Livro: Minha Querida Sputnik
Autor: Haruki Murakami

Capa do livro Minha querida Sputnik de Haruki Murakami


Eu gosto e desgosto de Murakami. Em geral, não passo inutilmente por um de seus livros. Eles são plenos de cultura, de música e de literatura, eu aprendo com os livros dele. Mas, como um personagem dele – de outro livro – diz, “ninguém se interessa por livros inconcludentes”. A maior parte dos livros de Murakami são inconcludentes.

Uma outra característica de suas obras é que Murakami gosta de tratar de mundos paralelos ou de realidades fantásticas que podem, às vezes, se encontrar. Isso muitas vezes me incomoda, pois alguns (ou muitos) acontecimentos de um livro restam sem explicação. É aceitar ou não. Eu não aceito, eu não gosto, pois acho fácil não explicar algo, deixar o acontecimento no ar.

Outras características das obras de Murakami são:

– gatos;

– o personagem principal masculino tem relações eventuais com uma mulher casada;

– o personagem principal masculino gosta de uma moça que o vê apenas como amigo;

– se um personagem conseguir passar para uma realidade paralela, não vai conseguir voltar;

– muitos acontecimentos são fantásticos ou meramente sem explicação alguma.

Este “Minha Querida Sputnik” é um dos livros dele de que menos gostei.

Se você não quiser saber partes do enredo, não leia os parágrafos a seguir.


A história.

O personagem principal, um jovem professor, ama uma moça que quer ser escritora, mas que julga não ter talento, ou não tem mesmo. A personagem da mocinha me é irritante. Esse tipo de gente insegura e sem método não me seduz. Ela não trabalha nem estuda para se dedicar à literatura A mocinha, Sumire, apaixona-se por uma mulher mais velha, Miu, e passa a trabalhar para essa mulher. Adeus literatura. O que parecia ser um romance sobre as agruras da escrita muda de viés. Em dado momento, Sumire e Miu viajam para a Europa, a trabalho, e aproveitam para tirar alguns dias de descanso em uma ilha grega. Ilha grega é clichê. Na pequena ilha, Sumire desaparece, de forma misteriosa e jamais explicada e, aparentemente, para sempre. Fim do livro.

Como já disse, não gostei do livro pois ele me deixou à espera. À espera de um desfecho, de uma conclusão, de um sentido.

A tradução.

Não gostei da tradução, em especial porque foi feita a partir da tradução inglesa. Tradução da tradução é demais de ruim. Isso é preguiça e falta de cuidado da editora. Ao final, não temos certeza se o autor escreveu muitas frases daquela maneira. Há um curto trecho em que a palavra agradável se repete três vezes. Será que verdadeiro escritor não teria o cuidado de usar outros sinônimos para evitar a repetição? Além disso, logo no início do livro, lê-se que a Sputnik foi lançada da base de Baikanor, quando sabemos que a base se chama Baikonur.

Trechos.

De qualquer modo, há trechos muito bons, como sempre em Murakami. A seguir, cito algumas partes do livro:

“Na época, Sumire – ‘Violeta’ em japonês – concentrava todos os seus esforços em se tornar uma escritora. Não importa quantas opções a vida colocasse em seu caminho, era ser romancista ou nada. A sua determinação era um rochedo de Gibraltar. Nada se interpunha entre ela e sua fé na literatura.”

“(…) as coisas inúteis também não têm um lugar neste mundo longe de ser perfeito?”

“O mundo tinha perdido todo senso de realidade. As cores eram artificiais, os detalhes crus. O fundo era de papel machê, as estrelas feitas com lâminas de alumínio. Dava para ver a cola e a cabeça dos pregos mantendo tudo junto.”