Espanha 1x0 Argentina!
E pronto, a Espanha tornou-se, pela segunda vez, campeã do mundo. Na minha cabeça, isto desmente pela milésima vez o antigo clichê dos coleguinhas comentaristas esportivos: “Ah, futebol não tem lógica!...”.
A lógica do futebol não é uma lógica exata, é uma lógica de Ciências Humanas, e sendo assim só pode funcionar por aproximação, ou probabilisticamente.
Se, no jogo deste domingo, a Argentina conseguisse fazer 1x0 na prorrogação e ganhasse o título, o resultado também teria por trás de si uma lógica implacável, mesmo que dolorosa. Quem não faz, leva. Com a Argentina não se brinca. Com Messi em campo, tudo pode acontecer.
A Ciência é forçada a lidar com esse tipo de lógica difusa (“fuzzy logic”). Não há certezas. Mesmo uma tendência esmagadora na direção “A” pode ser revertida bruscamente na direção “B” por um fator inesperado, dificilmente previsível. E isso está na raiz do jogo de futebol.
A Espanha foi campeã, mas na cabeça de muita gente esta Copa ficará conhecida como “a Copa de Cabo Verde” – essa seleção desconhecida e inesperada que não perdeu para a seleção campeã, e só foi derrotada pela vice-campeã Argentina depois de muito suor, num jogo equilibradíssimo que facilmente poderia ter tido um placar inverso.
Toda
Copa do Mundo produz uma dúzia de narrativas épicas: o grande time que fracassou
na hora H, o jogador obscuro que fez o gol do título, o time azarão que aplicou
uma zebra num favorito, o erro do juiz que até ele mesmo concordou, o zagueiro
que fez um gol contra e foi assassinado, o potentado que tentou mudar o
resultado de um jogo, o acidente lamentável que pode ter cortado pelo meio uma
carreira...
Cabo
Verde trouxe para a Copa 2026 a aventura improvável vivida por uma ilha
minúscula. Ela saiu “pegando no laço” jogadores do mundo inteiro com algum
vínculo genealógico, e montou um time medianamente competitivo. Mostrou em
campo que esses atletas (que não jogam no país) eram capazes de muito mais
garra e determinação do que seleções consagradas e elencos com milionários
contratos de publicidade.
O
grande jogo da Copa, para mim, foi Argentina 3x2 Cabo Verde, 120 minutos de um
confronto em que cada palmo da grama foi disputado com sangue, suor e lágrimas,
e com muito talento de parte a parte.
Pertinho
desse jogo eu colocaria Inglaterra 3x2 México, no caldeirão do Estádio Azteca,
com belos gols, um clima sufocante, e uma resistência heróica dos ingleses
reduzidos a dez homens em campo.
O
Brasil fez jogos mornos, sem grande brilho e sem grandes emoções. O melhor jogo
nosso foi a virada sobre o Japão, não por ter mostrado um grande futebol, mas
pelo sofrimento de começar perdendo, conseguir o empate, e depois fazer o gol
da vitória no último minuto.
Nossa
Seleção joga sem alma. Joga com a tensão acabrunhada (ou com a empáfia postiça)
de quem já começa devendo e sabe que não tem com que pagar.
Tem
um técnico que se adapta bem ao material humano de que dispõe. Foi assim que Carlo
Ancelotti ganhou tudo pelo Real Madrid, mas veio parar, coitado, num covil de
raposas que é a CBF, a política brasileira, a publicidade brasileira, a imprensa
brasileira e as redes sociais brasileiras. Desejo-lhe sorte da próxima vez, mas
sem muita esperança. Metade desta Copa ele perdeu na convocação.
A
Espanha foi campeã jogando esse jogo de cerca-cerca, tocando bola e chegando
aos poucos. Não é o meu futebol preferido. Gosto de times rápidos, que esticam
passes em profundidade... Jogadores que entram na área driblando quem aparece
pela frente... Times que chutam em gol de qualquer ângulo e de qualquer
distância... Sou o último romântico.
Admiro
a tática e a técnica, mas gosto mais da garra, daí que mesmo a contragosto
aplaudi a via-crucis da Argentina e a
admirável presença de Lionel Messi. Nestas últimas partidas, Messi parecia um
jogador radioativo. Pegava a bola na ponta-direita e os adversários ficavam a
três metros de distância. Ninguém queria partir pra cima do toureiro.
E
o jogo avança no formato de sempre: a bola vai para a ponta-esquerda, é tocada
para o jogador mais à direita, deste para o próximo, até chegar na
ponta-direita, e ai recomeça tudo no sentido inverso, num semi-círculo de
passes à frente da área, à espera de um deslocamento milagroso, uma rachadura no
muro da represa.
É
o jogo do City de Guardiola, time que admiro (também a contragosto), porque sei
o quanto aquilo exige inteligência e habilidade de quem faz a bola circular
daquele jeito. É só uma questão de gosto, mesmo. Gosto de times que, quando se
apossam da bola, partem a toda velocidade na direção do gol, três, quatro,
cinco jogadores ao mesmo tempo, como se o jogo fosse acabar daí a dez segundos.
A
Copa teve seus momentos baixos, claro. As absurdas intervenções do presidente
dos EUA na arbitragem, e na foto da premiação. E o tratamento vergonhoso dispensado
pelo Estado policial norte-americano a jogadores da África e principalmente do
Irã.
