Na França do século XVI, mergulhamos na vida de Marguerite de La Rocque, uma jovem aristocrata cujo destino é abruptamente alterado pela morte precoce dos pais: «Não conheci a minha mãe. Ela morreu na noite em que nasci, e foi assim que nos cruzámos na escuridão (…) Também não conheci o meu pai. Quando eu tinha três anos ele morreu a combater. (…) Fiquei então rica.» A ambição implacável do seu guardião, que a conhece quando ela tem 9 anos, mergulhou a sua existência numa sombra de sofrimento.
O romance acompanha a transformação de uma menina privilegiada, rodeada de luxo e segurança, numa mulher resiliente, capaz de sobreviver às condições mais extremas numa ilha desolada da Nova França. Allegra Goodman inspira-se na história real de Marguerite, reconstruindo com sensibilidade e rigor histórico a sua odisseia de solidão, sobrevivência e autodescoberta.
A autora destaca-se na construção de um enredo envolvente, com capítulos ritmados e cliffhangers que mantêm o leitor em constante tensão. A narrativa explora o confronto entre privilégio e vulnerabilidade, revelando, através da protagonista e da sua ama Damienne, temas universais como a força interior, a fé, a identidade e a resistência humana. A prosa lírica da autora americana imprime elegância e intensidade emocional à história.
Isola é, simultaneamente, uma epopeia histórica e uma reflexão sobre a autonomia feminina. A autora (que publicou os livros Sam, The Other Side Of The Island, Paradise Park, entre outros) consegue equilibrar factos históricos sem idealizar ou suavizar as dificuldades enfrentadas.
A história de Marguerite, privada de tudo e obrigada a enfrentar a Natureza, é uma poderosa celebração do espírito humano e da capacidade de adaptação e coragem. Para quem aprecia romances históricos que combinam pesquisa meticulosa, lirismo e personagens femininas fortes, Isola é uma leitura memorável e inspiradora. Excerto
«A nossa ilha era, ao mesmo tempo, bela e estranha. Sob a luz matinal, as ondas eram prata líquida. A neblina colava-se a nós e era como se caminhássemos no meio de uma nuvem branca. Ao largo, as aves marinhas esvoaçavam em círculos e mergulhavam no mar para apanhar peixes.» (p. 229)
«Isola», de Allegra Goodman
romance histórico, sobrevivência em isolamento, autonomia feminina, França do século XVI, ficção baseada em factos reais
Texto originalmente publicado em Silêncios que Falam
