Um amigo comenta que há algo melancólico em pedir ajuda a uma máquina para escrever um romance. Afinal, durante séculos, acreditamos que a literatura seria o último lugar em que as máquinas entrariam.
Poderíamos fabricar automóveis, relógios e até mesmo guerras. Mas não poemas. Jamais aquelas frases que surgem em nossa cabeça às três da manhã e que nos salvam do desejo de desaparecer para sempre.
E, então, veio a inteligência artificial.
Primeiro corrigindo vírgulas e sugerindo sinônimos em nossos textos. Depois, imitando o estilo de autores clássicos, construindo diálogos perfeitos, produzindo livros inteiros em velocidade humilhante.
Há quem sugira num comando: “escreva como se fosse Clarice Lispector encontrando Franz Kafka em uma esquina de Macondo”. E a máquina vai lá e escreve. Talvez seja mesmo o fim. Já anunciaram, pela milionésima vez, a morte do autor.
Nos últimos dias, a polonesa Olga Tokarczuk admitiu publicamente usar inteligência artificial durante etapas preliminares do seu processo criativo. Coisas como brainstorming e desenvolvimento inicial de ideias.
Parte da internet reagiu como se a vencedora do Nobel tivesse confessado um crime. O esquisito é que ninguém se escandaliza quando um escritor consulta o Google, pesquisando referências, ou reorganiza frases após ouvir leitores beta.
Será que o problema é mesmo a inteligência artificial? Talvez, o nosso pavor secreto seja descobrir que o encanto da literatura reside menos na experiência sensível da narrativa do que em combinar repertório, ritmo, memória e linguagem.
Literatura não é apenas construção verbal. A inteligência artificial pode até criar um discurso sensível sobre o significado de ostentar e honrar cicatrizes. Mas nunca escreverá como quem vivenciou um processo real de cicatrização.
Suspeito, só suspeito, que o futuro da literatura não será uma guerra entre os seres humanos e os algoritmos. Leitores continuarão buscando livros que lhes devolvam experiências humanas autênticas. Santa ingenuidade, retruca meu amigo.
Talvez a pergunta seja um pouco mais filosófica: se a inteligência artificial aprender a escrever com sensibilidade humana sobre dor, amor, ausência e medo, o que sobrará no Universo para provar que um dia estivemos realmente vivos?
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