Trechos do livro Recursão, de Blake Crouch. Li sobre o livro na Folha de São Paulo e me interessei. Versão kindle.

“A verdade é que ele faz isso com frequência. Está sempre olhando para trás, vivendo mais na memória do que no presente, muitas vezes alterando as lembranças para torná-las mais belas. Perfeitas. Para ele, a nostalgia é um analgésico tão potente quanto o álcool.”

“Ela desce da banqueta para abraçá-lo. O leve cheiro de suor da pedalada, misturado com vestígios de sabonete e desodorante, resulta em algo próximo de caramelo salgado.”

“É o momento mais solitário da madrugada, aquele que lhe é tão íntimo: quando a cidade dorme, mas você não, e todos os remorsos da sua vida assolam sua mente com uma intensidade insuportável. Barry pensa no pai, que perdeu ainda jovem, e na incansável pergunta: Ele sabia que eu o amava?”

“Ela não parecia estar sob efeito de entorpecentes. Perguntei se gostaria que eu ligasse para alguém. ela disse “não”. Perguntei por que queria se matar. Ela disse que não tinha felicidade em nada e que seu marido e sua família ficariam melhores sem ela. Garanti a ela que estava enganada.”

“O tempo é uma ilusão construída pela memória humana. Não existe passado, presente ou futuro. Tudo está acontecendo agora.”

“Agora, com a mãe, ele tem alguns anos para se despedir, para fazê-la se sentir amada, para dizer tudo que carrega no coração, e há um conforto imensurável nisso. Nos últimos tempos, ele vem se perguntando se a vida não se resume a uma longa despedida daqueles que amamos.”

“Pensa no déjà-vu que o perseguia durante sua vida anterior; a constante sensação de estar fazendo ou vendo algo que já tinha feito ou visto. E se pergunta: será o déjà-vu o espectro de linhas do tempo que aconteceram sem nunca acontecer projetando sombras na realidade?”

“(…) e seis livros que são tudo para ela: De Humani Corporis Fabrica, de Andreas Vesalius; Física, de Aristóteles; Principia Mathematica, de Isaac Newton; A origem das espécies, de Charles Darwin; e dois romances: O estrangeiro, de Albert Camus, e Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez.”

“Queria simplesmente poder deitar à noite em paz, com a mente serena. Ela tenta dormir, sabendo que hoje precisa do sono mais do que em qualquer outra noite de sua vida. Então, naturalmente, o sono não vem.”

“Sabe o que é destrutivo? Viver trancado no nosso minúsculo aquário, nessa piada de existência que os limites dos nossos sentidos primários nos impõem. Viver é sofrimento.”

“Ela come devagar e tenta não pensar em Barry, porque quando se lembra do rosto dele, a impotência abjeta de sua situação se torna intolerável, e não saber o que está acontecendo lhe dá vontade de gritar.”

“Quem pode nos garantir que os atos de algum monstro como Hitler, Stalin ou Pol Pot não serviram para impedir a ascensão de um monstro ainda pior?”

“As três pessoas mais importantes de sua vida se foram, e ela nunca mais vai vê-las. A solidão extrema dessa constatação a dilacera por dentro.”