Entre as novidades da Sistema Solar | Documenta, destaca-se uma nova edição da peça do escritor Thomas Bernhard (1931-1989) que, até hoje, alcançou maior êxito e foi a mais representada. Publicada quando tinha 53 anos, já na sua fase madura, a obra centra-se na personagem Bruscon, um actor tirânico e obsessivo. Entre os seus temas-chave encontram-se o absurdo da existência e do próprio teatro.
Esta tradução, assinada por José A. Palma Caetano, foi publicada pela Assírio & Alvim em 2004, estando o livro esgotado há muitos anos.

Nas palavras do tradutor: «Bernhard deixou-nos uma obra que, para além de bastante vasta, sobretudo se considerarmos que morreu ainda muito novo, apenas com 58 anos de idade, é sobretudo revolucionária, inovadora, polémica, provocante, mas ao mesmo tempo profundamente humana, de alto nível estético e de uma grande sensibilidade, mesmo nos momentos em que se revela mais violenta e mais irreverente.» 
Lembrar que no início deste ano a Documenta lançou 
O Sobrinho de Wittgenstein - Uma Amizade.

Texto de apresentação
O Fazedor de Teatro é uma das peças de Thomas Bernhard que até hoje mais êxito alcançaram e mais representadas têm sido. Pertence já à fase de «maturidade dramática» do autor, pois foi escrita na primeira metade dos anos oitenta, publicada em 1984 e estreada no ano seguinte. 
Uma das reflexões fundamentais, se não a reflexão fundamental a que esta peça e especialmente a figura de Bruscon — a personagem principal — nos conduzem é o absurdo que em tantos actos humanos se contém e que, no fundo, caracteriza toda a existência humana. Poderíamos falar mesmo de uma denúncia do absurdo, que, aliás, se encontra não apenas nesta peça, mas em toda a obra de Thomas Bernhard. O absurdo não só da realidade «fingida» que é o teatro, mas também da existência real a que, no fundo, o teatro serve de espelho, ainda que frequentemente distorcido. E as seguintes palavras proferidas por Bruscon podem, sem dúvida, ser tomadas não apenas como teatro ou literatura, mas como expressão da realidade: Efectivamente servimos toda a vida/o absurdo/de ter nascido/Fatal construção do mundo. [José A. Palma Caetano]

Outros livros do autor
:
 Derrubar Árvores, Antigos MestresExtinção, O Sobrinho de Wittgenstein - Uma Amizade, Autobiografia.


Texto de apresentação
O progresso científico e a sua utilização? 
O homem como cobaia, acessível a percepções desconhecidas do homem normal? 
Duas astúcias, com a mais perversa a obter a sua vitória. 

Há uma bem marcada tendência nos criadores literários de homens transformados: nunca ou quase nunca lhes atribuem a sua nacionalidade. (...) Maurice Renard, na sua obra mais célebre, As Mãos de Orlac (...), germanizou com esse Orlac o pianista duplamente amputado por um desastre ferroviário e sujeito a uma cirurgia exímia que lhe enxertou as mãos de um assassino. 
Neste O Homem Transformado, a mesma tendência é assumida com um desvio mais complexo. O seu Jean Lebris, francês como Renard, é levado à cegueira por uma granada alemã, capturado cego por alemães mas enviado para um país europeu nunca identificado e com uma irreconhecível língua pouco central, onde sofreu a «transformação» que lhe instalou olhos electroscópicos só sensíveis à electricidade ínfima que existe em todos os objectos, em todos os movimentos, em todas as emoções. A intervenção de alemães nesta manipulação orgânica não disfarça a animosidade de Renard contra o país durante largas épocas inimigo da França, e talvez agravada por uma hostilidade pessoal contra os lançadores da bomba que arrasou, durante a Primeira Guerra Mundial, o castelo Saint-Rémy em Hermonville, a ancestral propriedade dos Renard. 
Um ser dotado desta particularidade seria capaz de identificar a presença «eléctrica» de humanos atrás de paredes e outros obstáculos, e até de avaliar estados emocionais prenunciadores de uma qualquer actuação hostil; seria com tudo isto bom trunfo numa espionagem de características políticas. [Aníbal Fernandes]

Outro livro do autor: O Nevoeiro de 26 de Outubro (2023)

 

Texto de apresentação
Quatro das suas aventuras amorosas 
e menos associadas à «normalidade» casanoviana.

