Há neste soneto de Hopkins a confissão íntima de um homem que se sente preso entre lealdades antagônicas; estranho nos diversos âmbitos de sua existência – familiar, nacional ou hierático –; enleado, destarte, numa pesarosa autopercepção de exílio, de alienação, de crise espiritual.
Primeiramente, tal estranhamento se intensifica dentro de sua própria família de fé anglicana, ao converter-se ao catolicismo, logo se tornando um sacerdote jesuíta; depois, em relação à sua pátria – a Inglaterra –, ao encontrar-se em ministério na Irlanda, então atormentada por tensões políticas e religiosas; e, por fim, em seu próprio canal de comunicação com o divino, cuja voz poética se mostra velada, circunscrita a um ser incompleto e apartado, privado, por conseguinte, de seu pleno potencial de realização.
J.A.R. – H.C.
Gerard Manley Hopkins
(1844-1889)
To seem the stranger lies my Lot, my life
To seem the stranger lies my lot, my life
Among strangers. Father and mother dear,
Brothers and sisters are in Christ not near
And he my peace / my parting, sword and strife.
England, whose honour O all my heart woos, wife
To my creating thought, would neither hear
Me, were I pleading, plead nor do I: I wear-
Y of idle a being but by where wars are rife.
I am in Ireland now; now I am at a thírd
Remove. Not but in all removes I can
Kind love both give and get. Only what word
Wisest my heart breeds dark heaven’s baffling ban
Bars or hell’s spell thwarts. This to hoard unheard,
Heard unheeded, leaves me a lonely began.
Dublin, 1885
(Posthumous publ.)
A leitura do sacerdote
(Ferdinand Hodler: pintor suíço)
Ser estrangeiro é minha sina e vida
Ser estrangeiro é minha sina e vida, em meio
A estrangeiros. Meu pai e minha mãe amados,
Irmãos e irmãs em Cristo de mim apartados,
Só Ele meu partir / meu porto, espada e esteio.
A Inglaterra que eu honro como esposa, cheio
De sonhos de criar, não movem nem cuidados
Nem rogos, nem rogar eu ouso, desolado s-
ócio de um lar que gera guerras em seu seio.
Agora estou na Irlanda e é já a terceira ida
Ao longo exílio. Não que o exílio iniba o gesto
De amor, amar. Mas a palavra mais querida
Que eu crie o céu cinzento ceifa presto
E o inferno enfeia em fel, do povo não ouvida
Ou, se ouvida, olvidada. E eu solitário resto.
O estranho
(Leilani Bustamante: artista norte-americana)
Parecer um estranho é minha sina, minha vida
Parecer um estranho é minha sina, minha vida
Entre gente estranha. Pai e mãe benquistos,
Meus irmãos e irmãs estão longe em Cristo,
E ele – minha paz, exílio, espada e lida.
Esposa de meu pensamento, amada Inglaterra,
Cuja honra meu coração venera, meus lamentos
Não ouviria, nem nada pleiteio: só já não aguento
Estar assim ocioso, onde é sem trégua a guerra.
Na Irlanda estou agora, em terceira remoção.
Em nenhuma, porém, pude doar o doce amor
Ou colhê-lo. Até mesmo a mera palavra melhor
Que brote em meu coração, frustra-a a proibição
Do céu; ou o inferno a distorce. Minha palavra não ecoou,
E entesourá-la, não ouvida, faz de mim um pobre “principiou”.
Referências:
HOPKINS, Gerard Manley. To seem the stranger lies my Lot, my life / Ser estrangeiro é minha sina e vida, em meio. Tradução de Augusto de Campos. In: __________. A beleza difícil. Introdução e traduções de Augusto de Campos. São Paulo, SP: Perspectiva, 1997. Em inglês: p. 46; em português: p. 47. (Coleção “Signos”; v. 20)
HOPKINS, Gerard Manley. To seem the stranger lies my Lot, my life / Parecer um estranho é minha sina, minha vida. Tradução de Aíla de Oliveira Gomes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas de de Aíla de Oliveira Gomes. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1989. Em inglês: p. 130; em português: p. 131.
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