Tinha lido A Disciplina do Amor há alguns anos e já nessa altura fiquei com vontade de explorar mais da obra de Lygia Fagundes Telles. O problema é que os seus livros nem sempre são fáceis de encontrar em Portugal.

Capa do livro As Meninas de Lygia Fagundes Telles

As Meninas foi finalmente a minha segunda experiência com a sua obra, e foi uma leitura mais exigente do que estava à espera. Durante as primeiras dezenas de páginas senti-me perdida. Não percebia bem quem estava a falar, quem estava a pensar, nem sequer quem era quem. Lygia Fagundes Telles recorre constantemente ao fluxo de consciência, alternando entre as vozes das personagens com uma rapidez impressionante. Em partes, o POV muda várias vezes ao longo da mesma página, misturando diálogos, memórias, pensamentos e associações livres sem aviso prévio.

O romance acompanha três estudantes universitárias que vivem num pensionato de freiras em São Paulo durante os anos da ditadura militar brasileira. Lorena, Lia e Ana Clara vêm de mundos completamente diferentes, mas partilham uma amizade que se torna no centro da narrativa.

Lorena pertence à alta burguesia, é romântica, privilegiada e vive suspensa entre os valores conservadores com que foi criada e os desejos que não consegue concretizar. Lia é uma militante política de esquerda, profundamente envolvida na resistência ao regime. Ana Clara, por sua vez, traz consigo um passado marcado pela pobreza, pelos abusos, pela violência e pelas drogas.

Gostei muito da forma como Lygia constrói estas três personagens. Cada uma representa uma experiência distinta, mas nenhuma se reduz a um símbolo. São personagens contraditórias, imperfeitas e extraordinariamente vivas. Apesar da amizade que as une, tive frequentemente a sensação de que as três protagonistas se encontravam em universos paralelos. Tentam compreender-se, ajudar-se e aproximar-se umas das outras, mas parece haver sempre alguma coisa que falha.

Foi talvez Ana Clara quem mais me marcou. Os seus capítulos são muitas vezes difíceis de ler. As suas memórias de violência, abandono e abuso atravessam a narrativa com uma força devastadora.

“Fico tomando sol porque não posso tomar o homem que amo”, pensou mastigando mais energicamente. E Ana Clara? As coisas que tomava seriam para substituir o casaco de onça? O Jaguar? E se fosse simplesmente porque não conheceu o sol, a infância, Deus. “Tudo que tive e ainda tenho, tão triste ir buscar lá fora o que devia estar aqui dentro.”

Publicado em 1973, durante um dos períodos mais repressivos da ditadura militar brasileira, As Meninas fala com uma frontalidade admirável sobre sexualidade feminina, masturbação, gravidez indesejada, aborto, drogas, desigualdade social e repressão política. Através das suas protagonistas, Lygia Fagundes Telles dá voz a temas que raramente eram discutidos abertamente. O romance inclui referências à repressão do regime, à perseguição política, à militância estudantil, ao desaparecimento de opositores e até à tortura praticada pelos militares. A própria autora disse mais tarde que receava problemas com a censura por causa de uma passagem relacionada com tortura, e existe um relato bastante conhecido segundo o qual essa parte acabou por escapar ao censor porque estava perto do final do livro.

É fácil perceber porque As Meninas é frequentemente apontado como um dos grandes romances brasileiros sobre a ditadura. Sem nunca se transformar num panfleto, consegue mostrar como a violência política invade a vida quotidiana das pessoas e condiciona os seus sonhos, relações e escolhas. Ao mesmo tempo, a dimensão política nunca se sobrepõe completamente à dimensão humana: é um romance sobre juventude, amizade, solidão e a procura de um lugar no mundo.

Quero te dizer também que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões.

Não adorei o estilo narrativo. Reconheço a enorme capacidade técnica da autora e percebo perfeitamente o intuito, mas nem sempre funcionou para mim enquanto leitora. Houve momentos em que senti que o esforço necessário para acompanhar as mudanças de voz e de tempo me afastava da própria história.

No final, fica sobretudo a esperança destas meninas. Apesar do contexto político, das limitações sociais e dos traumas, continuam a sonhar, a fazer planos e a acreditar que a vida pode ser diferente.

Esgotadíssimo na Editorial Presença há anos. Procurem nas bibliotecas.

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