Fiquei com vontade de explorar mais da obra de Mercè Rodoreda (e de ir a Barcelona).
Espelho Partido acompanha várias gerações da mesma família de Barcelona desde o final do século XIX até à Guerra Civil Espanhola. Apesar do período em que decorre, mais que um romance histórico é uma saga familiar, um retrato da alta burguesia catalã e uma meditação sobre o envelhecimento, a perda e a passagem do tempo. O verdadeiro foco está na família de Teresa Goday, nos seus segredos, nas suas relações e na forma como o tempo vai deixando marcas em todos eles.
Apesar do peso da matriarca, não existe uma protagonista única; acompanhamos filhos, netos, criados, amantes e toda uma rede de personagens em torno da família e da casa que habitam, sendo que até mesmo animais, objetos e um fantasma acabam por ocupar o centro da narrativa. A primeira parte parece mais introdutória, mas aos poucos a autora revela os sentimentos das personagens e a narrativa torna-se mais fragmentada, mais poética e, por vezes, quase onírica. Todos parecem ser fragmentos do espelho do título. Rodoreda deixa que sejam as suas ações e obsessões a defini-los, e o resultado são personagens muito humanas.
Gostei muito da presença constante da natureza. Jardins, árvores, flores e animais, sobretudo pássaros, atravessam toda a história, não apenas como cenário, mas quase como uma personagem adicional. Há uma sensação constante de beleza e de ameaça. Sente-se que certas tragédias se tornam inevitáveis.
A prosa é belíssima, as personagens são inesquecíveis. Percebo por que é que Espelho Partido continua a ser considerado uma das grandes obras da literatura catalã.
Tenho na estante uma edição de Quanta, quanta guerra, da saudosa Cotovia. Quem já leu algum destes dois (ou mesmo outro) de Mercè Rodoreda?
Tradução de Artur Guerra
Se estiverem em Portugal, podem comprar esta edição via wook
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