Dom Quixote como ele foi lido na época em que foi escrito, mas ele continua fazendo uma pergunta, um questionamento para o leitor. Talvez essa pergunta continue funcionando, e é isso que faz com que a obra continue sendo importante, e sendo lida.”.

Paisagem com dromedário entrega o protagonismo ao leitor, para que ele possa juntar as pistas e tecer suas próprias interpretações, mantendo e deslocando, simultaneamente, a tradição do gênero.