João Tordo: Retrato de um homem com barba vestindo uma camisa verde com estampa de barcos a vela sobre fundo escuro.

Poeta, romancista e filósofo de formação, Tito Leite construiu sua literatura no encontro entre a palavra, o sertão, a espiritualidade e as contradições da experiência humana. Sua passagem pela vida monástica — e, mais tarde, o difícil processo de afastamento desse universo — atravessa uma obra marcada por personagens em conflito, pela busca de sentido e por uma escrita que não se esquiva das feridas.

Em A Casa dos Malditos, seu trabalho mais íntimo, Tito revisita a experiência em uma clínica destinada a religiosos e transforma lembranças dolorosas em matéria literária. Nesta conversa com Madame K, o escritor fala sobre Heidegger, poesia, fé, alcoolismo, liberdade e memória; explica por que o sertão continua sendo sua paisagem interior; revela seus encontros literários e antecipa os caminhos que pretende percorrer depois de um livro que o obrigou a abrir os próprios porões.

Madame K — Tito, sua trajetória reúne poesia, romance, filosofia e uma intensa experiência de vida monástica. Como esses diferentes caminhos moldaram o escritor que você é hoje?

Tito Leite — Esses diferentes caminhos formam a tessitura da minha escrita. Minha grande referência filosófica sempre foi Martin Heidegger. Os seus textos sobre a linguagem enquanto morada do Ser despertaram o meu interesse pela poesia. Com esse pensador, aprendi que o poema é também uma ponte entre os homens e os deuses. Essa busca especulativa, de certa forma, era um convite ao sagrado, e, com os ensinamentos da vida monástica, trabalhei cada poema e texto como se fosse um jarro sagrado do altar, com muita paciência e sabendo que literatura não funciona com pressa. Já o romance surgiu por último, de uma necessidade de falar sobre o meu sertão e sua realidade tal qual ela sangra.

Capa do livro A Casa dos Malditos: Memórias de um ex-monge beneditino de Tito Leite

“Com os ensinamentos da vida monástica, trabalhei cada poema e texto como se fosse um jarro sagrado do altar.”

MK — Você começou publicando poesia antes de migrar para a ficção. O que a poesia continua oferecendo à sua escrita, mesmo quando você se dedica ao romance ou às memórias?

TL — Gosto de acreditar que a poesia afina o sangue da minha prosa, e percebo que algumas ferramentas do meu processo de escrita como poeta continuam presentes na minha prosa, até mesmo quando penso num personagem ou no foco narrativo. De modo especial, no meu desejo de ter um texto enxuto e compacto, sem nenhuma gordura, deixando na página só o necessário ou o filé. Observo bem isso nas frases curtas que utilizo para oferecer velocidade à narrativa.

“Gosto de acreditar que a poesia afina o sangue da minha prosa.”

MK — Seus livros costumam explorar personagens marcados por conflitos existenciais, pela violência e pela busca de sentido. De onde nasce esse interesse pelos dilemas humanos?

TL — Acredito que esse interesse é fruto da minha experiência monástica, da minha alma atravessada de conflitos. A minha cabeça era uma dualidade gritante, uma divisão de dois mundos e uma eterna crise vocacional. Eu sempre carregava um nó na garganta e sangrava por dentro quando pensava em cada dilema. Eu era uma ferida aberta e não sabia. Eu queria o mosteiro e a vida mundana, e colocava no papel cada gota da minha aflição.

Por outro lado, as minhas primeiras influências da literatura moldaram a minha proposta literária, o que resultou na busca pelo dissonante, pelo disforme, pelo desejo de trabalhar com a fealdade do real. Assim, busco o imo da densidade humana. Tenho uma predileção pelas almas conflitosas porque eu também sou um espírito em estado de conflito. Eu sou um homem que sangra.

“Tenho uma predileção pelas almas conflitosas porque eu também sou um espírito em estado de conflito. Eu sou um homem que sangra.”

MK — Em A Casa dos Malditos, você revisita um período extremamente delicado da sua vida, marcado pela passagem por uma clínica destinada a religiosos. Em que momento percebeu que essa história precisava ser contada?

TL — A experiência dentro de um mosteiro é muito forte. É uma marca que permanece para sempre, tatuada na vida de quem viveu. Comecei a fazer algumas anotações e escrever sobre algumas situações. No começo, era como se fosse uma terapia, e foi bastante curativo.

Em 2024, aconteceu algo interessante. Participei de uma mesa na Flip, na Casa Estante Virtual, e, pela primeira vez, mencionei minha experiência dentro da clínica e o desafio difícil de começar uma nova vida fora do mosteiro. Após o término da mesa, as pessoas começaram a comentar sobre minha saída da vida monástica com bastante interesse e a pedir que eu escrevesse um livro sobre “A Casa dos Malditos”. Uma narrativa sobre a casa dos malditos e a ideia de abrir o claustro do mosteiro surgiram na minha mente como uma imagem para começar o processo de escrita de um livro em que fé e vida mundana colidem.

“A experiência dentro de um mosteiro é muito forte. É uma marca que permanece para sempre, tatuada na vida de quem viveu.”

MK — O livro trata de temas sensíveis como fé, culpa, desejo, alcoolismo e liberdade. Houve receio de expor experiências tão íntimas? Como foi o processo de transformar essas vivências em literatura?

TL — Foi o livro mais difícil que escrevi. Confesso que pensei o contrário: que bastava apenas despejar no texto as minhas lembranças. Quebrei a cara. Na escrita não é assim que as coisas funcionam. E A Casa dos Malditos foi a obra que exigiu o maior trabalho de linguagem, isso porque, em cada página, tudo é muito cru.

