Mais do que uma paisagem estival, este poema de Rich é uma viagem a partir de observações que lhe são externas até uma profunda revelação interna, a resultar numa cisão com o passado traumático, num grito de autonomia e de ruptura radical com as estruturas que compõem o núcleo do patriarcado: a propriedade paterna sobre os filhos – especialmente os varões e os herdeiros –, arrimada em controles, violências quotidianas e em encenações egoístas de pretensos sofrimentos que tentam disfarçar as ganas da opressão.
As linhas cruciais e mais radicais do poema – “se sou morte para o homem / preciso sabê-lo” – revelam, por parte da falante, esse imperativo categórico de autoconhecimento, disruptivo e estarrecedor, a demarcar o fim de um “conceito” de homem, de uma forma de poder masculino que a define e a limita, tanto física quanto psiquicamente.
J.A.R. – H.C.
Adrienne Rich
(1929-2012)
August
Two horses in yellow light
eating windfall apples under a tree
as summer tears apart milkweed stagger
and grasses grow more ragged
They say there are ions in the sun
neutralizing magnetic fields on earth
Some way to explain
what this week has been, and the one before it!
If I am flesh sunning on a rock
if I am brain burning in fluorescent light
if I am dream like a wire with fire
throbbing along it
if I am death to man
I have to know it
His mind is too simple, I cannot go on
sharing his nightmares
My own are becoming clearer, they open
into prehistory
which looks like a village lit with blood
where all the fathers are crying: My son is mine!
Solstício de verão:
em memória da castanheira americana
(Charles E. Burchfield: pintor norte-americano)
Agosto
Dois cavalos na luz amarela
comendo, debaixo duma árvore, maçãs derrubadas pelo vento
enquanto o verão se desfaz, as plantas cambaleiam
e a relva fica crestada
Dizem que há íons no sol
neutralizando campos magnéticos na terra
Que maneira de explicar
o que foi esta semana e a que a precedeu!
Se eu sou carne tostando sobre pedras
se eu sou cérebro queimando na luz fluorescente
se eu sou sonho como um fio flamante
pulsando com ele
se eu sou morte para o homem
preciso sabê-lo
Sua mente é simples demais. Não posso continuar
compartilhando seus pesadelos
Os meus próprios tornam-se mais claros, abrem-se
para a pré-história
que parece um vilarejo aceso com sangue
onde todos os pais estão gritando: Meu filho me pertence!
Referência:
RICH, Adrienne. August / Agosto. Tradução de Olga Savary. In: KEYS, Kerry Shawn (Org.). Quingumbo - Nova poesia norte-americana: antologia. Edição bilíngue: inglês x português. Vários tradutores. São Paulo, SP: Escrita, 1980. Em inglês: p. 174; em português: p. 175. (Coleção “Marginais, profetas e malditos”)
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