Só há umas semanas me dei conta de que este livro sou eu. O segundo romance, a segunda filha. A associação ocorreu-me quando senti agudas dores de parto (não tenho como fugir a estas metáforas), idênticas às dores que a minha mãe sentiu no meu nascimento. O parto foi especialmente doloroso. O meu pai estava na tropa, a meses de ser mobilizado para a guerra colonial.
Escrever este livro devolveu-me a um tempo primordial.
No começo (da escrita do livro, e, quem sabe, de quem eu sou), estava a palavra deslibido, um neologismo que exprime um desinvestimento, uma ausência de desejo, no corpo próprio e no corpo da vida. É a infelicidade de estar de luto pela vida, escrita por Tchekhov em A Gaivota. Quem o diz é a personagem Masha.
Entrando Masha em cena, já me interrompo para identificar uma constelação. Dela faz parte o Pedro Penim, que me chama Masha e me promete que farei de Masha se alguma vez encenar A Gaivota, e que escreveu e encenou Pais e Filhos. Além da amizade, partilhamos a centralidade deste vínculo amoroso no trabalho que desenvolvemos: o modo como somos filhos, a relação com os nossos pais, o desejo de sermos pais.
Eu não sou mãe, mas sou filha.
Ter lido Annie Ernaux ajudou-me a encontrar a minha voz e a apurar a escuta de mim mesma. A compreensão de que a escritora francesa escreve quase sempre no corpo de filha constituiu um nervo importante. Não tenho memória de a ler no corpo de mãe de dois rapazes. Na essência está a vergonha, a incomunicação, ser uma trânsfuga de classe, a vontade de vingar os seus, os pobres, na escrita. Disse-o no discurso de aceitação do Nobel.
Mais do que um ensinamento, isto foi um clarão. Eu queria honrar e vindicar no que escrevo a minha mãe, a minha avó, uma genealogia de mulheres que trabalham e são desconsideradas. Uma fúria e um sentido de justiça impeliam-me a nomear estas Auroras. É assim que lhes chamo nas dedicatórias. É assim que chamo a uma personagem d’ O Quarto do Bebé, inspirada numa pessoa muito amada, a Maria de Sousa. Então, dei-lhe o nome Aurora, o nome da minha avó materna.
Os nomes dizem muitas coisas. As que estão lá, as implícitas, as simbólicas. A autora dos cadernos chama-se Ester. Eu quase fui Ester. Ester é um nome da minha família. Por fim, o meu pai ou a minha mãe (eles ainda disputam quem mudou de ideias) chamaram-me Anabela. Não pensei que em Ester estão as primeiras letras de esterilidade. E não foi para acentuar um contraste que chamei à filha do psicanalista Conceição, embora o resultado seja também esse. A génese é outra. Quis prestar tributo a uma Conceição que é uma Aurora, a Conceição Matos.
Estou, portanto, a falar de luta de classes.
Deslibido, luto e luta são os núcleos desta Casa.
Comecei pelo que é primevo e triste. Apesar de se tratar de uma ficção, não o sinto mais distante de quem eu sou — pelo contrário. Entrei nesta Casa pelos caminhos de sombras e fantasmas que são os do sonho. A imaginação pode dar a ver com nitidez o que resiste à consciência.
Não sei como, tive coragem para me encapsular de um modo radical no corpo-casa da minha mãe, da nossa relação, nesta sucessão de Auroras que encarnamos. Vi-me, nesta indagação, a montar um presépio mítico em que somos crianças messiânicas, a iniciar-me num movimento de passagem, num rito de passagem. Um dia, eu serei aquela que vi a minha mãe ser no funeral da minha avó.
Mexer nos alicerces da vida, no começo e no fim, rondar a morte, a efectiva e as suas aparições, é um estremeção para que só agora me senti preparada.
Escrevi este livro num tempo comatoso. Um tempo de espera em que parece que nada acontece, em que se tacteia e não se sente nada, num tempo de germinação funda, sem vislumbre de luz.
