Eis aqui mais um poema sobre o processo criativo, digo melhor, uma angustiosa e visceral investigação sobre a luta titânica do poeta com a palavra, numa tentativa de domesticar o inefável, o quase inatingível – matéria-prima prevalecente da poesia.

Tem-se nos versos de Ramos os informes da relação muito próxima entre a arte e a vida, haja vista que esta última obsequia alguns dos principais elementos que dão suporte àquela – as experiências, os desejos, os pecados –, a partir dos quais o comezinho – inscrito nas sombras, em seus aspectos ocultos, nas pequenezas mundanas – convola-se em algo sublime.

Como diz o poeta, o poema não tem a necessidade de “ser” o firmamento – o ideal inalcançável –, pois que lhe basta ser “um reflexo índigo do céu”: a arte que o perpassa, ainda que imperfeita, deve ser fiel à verdadeira natureza da vida, um “espelho a recordar” a sua beleza caótica, cruel, até mesmo violenta.

J.A.R. – H.C.

Agostinho da Silva: Retrato em preto e branco de um homem de óculos e bigode, vestindo terno.

Péricles E. da S. Ramos

(1919-1992)

Ars Poetica

I

Em silêncio travas o combate

contra o algodão e a lua,

contra as nuvens, contra o sol,

contra o linho,

a tela em branco do cinema.

Lá fora, a vida é um filme ao sol.

Aqui, espera a página que nela se projetem

as sombras pecadoras do salão, da alcova, do quintal,

como se fossem o rumor das asas de algum anjo.

Enquanto isso,

habitam o teu corpo, instalam-se em teu sexo.

II

Mas a inefável luta contra a areia,

na qual pingas teu sangue,

o sangue de teus olhos,

como tinta azul:

também azul é o céu,

e não o atinges.

III

Como chegar ao alvo,

como construir a casa inabalável

com uma colmeia zumbidora

de palavras,

com estas conchas quebradas?

Conchas, conchas do mar,

do mar que tão embaixo

atinge todavia o céu,

ao refleti-lo em suas águas.

Seja a palavra, seja o verso,

por mais baixo que estejam,

um reflexo índigo do céu,

do céu e sua angústia,

um espelho a recordar,

vermelha,

a vida, esta demente, esta devassa,

esta possessa a devorar seus próprios filhos.

Pintura realista contemporânea retratando uma mulher empurrando uma lixeira e outra pessoa em uma cadeira de rodas.

Rotina diária

(Koppány Árnyas: artista húngaro)

Referência:

RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Ars poetica. In: __________. A noite da memória. São Paulo, SP: Art Editora, 1988. p. 8-9. (Coleção “Toda Poesia”; v. 6)