Minha Querida Sputnik (Murakami, Haruki)
Na época, Sumire — “Violeta” em japonês — concentrava todos os seus esforços em se tornar uma escritora. Não importa quantas opções a vida colocasse em seu caminho, era romancista ou nada. A sua determinação era um rochedo de Gibraltar. Nada se interpunha entre ela e sua fé na literatura.
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(…) as coisas inúteis também não têm um lugar neste mundo longe de ser perfeito?
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(…) porém se estava com alguém de quem não gostava — em outras palavras, a maioria das pessoas no mundo — mal abria a boca.
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Ela levava um exemplar, com folhas marcadas, de On the Road ou Lonesome Traveler enfiado no bolso de seu casaco, folheando-o sempre que tinha chance. Toda vez que se deparava com frases de que gostava, assinalava-as com lápis e as memorizava como se fossem a Escritura Sagrada.
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Os olhos das pessoas se esbugalhariam diante da estréia súbita dessa Jovem Escritora Promissora de Raro Talento. Uma foto sua, sorrindo indiferente, seria publicada na seção de arte do jornal, e choveriam editores na sua porta.
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Devorar livros era tão natural para nós quanto respirar. Cada momento de folga, nos instalávamos em um canto quieto, virando páginas interminavelmente.
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Sumire estava completamente determinada a criar um Romance Completo no estilo do século XIX, uma espécie de mala cheia de todos os fenômenos possíveis para capturar a alma e o destino humano.
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Uma história não é algo deste mundo. Uma verdadeira história requer uma espécie de batismo mágico para ligar o mundo deste lado ao mundo do outro lado.
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Na semana anterior, eu tinha sido encarregado de organizar uma reunião e só conseguira cochilar algumas horas, enquanto juntava todos os documentos importantes (leia-se insignificantes).
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Eu sabia que não voltaria a dormir. Preparei um bule de café, puxei uma cadeira para perto da janela e me sentei, comendo, ruidosamente, queijo e biscoitos. Fiquei ali, lendo, esperando amanhecer.
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Adorava ler romances por distração, mas não escrevia bem o suficiente para ser um romancista; ser editor ou crítico também estava fora de questão, já que as minhas preferências eram extremas. Os romances eram para o puro deleite pessoal, achava eu, não faziam parte de estudo ou trabalho.
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O mundo tinha perdido todo senso de realidade. As cores eram artificiais, os detalhes crus. O fundo era de papel machê, as estrelas feitas com lâminas de alumínio. Dava para ver a cola e a cabeça dos pregos mantendo tudo junto.
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Só queria permanecer assim o resto da vida. Eu sabia que era impossível. Nossa vida aqui era apenas uma ilusão momentânea, e, um dia, a realidade nos puxaria de volta ao mundo de onde tínhamos vindo. Mas, até essa hora chegar, eu queria aproveitar cada dia o máximo possível, sem me preocupar com nada.
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O povo da ilha nem mesmo olhava de relance ao passar pela estátua depauperada, e o próprio monumento parecia ter dado as costas ao mundo.
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(…) apesar de sermos companheiras de viagem maravilhosas, no fundo, não passávamos de duas massas solitárias de metal em suas próprias órbitas separadas.
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Diariamente, costumo escrever para entender quem eu sou.
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Tinha sido um longo dia que, finalmente, acabara, deixando para trás apenas recordações casuais.
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Aproximamo-nos cada vez mais do fim da dimensão do tempo que nos foi estipulado, dando-lhe adeus enquanto vai minguando. Repetindo, quase sempre habilmente, as proezas sem fim do dia-a-dia. Deixando para trás uma sensação de vazio imensurável.
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