Mas… o escritor? Tardio. Primeiro em italiano, com ficções e não-ficções só hoje lembradas por arrastamento, por se acrescentarem ao célebre autor da História da Minha Vida, muitas vezes intitulada apenas Memórias. Casanova começou a escrever este longuíssimo texto de mais de três mil páginas em 1790, mas nunca o publicou. A sua edição póstuma, setenta e três anos depois da sua morte, paralelamente à boa surpresa provocou uma negativa excitação. O seu impávido amoralismo, a insolência de algumas reflexões, a evidente e narcisista paixão por si próprio, irritavam. Houve depois disto uma pausa, um esquecimento. Em 1825, uma edição bem comportada entregou-o ao público amaciado; só em 1960 este Casanova foi conhecido integralmente, revisto a partir do manuscrito e corrigido em todos os pontos em que o seu francês resvalava. Hoje compreende-se que Casanova é um escritor raramente erótico e nunca pornográfico — «admirável», disse Robert Desnos, «pela sua faculdade de desejo, amor e aventura.» [Aníbal Fernandes]

A selecção destes quatro textos, Quatro Histórias da Minha Vida (Uma seleção tendenciosa) seguidas de História Clínica e Autópsia do Cavaleiro Casanova, por Gregorio Marañónprocura mostrar Casanova em quatro episódios amorosos menos convencionais, afastando-se do modelo típico de conquista que habitualmente lhe é atribuído.

 


Texto de apresentação
Uma história à Swift, soprada por uma ligeireza enlouquecida.

A conversa tinha saltado de tema a tema, insistido em maldosas apreciações, deitando abaixo aquele poeta que nunca sairia dos seus desastres, quando uma razão qualquer a desviou para a forma — a forma que sobressai e triunfa, ao ponto de esmorecer ou passar a secundárias outras qualidades que têm, em geral, maior peso na literatura. Foram dados exemplos: franceses, portugueses, ingleses. E nessa altura, Luiz Pacheco perguntou: «Já leram um curioso livro, Lord Algernon, de um suíço chamado Pierre Girard? O que lá se conta vale um pouco menos do que a forma habilidosamente dominada para o contar.»

Na antiga livraria Buchholz, nesses dias sob o domínio de uma avinagrada e vetusta fräulein que parecia odiar quem lhe comprasse um livro, fiquei no dia seguinte a saber que Lord Algernon era dado como inexistente no mercado livreiro francês; e só um daqueles acasos, frequentes em Paris e nos alfarrabistas do Sena, fez com que anos mais tarde eu lhe deitasse a mão num envelhecido exemplar da editora Kra e da sua primeira edição de 1925. Luiz Pacheco tinha, de facto, razão: o jovem Lord Algernon impunha-se página a página, atrás de todo um espectáculo formal; mas ao invés do que habitualmente acontece quando a formalidade é referida em relação a um texto, a sua não procurava requintes estilísticos nem requintadas disciplinas gramaticais; só revolucionava, servida por uma invulgar semântica e pelo singular talento de um criador loufoque de imagens inesperadas (às vezes voluntariamente desatinadas), a servirem as banais realidades do mundo. 
A sua história, que através das páginas corre como um Swift soprado por essa ligeireza loufoque (...), arrasta o leitor e surpreendendo-o com imagens divorciadas da realidade convencional, impossíveis num escritor que se obrigue, nas suas ficções, a respeitar a lógica bem comportada e serena que a todos nos rodeia e dirige. [Aníbal Fernandes]



Texto de apresentação
«Falar da obra de Bove é falar sempre de outra coisa. É com a afectação da inocência que Bove descreve tantas realidades horríveis, até mesmo o horror latente de toda a realidade.» Raymond Cousse

Em Agosto de 1944, depois de quatro anos de domínio nazi, Paris foi libertado. E dois meses mais tarde Emmanuel Bove foi visto nas suas ruas, regressado da Argélia no péssimo estado físico que só iria consentir-lhe mais dez meses de uma vida dia a dia vivida em precárias circunstâncias. Não se sentia com forças para gozar os tão ansiados prazeres que a liberdade reconquistada teria podido conceder-lhe. 

Estes sete contos de Emmanuel Bove foram, em 1928, reunidos num volume. O primeiro, Henri Duchemin e as suas sombras, dá o título ao livro e adquire neste conjunto outro sentido; porque estas «sombras», que começaram por ser apenas de Duchemin quando este conto existia isoladamente (foi a primeira obra escrita por Bove), ao assumirem-se como um título que precede outros seis contos fazem-nos entender que todas as suas personagens principais são «sombras» de Duchemin; prolongam-no com os seus desejos incertos e as suas situações sem saída, todas disfarçam sob uma calma aparente uma subtil crueldade que se faz, assim diluída, a inconfundível marca de Emmanuel Bove.[Aníbal Fernandes]