O poema é um ato de extrema resistência contra a imobilidade e o “deserto”, um “traço de alarme” lançado a partir de um misto de vulnerabilidade e de risco de quem se “cose” com agulhas de sangue para o enunciar: compelido por esse urgente compromisso, diante das ameaças do vazio e da esterilidade, o poeta empreende um combate vital, um autossacrifício encarniçado que se realiza num terreno sobremodo instável.

Correndo perigos por todos os lados, o poema, dessarte, lança mão de saídas radicais: decompor-se na insignificância, consumir-se no fogo de sua própria intensidade, fragmentar-se ou empreender uma viagem quase impraticável em direção ao sublime – o que denota, em suma, o potencial que tem para orientar-se a duas sendas antitéticas, vale dizer, ou bem autodestruir-se ou bem aprimorar-se.

J.A.R. – H.C.

Maria Adelaide Amaral: Retrato em preto e branco de uma mulher com cabelos curtos e gola alta escura.

Luiza Neto Jorge

(1939-1989)

O Poema

I

Esclarecendo que o poema

é um duelo agudíssimo

quero eu dizer um dedo

agudíssimo claro

apontado ao coração do homem

falo

com uma agulha de sangue

a coser-me todo o corpo

à garganta

e a esta terra imóvel

onde já a minha sombra

é um traço de alarme

II

Piso do poema

chão de areia

Digo na maneira

mais crua e mais

intensa

de medir o poema

pela medida inteira

o poema em milímetro

de madeira

ou apodrece o poema

ou se ateia

ou se despedaça

a mão ateia

ou cinco seis astros

se percorre

antes que o deserto

mate a fome

Em: “Terra Imóvel” (!964)

unknown: Uma ilustração digital de uma paisagem de deserto com dunas de areia, cactos variados e montanhas ao fundo sob um céu de pôr do sol.

(Imagem sem créditos)

Referência:

JORGE, Luiza Neto. O poema. In: __________. Poemas de Luiza Neto Jorge. Antologia por Fernando Cabral Martins. 1. ed. Lisboa, PT: Editorial Presença, dez. 1997. p. 9-10.