Numa tarde de Junho, sol aberto, o Armando recebeu um recado de um conhecido para se encontrar com dois indivíduos que queriam falar com ele. Sobre o assunto da conversa, o outro apenas dizia que era do interesse dele e que seria melhor comparecer. Era um sábado e ficou aborrecido por não poder passar a tarde com a filha. Dir-se-ia que o Armando estava na fase que, no baloiço, corresponde ao impulso.
Perguntava-se o que quereriam dele; provavelmente, falar do desastre. Deviam ser jornalistas ou engenheiros disto e daquilo que andavam a tentar descobrir agulha em palheiro para exolicar a queda do Cessna. O Armando suspeitava sempre destes tipos, prontos a sacrificar qualquer um, para ficarem bem vistos nos seus cargos. Uma espécie de abutres em voo, planando à espera de que a vítima sucumba para descerem à terra. Foi com este sentido que o Armando me perguntou se eu não queria estar nas imediações. Respondi que sim.
A Arte Pendular do Baloiço, de António Tavares