É
uma coisa meio surrealista você saber que dois países estão em guerra (mesmo
uma guerra não oficialmente declarada, pois o Congresso dos EUA não a
autorizou) e um deles tem que receber a seleção (e os torcedores) do outro.
Parece um roteiro a quatro mãos entre Douglas Adams e George Orwell.
Lembro
de Orwell porque o autor de Animal Farm tem
um ensaio famoso contra o futebol, escrito logo após a II Guerra, quando os
ódios nacionalistas da Europa ainda não tinham arrefecido.
Aproveitando
uma excursão do Dínamo de Moscou pela Inglaterra, para enfrentar times
britânicos, Orwell arregaçou as mangas e mandou ver.
Agora que a breve visita da equipe de futebol do Dínamo chegou ao fim, é possível dizer publicamente o que muitas pessoas lúcidas vinham afirmando em privado, antes mesmo da chegada do Dínamo. Ou seja: que o esporte é uma fonte inesgotável de animosidade, e que se uma visita dessa natureza teve algum efeito nas relações anglo-soviéticas foi o de torná-las um tanto pior do que já estavam.
(“The Sporting Spirit”, 1945, Essays, Penguin, 2000, trad. BT)
Orwell
vê essas disputas, compreensivelmente, não como um enfrentamento meramente
esportivo, mas como símbolos do espírito de cada nação.
O detalhe mais significativo não é o comportamento dos jogadores, mas a atitude do público e, para além do público, das próprias nações, sujeitas a ataques de fúria a propósito desses embates absurdos, e que acreditam seriamente – pelo menos por curtos períodos de tempo – que o ato de correr, pular e dar pontapés numa bola são testes para as virtudes nacionais.
Ele
não vê muitos elementos redentores no esporte:
O esporte levado a sério não tem nenhuma relação com “jogo limpo”. Ele é repleto de ódio, ciúme, arrogância, desprezo pelas regras, além do prazer sádico na contemplação da violência. Em outras palavras, é a guerra, só que sem disparos de armas de fogo.
Acho
que isso coloca em perspectiva, inclusive, o papel do Brasil dentro da história
do futebol mundial. Quando começou a II Guerra, tinham acontecido apenas três
Copas: 1930 (campeão Uruguai), 1934 e 1938 (bi-campeã Itália). E o conflito
cancelou, obviamente, as Copas que poderiam ter acontecido em 1942 e 1946.
Depois
de uma guerra sangrenta e um hiato de doze anos, o Brasil construiu “o maior
estádio do mundo” para acolher equipes do mundo inteiro. Foi uma espécie de
Woodstock da paz. Num clima de muita politicagem e demagogia, mas, enfim – foi
uma grande Copa, e podemos mesmo considerar que foi uma espécie de recomeço. A
moderna Copa do Mundo começou em 1950.
O
Brasil deu chocolates memoráveis nos europeus (7x1 na Suécia, 6x1 na Espanha).
João Saldanha, que não se iludia facilmente, afirmava: “A juventude da Europa
foi estraçalhada pela guerra. Daqui a uma ou duas gerações a coisa vai mudar”.
Mas
o Maracanã inteiro cantou “Touradas em Madri” fazendo Braguinha chorar na
arquibancada, e o time do Uruguai introduziu, no jogo final, o pulo-do-gato da
“fuzzy logic” que deixaria perplexos tantos observadores, fossem cartesianos ou
marxistas.
Eu
vejo essas coisas como torcedor, ou seja, na condição de quem compartilha uma
fantasia coletiva, e toda fantasia coletiva se parece com uma Realidade. Já o
bravo George Orwell não conta conversa:
(Orwell, by Baptistão)
A maior parte dos esportes que hoje praticamos tem origem na Antiguidade, mas o esporte não parece ter sido encarado muito a sério entre a era romana e o século 19. Mesmo nas escolas públicas britânicas o culto aos jogos não floresceu senão a partir de meados do século passado. (...) E então, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, os jogos começaram a se constituir numa atividade com pesado financiamento, capaz de atrair enormes multidões e de despertar paixões selvagens, e essa infecção começou a se alastrar pelos demais países. E são os esportes mais violentos, o futebol e o boxe, os que mais se espalharam. Sem dúvida isto está ligado à ascensão do nacionalismo, ou seja, ao lunático hábito moderno de um indivíduo se identificar com grandes estruturas de poder e passar a enxergar todas as coisas pelo ângulo da competição e do prestígio.
O
autor dessas linhas estava se preparando para escrever sua obra final, 1984, com seus conflitos globais entre
Lestásia, Eurásia e Oceania, com seus “dois minutos de ódio” em salões
coletivos, seu culto à personalidade, sua vigilância eletrônica.
E
o nosso VAR, esse sistema misto de câmeras e computação gráfica, não acaba
virando uma espécie de reescritura dos fatos e de reescritura da História pelo
“Ministério da Verdade” orwelliano, em que as notícias dos jornais passados são
reescritas e os jornais reimpressos, de modo a que fique valendo a versão
imposta por quem detém o poder tecnológico de fornecer informação?
Bem,
desculpem a digressão, acabei me distraindo e perdendo o fio da meada. Parabéns
Espanha, parabéns Lamine Yamal e Cubarsí, jogam muito, esses garotos.







