O poeta norte-americano Allen Ginsberg dispensa comentários de apresentação. Por isso, passemos diretamente à avaliação do poema em epígrafe, transposto ao português em versão própria deste bloguinho: como se nota por intermédio de sua leitura, trata-se de soneto cujos termos ainda se encontram longe do poeta desbragado que conhecemos!

Afinal, ele foi extraído de uma de suas primeiras obras. Ainda assim, já se percebem experiências de vida e delineamentos linguísticos que viriam a se consolidar com o passar dos anos, em sua vasta obra poética.

J.A.R. – H.C.

Allen Ginsberg: Retrato em preto e branco de um homem barbudo com óculos, segurando uma pequena flor e fazendo um gesto de 'ok' com a mão.

Allen Ginsberg

(1926-1997)

I dwulled in Hell

After Reading Kerouac’s Manuscript

“The Town and the City”

I dwelled in Hell on earth to write this rhyme,

I live in stillness now, in living flame;

I witness Heaven in unholy time,

I room in the renowned city, am

Unknown. The fame I dwell in is not mine,

I would not have it. Angels in the air

Serenade my senses in delight.

Intelligence of poets, saints and fair

Characters converse with me all night.

But all the streets are burning everywhere.

The city is burning these multitudes that climb

Her buildings. Their inferno is the same

I scaled as a stupendous blazing stair.

They vanish as I look into the light.

(“Empty Mirror: Gates of Wrath” / 1947-1952)

David Teniers o Jovem (atribuído): Pintura a óleo de estilo barroco retratando uma cena mitológica ou alegórica com figuras clássicas, macacos antropomorfizados, um cão de três cabeças (Cérbero) e arquitetura antiga sob um céu nublado.

Os Portões do Inferno

(Cornelis Saftleven: pintor holandês)

Alojei-me no Inferno

Depois da Leitura do Manuscrito de Kerouac

“Cidade pequena, cidade grande”

Alojei-me no Inferno sobre a terra para redigir esta rima,

Vivo agora em silêncio, em animada chama;

Dou testemunho do Céu neste tempo profano,

Ocupo um aposento em cidade de renome, sou

Desconhecido. Não é minha a fama de onde resido,

Eu não a teria. Anjos no ar

Cantarolam meus sentidos em deleite.

A inteligência dos poetas, santos e pessoas

Corretas conversam comigo noite adentro.

Mas todas as ruas estão ardendo onde quer que seja.

A cidade está abrasando essas multidões que escalam os

Seus edifícios. Seu inferno é o mesmo

Que escalei por meio de uma estupenda escada em chamas.

Elas desaparecem assim que diviso a luz.

(“Espelho Vazio: Portões da Ira” / 1947-1952)

Tradução de J. A. Rodrigues

Referência:

GINSBERG, Allen. I dwulled in hell. In: __________. Collected poems: 1947-1985. 2nd. ed. London, EN: Penguin Books, 1995. p. 5.