Deixamos de acreditar na Primavera. E é um erro. Claro que há uma vida invisível, subterrânea, turbulenta, até ruidosa a acontecer. O difícil é chegar a ouvir, encontrar os caminhos. E mesmo quando me pareciam interrompidos ou intransponíveis, ao escrever, a minha libido conhecia uma expressão. Eram sinais vitais. Era afinal o que o Zé António me dizia ao longo dos anos: a escrita era a minha casa. Uma forma de viver ao relento e uma invólucro protector. A escrita é o mundo psíquico do sonho de Jung, com labirintos e alçapões (para trazer um verso de Chico), a consciência na sala de estar, o meu eu bruto e homicida no porão, transpostas umas escadas de pedra.
Escrever é uma procura, uma urgência, um resgate, uma tentativa de reparação, um exercício de adivinhação, um diálogo com muitos que convergem nos planos mais inusitados, com atributos que só lhes pertencem na medida em que participam num diálogo primo que enceno.
Quando andava na escola secundária, aprendi um ditado (um jogo homófono): une mère a dit à une autre mère que la mère etait amère. Voltei a pensar nele quando vi a maravilhosa colagem de Noé Sendas que está na capa. Pensando O Quarto do Bebé e Na Casa da Minha Mãe como partes de um díptico, era natural que o Noé continuasse comigo. E esta imagem dizia-me plenamente, suscitava em mim o sobressalto da viagem e o peso amargo da opressão, a dor sob a superfície. Dizia-me na deflagração das ondas, na necessidade de mergulhar no continente aquoso e uterino da memória, na minha e na nossa ancestralidade.
Escrevi cada linha de Na Casa da Minha Mãe até ao último instante. Fui uma costureira que tenta pontear com o tecido já no corpo, em movimento. Acordei das profundezas com tenazes no lugar das mãos, compus um faqueiro desirmanado, areei quanto pude, perguntei-me se gostaria deste bebé-livro. Parece que também as mães têm dúvidas: se serão capazes de cuidar os seus bebés, se serão capazes de os amar suficientemente. Sem dúvida, eu estava grávida.
Nestas palavras, estão as epígrafes, as dedicatórias, títulos de capítulos.
Jung e Tchekhov estão no lugar das epígrafes, à entrada. Dentro, imersas no texto, estão Annie Ernaux e Pedro Penim. Falam da vida onírica, da infelicidade e do luto, da luta de classes, de estar num lugar entre, um não lugar marcado pela despertença.
Há outras citações.
Uma canção que fala da dor da gente que não sai no jornal. Este desencontro, entre o que é publicitado e o nosso ser íntimo, é um dos vários desencontros do livro. Ester lê para a mãe numa cama de hospital. Não lê tudo, embora se escreva toda. Isto é: porque é que há coisas de que não conseguimos falar, nem com as nossas mães? E porque é que escrevemos, escrevo; para quem é que escrevo, se o aparente destinatário não me pode acolher; a quem é que lego esta pulsão vital, patrimonial, criativa?
Muitas perguntas. Que sempre me interessam mais do que as respostas. O caminho da dúvida, do questionamento, da formulação que se faz com facas rombas, é-me mais fértil.
Outro desencontro que começo a esboçar neste livro é o que está na aprendizagem da escrita e da leitura. Sei situar, sem hesitação, os espaços. Aprendi a ler e a escrever formalmente na escola primária, aprendi a escrever no amor dos meus pais, aprendi a ler o mundo também nessa casa, com estes protagonistas. Para trazer outra canção, de Caetano e de Roberto, tudo certo como 2 e 2 são 5. A aritmética do amor (e do mundo) é outra.
Obrigada pela confiança, pelo entendimento e pelo entusiasmo à minha editora Lúcia Pinho e Melo e nela a toda a equipa da Quetzal.
Obrigada à minha mãe. Espero que me perdoe ter desobedecido à sua ordem (isto não é para pores nos livros!), e publicado as maluquices que invento. Tenho muita sorte em ter uma mãe assim.
Texto-base das apresentações em Lisboa e no Porto, Biblioteca das Galveias e Galeria da Biodiversidade, a 19 e 24 Maio.