PASSE
então decidiu ser sem relógios
e agora dorme com mouros e papalvos
e ouve trombetas e se quiser contrai escarlatina
e alimenta pombos nas fotografias dos turistas
e não depende de ponteiros
nem de aguaceiro ou de fresca
e tanto pode ser a velha renga a segurar sacolinhas
quanto o guarda noturno que espia vergonhas nuas
quanto o caracol abolido por falta de estiga
quanto as mãos instruídas que adivinham
cadências vulcânicas e gritos de anacronia
quanto a jovem crua e negligente
com aquilo que lhe escorre pelas coxas
quanto o vilão com cara de flandres
que apodrece em circunstância de bruma
quanto a menina antiquíssima que se fia
em angras e vaus e reticências
quanto o cardeal a abençoar sopa nenhuma
quanto a estátua movediça que cala e consente
quanto o helianto que acompanha a lua
quanto a boca que se esqueceu como é
que se mastiga
HISTÓRIA NATURAL
Manhã inteira revisando um livro mergulhada
na nossa língua portuguesa e as regras que prevalecem
café lentamente e olhar pela janela olhando olhando
bem longe muito longe mesmo a serra do mar — lá está
encoberta (lá está pra sempre neste minuto)
olhando a árvore de nome comprido: sibipiruna do qual
sempre me esqueço está depenada pelo inverno
mas a canjarana persiste mas a canafístula perdura mas
o araribá resiste às piores geadas e o freixo-comum
e a lavanda floresce e suporta a escassez suporta as
temperaturas mais frias porque como os pássaros
têm estratégias têm corportamentos vários por exemplo
hibernação ou a inquietude migratória tudo é estratégia
a minha: o mergulho na revisão da língua do livro e
às vezes olhar pela janela à espera de quando
eu mesma puder voltar.
ACONTECIDO
buscava a outra claridade
aquilo do invisível que o gato vê
aquilo de esmero na confusão do jardim
buscava o outro ouro
aquilo do magma no exercício de fundir-se
aquilo do frescor num recitar juramento
buscava o outro final da saga
aquilo de soprar deixas no escuro
aquilo de fundar os dogmas juntos
buscava a outra simetria
aquilo de imortal na ode ao rosário
aquilo de avocar a rescisão das jaulas
além de tudo buscava
cavalos já saciados numa fortuna
de pasto de verão e de afago
além de tudo buscava
a mesma boca a mesma sede fecunda
no querer da mesma água
num só trago
INCOMBINADOS
esta algazarra dentro do peito
esta noite longuíssima
o sinal que fecha
e eu tanta pressa
essa valsa em que se tropeça
eu tentando segurar as águas
querendo soltar as rédeas
regando o que quer que seja que fosse
e esse estar alheio a tudo que é de fora
esse dia cheio de tantas horas
o sinal que abre e eu a marcha lentíssima
cena editada esse iceberg no meio da estrada
tal o inesperado abraço no vagão do metrô
e vem taquicardia mas é retrô e só rima
fanfarra tal gambiarra no meu peito
essa prece indébita tal mal súbito
a alforria que foi parar no lixo
esse lapso esse colapso
a praxe do trocadilho
esse não faz isso
esse está feito
esse vício
AOS PÉS DA LETRA
não sei você
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
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