Caroline Barbosa

Lorna Simpson: Uma grade de fotografias em preto e branco mostrando a parte de trás da cabeça de uma mulher com diferentes penteados, acompanhadas por etiquetas de texto no centro.

Crédito da imagem: Stereo Styles, de Lorna Simpson, 1988. 

O arquivo colonial da escravidão é composto de cadernos comerciais, diários de feitores, registros de embarcações e processos de perda de mercadoria humana. Na análise de Saidiya Hartman, esses documentos apresentam a vida negra a partir do encontro com o poder colonial e a violência instaurada por ele. É assim que essas vidas chegam até nós, com dados mínimos, mediados pelo olhar do outro. Não sabemos o que eles pensaram, sentiram ou tentaram fazer diante desse processo de subjugação. Como narrar diante dessa falta? Como representar sem repetir a interdição colonial?

Para Hartman, esse problema implica em uma ética da representação histórica, pois exige refletir sobre como se aproximar daquilo que não foi registrado e que a história não se empenhou em guardar. Ela não quer replicar a forma de registro e nem a linguagem que causou o silenciamento e a violência. Os elementos mobilizados e a maneira como são utilizados podem instaurar outra forma de visualizar as vidas negras e isso exige cuidado, uma vez que não deseja produzir respostas fixas e assertivas sobre o que está ausente ou sobre a comunidade negra.

Nesse contexto, Hartman desenvolve o método da fabulação crítica, que trabalha com e contra o arquivo. Isso significa que reparar a violência é evidenciar, descrever, mostrar os contornos desse documento histórico ao invés de preencher os vazios. Para isso, sua estratégia é constituída da especulação, do questionamento e do uso do subjuntivo para explicitar o que foi soterrado. 

A partir desse movimento de Hartman, me interessa pensar como seria  uma ética da representação literária negra que não reforce o mesmo silenciamento que permeia o arquivo e nem busque estabelecer afirmativas estabilizadoras e homogeneizantes da experiência negra.

É nesse ponto que há um diálogo produtivo com a escritora Dionne Brand. Em Salvamento: Leituras do naufrágio, ela investiga como obras clássicas da literatura inglesa auxiliaram na sustentação do projeto imperialista. Ao analisar romances como Jane Eyre e Robinson Crusoé, ela demonstra como a ideia de sujeito universal, ancorado na branquitude, embarca em uma jornada individual que alcança seu desfecho positivo a partir da exploração do colonizado. Nesse tipo de narrativa, o sujeito negro, quando aparece, torna-se um detalhe ou obstáculo que possibilita que a personagem branca consiga realizar sua aventura. 

Nesse percurso analítico, Brand identifica que há uma pedagogia imperialista em funcionamento. O texto literário, nesse sentido, não apenas representa o mundo colonial, mas torna-se também um espaço de aprendizagem através das camadas que a estrutura narrativa e a linguagem mobilizam: quem merece receber destaque, quem é considerado sujeito, quem é relegado à condição de empecilho, perversidade e imoralidade. 

Brand, dentro do terreno do literário, preocupa-se em como contrapor essas narrativas, uma vez que ela não quer que o corpo negro seja incluído, mas considerado. Dessa forma, a pesquisadora não está interessada em textos que reescrevem o que foi deturpado no texto clássico, mas no que cria novas formas de visualização da experiência negra. Além disso, ela também não quer criar um novo sistema de orientação estabilizado de como apreender a negritude. Seu interesse está em formas de narrar que celebrem a comunidade, explorem a multiplicidade de vozes e pontos de vista, complexificando a vida negra. 

Uma obra da literatura contemporânea que torna-se interessante para pensar essas questões é Stardust, de Leonora Miano. A narrativa acompanha a jornada de Louise, camaronesa que reside na França. Por conta de uma gravidez inesperada, ela perdeu a bolsa de estudos que motivou a ida ao país.  Nessa situação, a jovem precisa do auxílio governamental para reestruturar a sua vida e poder cuidar da filha pequena. 

Embora Louise seja a personagem central, o texto não se fecha em sua experiência individual. O narrador, que focaliza em Louise, proporciona uma leitura de seu mundo interior para demonstrar que a personagem não é ensimesmada. Ela indaga, contesta, analisa e entende as limitações de acessar o outro:

Um calafrio a percorre. Ela fecha a janela. Ver a dor do outro não dá nenhuma compreensão sobre ele. Há que saber muitas coisas, remontar e se projetar muito longe para realmente compreender alguém. Crimée não dá muito espaço para isso. E essas mulheres tão conversadeiras só contam aquilo que lhes dá vontade. Inventam, muitas vezes. A começar para si próprias. Mesmo se aproximando, não é fácil conhecê-las. Só se pode presumi-las. 

O trecho parece condensar uma ética da representação literária negra. Não é interesse de Miano compor Louise de forma heroica aos moldes da tradição europeia. Nem ela nem as mulheres ao seu redor são construídas de maneira transparente e como versões exemplares da experiência negra. Há uma situação compartilhada na obra, lutar por melhores condições de vida, mas isso não apaga suas contradições, singularidades e experiências próprias. 

Hartman e Brand, seja no manejo com o arquivo historiográfico ou na elaboração literária, parecem estar preocupadas não em representar o sujeito negro, mas o que fazemos quando tentamos representar alguém. Contrapor os discursos oficiais talvez seja pensar como narrar uma comunidade sem explicá-lá de forma definidora e sim aceitando seu direito de permanecer opaca.