Pensei muito no ritmo do livro, em como gerar velocidade e não deixar o leitor cansado. Escrita, além de trabalho de linguagem, é forma. E, nessa direção, pensei na melhor maneira de contar a minha história. Como sabemos, há histórias maravilhosas que, não sendo bem contadas, não viram um bom livro. E, por outro lado, há histórias que não são interessantes, mas são tão bem contadas que se transformam num livro brilhante.

O processo de escrita foi muito dolorido. Em vários momentos eu fechava o arquivo, respirava um pouco, ficava com o nó na garganta e até pensava em desistir do livro. E fazia essa pergunta: por que abrir esses porões novamente? Mas, no final, foi também tudo muito curativo.

“Em vários momentos eu fechava o arquivo, respirava um pouco, ficava com o nó na garganta e até pensava em desistir do livro.”

MK — Em vez de um relato de acusações, o livro parece buscar compreender as contradições humanas dentro e fora da vida religiosa. Qual foi seu maior compromisso ao escrever essa obra: a verdade dos fatos, a memória ou a força literária?

TL — Realmente não é uma narrativa de acusação ou libelo de vingança. Talvez seja um testemunho contra mim mesmo, contra as minhas contradições e o grande fardo de ser um alcoolista. A memória foi a minha maior motivação. Recordar é preciso, porque, muitas vezes e de muitos modos, o esquecimento é também uma forma de violência institucional.

No fundo, eu acredito que a minha verdadeira profissão monástica aconteceu quando abandonei o mosteiro e encontrei uma vida escondida em Cristo, no silêncio de cada coisa do cotidiano, que, no cultivo do inaparente, revela o extraordinário.

“Recordar é preciso, porque, muitas vezes e de muitos modos, o esquecimento é também uma forma de violência institucional.”

MK — A espiritualidade permanece presente na sua escrita, ainda que sob novas perspectivas. Como sua relação com a fé se transformou ao longo dos anos?

TL — A minha fé na Igreja não é a mesma. Já não consigo participar de uma celebração eucarística. Ficou algo trincado e, dentro de mim, uma fratura. Penso que o modelo de vida consagrada, infelizmente, já não fala de um Deus que é amor e misericórdia.

Acredito em Deus, mas vivo a minha espiritualidade longe das missas e de seus ritos. Ainda rezo o terço, pensando nas pessoas que amo. Não acendo incenso no altar, mas sinto Deus no meu lar e não num banco de igreja, nem seguindo qualquer preceito do Vaticano. O Evangelho diz que na casa de Deus há várias moradas, e acredito que o coração humano é a melhor residência.

Afirmo sem titubear: fora da religião encontrei o sagrado que no mosteiro nunca experimentei. Até porque sou um homem melhor longe da Igreja.

“Fora da religião encontrei o sagrado que no mosteiro nunca experimentei.”

MK — Em romances como Dilúvio das Almas e Jenipapo Western, o sertão e a realidade nordestina ocupam um lugar central. Qual é a importância desse território na construção da sua literatura e da sua identidade como escritor?

TL — O sertão é a minha alma, a minha subjetividade, uma terra árida em que tudo é fértil. É até curioso: morei muitos anos em Olinda, e também em outras cidades, mas sempre olhei o mundo como um sertanejo. Alguém que fica feliz quando tem inverno e, mesmo quando tudo é seco, insiste na terra para que de suas mãos um novo fruto brote.

Desconfio que é do sertão que vem o meu otimismo. Pois, mesmo quando estou todo quebradiço, sobram forças para juntar os cacos.

“O sertão é a minha alma, a minha subjetividade, uma terra árida em que tudo é fértil.”

MK — Você já afirmou, em outras entrevistas, que sua escrita é resultado dos encontros literários que teve ao longo da vida. Quais autores continuam dialogando com você e influenciando sua obra hoje?

TL — Gosto bastante de dizer que a minha escrita é o resultado dos meus encontros literários. E a literatura é sempre um bom encontro. Não acredito num autor que não conhece os seus pares. É de fundamental importância conhecer os clássicos, mas também acompanhar os novos autores.

Gosto muito da obra da Micheliny Verunschk, uma autora que sempre ganha a minha atenção. Morgana Kretzmann é outra que acompanho sempre. Para mim, ela é uma das escritoras mais talentosas da atualidade. Emmanuel Carrère, estou lendo tudo. É um dos escritores mais competentes da literatura contemporânea, com essa mescla de autobiografia, história, ficção e jornalismo. Acho incrível: mesmo quando esse autor fala dele num livro, ou de outra pessoa numa biografia, é também de cada leitor que ele fala. Isso porque suas narrativas têm um caráter tão universal que, em algum momento, o leitor se identifica com ele.

Ultimamente tenho lido bastante Hilda Hilst. A obra dessa poeta me queima por dentro. Ela fez da poesia a sua vida secreta. Recentemente li Detalhes, de Ia Genberg, e ainda carrego no meu coração cada linha desse livro. Penso que um bom livro, além de um grande encontro, é também uma aula de escrita criativa.

“A obra de Hilda Hilst me queima por dentro. Ela fez da poesia a sua vida secreta.”

MK — Depois de um livro tão pessoal quanto A Casa dos Malditos, que caminhos você imagina para sua literatura daqui em diante? O que os leitores podem esperar dos seus próximos projetos?

TL — Já estou escrevendo um novo romance, que é diferente de tudo que escrevi. Acredito que, com a experiência de A Casa dos Malditos, comecei a enxergar outras veredas na literatura. Assim sendo, os livros vindouros terão como pretensão fazer um convite ao leitor para sair da zona de conforto. Desconfio que, com o meu livro de memórias, o leitor já pode esperar narrativas escritas por um autor que gosta de colocar o seu mundo em questão.

“Com a experiência de A Casa dos Malditos, comecei a enxergar outras veredas na literatura.”

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